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É hora de combinar com os russos: Os desafios da comunicação pública para aproximar governos e cidadãos

Humberto Dantas

12 de fevereiro de 2020 | 13h11

Autor do texto:

Michael Guedes Aquino é consultor, jornalista e professor universitário. É especialista em Master em Liderança e Gestão Pública, pelo CLP/SP, certificado como “Leadership and Management for Brazil’s PublicSector Leaders”, pela Harvard Kennedy School/EUA, e formado no “Curso Superior de Dirección Pública Local para Gestores Iberoamericanos”, pela Ebrópolis y Ayuntamiento de Zaragoza/Espanha. Foi secretário de Comunicação Pública da Prefeitura de Juiz de Fora por quase sete anos.  Atualmente cuida da gestão de bem-estar corporativo de um grande grupo de logística e é professor do CLP.

Neste artigo, Michael discute como é importante que o gestor público tenha interação com a sociedade a fim de implantar políticas públicos e projetos que são realmente necessários para os cidadãos. E, a isso, ele afirma que é preciso haver uma estratégia de comunicação para que o gestor consiga chegar até o outro lado. Leia:

Em resenhas de boleiros, vira e mexe uma das muitas histórias de Garrincha é lembrada para mostrar que sua irreverência ia muito além dos dribles, passes e gols que fazia. Contam que, antes do jogo contra a antiga União Soviética, na Copa de 58, o craque das pernas tortas – aparentemente desinteressado – ouvia uma preleção do técnico Vicente Feola, com dicas e planos para fazer o gol se tudo fosse executado conforme ensinava aos jogadores. Ao final da palestra, Garrincha pediu a palavra e fez a pergunta definitiva: “Professor, mas o senhor combinou tudo isso com os russos?”. Ainda que “combinar com os russos” hoje em dia pode até levar ao impeachment, a simplicidade da constatação de Garrincha pode muito bem ser aplicada na política e na gestão pública, sobretudo no relacionamento com a população. Por mais simples e óbvio que pareça, a implantação de políticas públicas, projetos ou ações muitas vezes não leva em consideração o que os cidadãos realmente estão demandando, o que eles estão exigindo de verdade dos líderes públicos como prioridade.

O cenário se repete em muitas cidades e estados – e com certeza isso terá sentido na cabeça de muitos gestores ao lerem este artigo agora. Tem-se uma boa ideia, pensada dentro de uma sala fechada, na luz do raciocínio de mentes políticas sensíveis e com embasamento de técnicos brilhantes, com seus gráficos incontestáveis. Outros técnicos transformarão essa ideia em um projeto fundamentado, dentro das regras e formatação necessárias para a busca da viabilidade financeira. O bom político articulador, com muita sola de sapato e viagens, descobrirá os caminhos nas esferas estadual ou federal para conseguir os recursos essenciais para a implantação do projeto. Aí será vencer os prazos da burocracia – termos de referência, editais, licitação, contratos, publicações, ordem de serviço, medições, reajustes, necessidade de mais recursos, outros prazos e, por conta deles, respostas de pedidos de informação do Ministério Público, audiências públicas na Câmara, pressão da imprensa, entre outras necessidades, o que demanda a atuação de mais de um cem número de servidores, entre técnicos e agentes políticos.

Obras ou projetos concluídos, com sorte ainda dentro do mandato, chama-se a turma da Comunicação para pensar num grande ato de entrega, afinal está se atendendo a algo que vai mudar a vida daquela comunidade, que pode ser uma nova creche, um posto de saúde mais estruturado ou mesmo um grande programa de capacitação. Quem irá discutir um investimento em educação, saúde ou emprego, não é mesmo? Mas aí, durante o lançamento – em meio a festa de música, fogos e discursos -, o agente político desce suado e orgulhoso do palanque e, antes de entrar no carro oficial já com o ar condicionado ligado no talo, é interceptado pela dona Maria. Confiante, ele se dispõe ao contato mais próximo, preparado para mais um abraço afetuoso ou mesmo um discreto aperto de mão, no caso de a cidadã estar envergonhada por estar perto do líder. Dona Maria, no entanto, não faz uma coisa nem outra, deixando os braços do político no ar. Tira um pequeno pedaço de papel da bolsa, onde uma letra esforçada aponta para o que parece ser um endereço. “Seu prefeito, a creche é importante, mas o que a gente precisa mesmo é que tampe o buraco enorme que está neste endereço aqui”, conta ela.

Como Garrincha com Feola, Dona Maria trouxe o agente político para a realidade. Às vezes, tem-se um bom projeto, com ótima intenção e bem formulado. Mesmo com todas as dificuldades, conseguem-se os recursos e até entregar a obra em prazo hábil. Mas necessariamente aquela entrega não significará reconhecimento de gestão. Gasta-se tempo, energia e recursos e o resultado será a frustração de não atender, de fato, ao nobre propósito de servir ou seguir o que foi planejado. É aí que cabe a pergunta de Garrincha: isso foi realmente combinado? Comunicação, cada vez mais, é a arte de saber ouvir. Mais do que aquele que fala bem ou escreve com propriedade, é mais efetivo o que ouve bem. Ou seja, nos tempos atuais, a efetividade de qualquer mensagem é medida pelo bom diagnóstico e por sua capacidade de envolvimento com o público-alvo. Essa é uma mudança de paradigma fundamental para a gestão pública. Se for buscar nos livros ou nas bancas de faculdade, a comunicação é ensinada a partir da premissa de um emissor (todo poderoso), que constrói a mensagem, escolhe o veículo para transmiti-la e a empurra goela abaixo de um receptor, um destinatário passivo que, pressupõe-se, vai consumir o que foi comunicado. A última década, porém, veio destruir também essa estrutura.

Além da maior crise financeira da história recente do país, da grave crise política sem precedentes, da crise hídrica na Região Sudeste, das muitas epidemias que antes estavam caladas, os últimos anos trouxeram uma crise ainda pouco falada: a crise de opinião pública. Das manifestações de junho de 2013 ao atropelamento das pesquisas nas eleições de 2018, ouvir a população tornou-se algo muito mais complexo. As onipresentes redes sociais concederam acesso direto dos usuários primeiro a seus familiares distantes, a seus grupos de interesses, a seus ídolos e, por fim, a seus governantes. É um contato que necessita de maturação de todos: dos usuários, dos agentes públicos e governos e das próprias plataformas. Até que isso aconteça – e só os anos dirão isso -, os efeitos colaterais terão que ser tratados para o combate de injustiças de parte a parte e das polarizações agressivas, seja na formulação de leis mais modernas, em algoritmos mais confiáveis e democráticos e em estratégias mais eficazes de participação. Enquanto isso tudo é discutido, uma regra se impõe: dialogar.

Ainda que o radicalismo de muitos traga esse sentimento ranheta e ácido na nova forma de relação do poder público com a comunidade, proveniente desse acesso direto, se recolher ou ficar acuado é receita certa para o fracasso. Por mais que seja uma gruta escura, o diálogo é o único caminho para chegar até a fonte do outro lado. Para ter o mínimo de participação na narrativa, o governante tem que se abrir para essa interação. É a única forma de não ser refém dela. A nova comunicação realmente pública precisa de mobilização e engajamento para ser eficiente e efetiva. Quem quer produzir a mensagem, tem que mobilizar o público-alvo para construí-la junto e, assim, engajar todos no seu resultado. Se isso não for feito como estratégia, a comunicação continuará sendo, silenciosamente, um dos maiores represadores de políticas públicas.

Que os políticos americanos não nos ouçam, mas é preciso combinar com os russos.