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E as reformas?

Flávio Emílio Rabetti é Diretor de Convênios e Contratos na Prefeitura Municipal de Campinas. Professor na Escola de Governo do Servidor. Master em liderança e gestão pública com módulo em Oxford – Blavatnik School of Government- Inglaterra pelo Centro de Liderança Pública (CLP). Pós-Graduado em Direito Público com ênfase em Direito Constitucional e Administrativo pela PUC Campinas. Graduado em Direito pela USF.

15 de abril de 2021 | 12h59

Nas eleições de 2018, além das narrativas extremas e polarização, vimos o então candidato Jair Bolsonaro (atualmente sem partido) embalado em uma onda de reformas, mudanças, esperança e fortes ataques na destruição da esquerda no país. O candidato dizia representar a ruptura com os erros do passado e a vontade de fazer política de uma maneira muito diferente daquela que reinava no país há tanto tempo. Se viu embalado pelo lavajatismo e também pelo antipetismo, ganhando apoio para fazer as coisas de forma diferente.

Assim que foi eleito, o Presidente, capitão reformado e deputado federal por 07 mandatos (1991 a 2018), discursou em sua Cerimônia de Posse sobre a necessidade das reformas e, dentre outras falas, revigorar nossa democracia. Ao iniciar sua jornada, o Presidente, longe de governar, passou a usar a tática do enfrentamento como motor de suas narrativas, colocando em seu Ministro da Economia todo o peso da necessidade de efetivar a agenda das reformas junto ao Parlamento e a sociedade.

Neste sentido, a agenda econômica das reformas não se concretizaram, excetuando-se a reforma da Previdência – que através do Governo Temer já, estava consolidada – sendo aprovada mais por empenho do parlamento do que realmente pelo esforço do governo.

O Presidente diferentemente do seu discurso, optou pela pauta de costumes no Congresso, deixando as reformas estruturais em segundo plano, assim como as iniciativas anticorrupção proposta pelo ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro. Ao encarar a pandemia, percebeu que o Brasil não havia feito a lição de casa. As reformas seguem emperradas, a liderança do governo é amadora e Bolsonaro segue mais interessado em criar narrativas do que encarar a realidade.

Em pouco tempo, a inércia está cobrando o preço. Contas desajustadas, leitos lotados, descrédito governamental enquanto o presidente conduz seu show alicerçado em cloroquina e negacionismo. Depois de um ano de pandemia, o foco surge na reeleição e dentro de uma nova coalizão capitaneada pelo centrão. Mas talvez seja tarde demais. Sem recursos e endividado, o país surge mais cético e decepcionado com a falta de resultados do bolsonarismo. O populismo presidencial perde seu encanto na medida que a realidade se abate diante dos bolsos dos brasileiros, agora vazios, encarando uma variante de vírus letal.

Acenos antidemocráticos, crises intermináveis, incompetência na compra de vacinas, choques entre os poderes e enfrentamento com o alto comando militar são apenas alguns dos ingredientes de uma presidência que passa longe de suas promessas e acenos eleitorais. Um verdadeiro estelionato eleitoral que cala fundo em enorme parcela da população que acreditou nas palavras de um presidente, hoje desacreditado. O descrédito de Bolsonaro se ampliou em suas bases eleitorais.

Está longe dos liberais, lavajatistas, conservadores e antipetistas. Conseguiu se afastar do mundo financeiro, que divulgou manifesto contra o governo, ao mesmo tempoq ue entrou em choque com os militares, resultando no afastamento conjuntos dos comandantes das Forças Armadas. O fato é que as reformas (tributária, administrativa e pacto federativo), tão necessárias para termos a máquina pública eficaz, está longe de ocorrer, tendo o atual Governo o descredito deste feito, perdendo o Presidente seguidores que acreditavam em seu discurso de mudança.

Há quem diria até que Olavo de Carvalho não apoia mais as falas do então chefe do executivo federal.

Nota-se que as dificuldades em governar do Presidente está cada dia mais difícil. Olhando a questão do orçamento, Bolsonaro encontra-se em um dilema, pois se sancionado pode incorrer em Impeachment por pedalada fiscal em orçamento irresponsável e se não sancionado ocorrerá a perda do apoio político do Centrão, comprometendo qualquer coalizão para pautar as reformas.

Diante de tantas incertezas do Governo e do agravamento no índice na taxa de pobreza no país, restando menos de dois anos para as próximas eleições, o cenário para as reformas são os dos mais pessimistas. A grande mudança na criação de agendas e diálogos pautados nas reformas poderá ocorrer após 2022, quando o poder do voto elegerá um presidente que o discurso de destruição dará lugar ao discurso realista de construção

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