Diversidade, porque é bom para todos

Humberto Dantas

08 Março 2018 | 11h55

Autoria: Isabel Opice é mestre em economia, líder MLG, atuou na Secretaria de Governo do Estado de São Paulo e atualmente estuda Gestão Pública em Harvard.

 

Quando comecei meu mestrado em políticas públicas em Harvard, esperava encontrar diferenças na qualidade da infraestrutura, dos professores e das aulas em relação às minhas experiências acadêmicas no Brasil. Porém, nenhuma dessas diferenças me surpreendeu mais do que a diversidade que encontrei dentro da sala de aula. Aqui, existe um esforço explícito de se criar um ambiente de ensino diverso em termos de raça, gênero e geografia. Na minha classe há pessoas negras e praticamente o mesmo número de alunos e alunas. Durante meu curso de graduação e mestrado em economia, estudei somente com um negro; o percentual de homens na turma sempre foi superior ao de mulheres; e quase todos os alunos vinham de São Paulo, como eu.

As universidades americanas enxergam diversidade como um valor. De fato, comprova-se a aplicação do princípio quando se entra em uma sala de aula. A forma como isso é feito é parecido com o que vem sendo aplicado no Brasil a partir da Lei de Cotas – e é ótimo que o nosso país caminhe na direção de um ensino superior mais inclusivo. Além dos critérios tradicionais de um processo seletivo, nos EUA considera-se também raça, gênero, países de origem e orientação sexual. Estar em um ambiente de aprendizado diverso definitivamente enriquece o conteúdo das discussões, uma vez que pessoas de diferentes contextos trazem ponto de vistas nem sempre óbvios para seus colegas. Além disso, se tivesse estudado com mais negros, mulheres e pessoas de outras regiões durante a universidade no Brasil teria sido beneficiada da mesma forma como vem acontecendo por aqui.

No livro “Blink – A decisão num piscar de olhos”, o autor descreve como o nosso instinto atua no processo de tomada de decisões, muitas vezes decidindo corretamente com base em pouquíssimas informações. Um exemplo é um pesquisador que consegue prever, com alta acurácia, se um casal ficará junto ou não pelos próximos 15 anos observando apenas 3 minutos de interação entre os dois. O julgamento é baseado em um conhecimento construído ao longo de muitos anos, em que o pesquisador cria associações entre o comportamento observado e o futuro de um relacionamento. Muitas vezes, esse diagnóstico rápido é mais efetivo do que uma análise longa e profunda.

Mas há um lado não tão animador neste mecanismo mental. O julgamento intuitivo – que, por um lado ajuda na tomada rápida de decisões – também está presente quando interagimos com outras pessoas. E as nossas percepções sobre as mesmas podem ser inconscientemente tendenciosas, com base em associações às quais fomos expostos ao longo de uma vida, que muitas vezes levam a preconceitos e discriminação. Como exemplo, o autor cita o caso de orquestras americanas que passaram a contratar músicos com base em uma “performance cega”, sem conhecimento sobre o sexo dos concorrentes. Desde então, o número de mulheres aumentou em cinco vezes.

Nós criamos associações rápidas, ou estereótipos, usando ideias que já estão presentes em nossa mente, antes mesmo de refletir sobre as implicações das mesmas. No exemplo anterior, dado um ambiente em que as orquestras eram formadas apenas por homens, era natural a associação entre bons músicos e pessoas do sexo masculino. A mudança no processo de seleção permitiu não só o aumento de mulheres, como também a criação de novas associações.

Aqui, tenho percebido a desconstrução de estereótipos constantemente e dentro da sala de aula. Se a imagem que tinha da Rússia antes era de um país frio e de um presidente autoritário, hoje também penso em uma colega inteligente e doce quando ouço alguma referência ao país.  Se antes acreditava que homens se engajam mais em discussões, é talvez só porque eram maioria, aqui acho que as vozes se igualam. Por fim, se quase não tinha referência sobre o que era ter um colega de classe negro, hoje penso em um amigo específico cujas perguntas sempre surpreendem pela elevada complexidade e clareza.

Por um lado, o nosso julgamento inconsciente nos ajuda quando precisamos decidir rapidamente, mas ele pode não estar alinhado aos nossos valores. Nós criamos estereótipos de como bons músicos, líderes, políticos e empregados devem se parecer e, muitas vezes, não temos consciência sobre o que estamos julgando quando conhecemos alguém, quando estamos votando ou contratando um funcionário.

Nossas primeiras-impressões são criadas, sobretudo, de acordo com o ambiente em que vivemos. Nesse sentido, um ambiente mais diverso permite ampliar experiências e desconstruir estereótipos. Se quisermos um Brasil menos racista, machista e regionalista, devemos levar diversidade a sério, não só como política pública mas como valor. Ampliar o acesso ao ensino superior é um caminho, mas  podemos aplicar esse mesmo princípio no nosso dia a dia, nos ambiente de trabalhos, nos seminários que organizamos ou na escolha dos nossos representantes.   Somente assim, teremos gerações menos sujeitas a tais atalhos mentais e mais abertas à diversidade.