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Desenvolvimento, complexidade e humildade

Humberto Dantas

26 de outubro de 2017 | 07h00

Texto de autoria de: Rodolfo Fiori, engenheiro, Diretor Executivo da Muove Brasil e Líder MLG

 

Diversos atores, organizados ou não, formam redes e atuam em território nacional, estadual, municipal ou intramunicipal buscando resolver diversos problemas que nossa sociedade enfrenta. Estes, constroem planos, gastam dinheiro e tempo tentando resolver problemas como desigualdade, corrupção e violência. Não é uma das tarefas mais fáceis e estes problemas representam grandes desafios contemporâneos. Por este motivo, gostaria de trazer algumas reflexões que podem orientar, ou consolar, aqueles que estão engajados em iniciativas similares às que comento acima.

A primeira reflexão diz respeito às características dos problemas que estamos lidando atualmente. Se tempos atrás o “mato era alto” e nossos problemas eram de natureza um pouco mais simples, hoje em dia, dado o avanço de nossa sociedade, os problemas se tornaram muito mais complexos e difíceis de serem resolvidos: o “mato” já não está tão alto. Por outro lado, a sociedade também acumulou mais conhecimento e desenvolveu ferramentas que facilitam a resolução de tais problemas. Sendo assim, o fato de os problemas serem mais complexos não deveria ser um dificultador nas iniciativas de resolução, certo? Errado, pois a dificuldade não reside somente na capacidade técnica e/ou conhecimento adquirido, e sim no espírito de engajamento que gestores públicos, organizações sociais, empresas e sociedade se vestem na hora de atuar.

Para melhor exemplificar o que quero dizer com problemas complexos, vou me valer de uma excelente e didática explicação que os pesquisadores Glouberman e Zimmerman fizeram sobre problemas simples, complicados ou complexos. Podemos dizer que problemas simples são aqueles que sua resolução passa pela utilização de receitas pré determinadas e pouco elaboradas por pessoas com pouca expertise científica; mesmo assim, este processo produz resultados positivos e uniformes, ou seja, o problema normalmente é resolvido. Fazer um bolo, por exemplo, ilustra a categoria de problemas simples.

Para a resolução de problemas complicados, ainda podemos utilizar receitas, mas estas são muito mais elaboradas e devem ser operacionalizadas por pessoas com alta expertise e conhecimento holístico. No entanto, uma vez que este problema foi resolvido, seus resultados podem ser replicados com certa facilidade, desde que a receita seja seguida. Por exemplo, construir um avião é resolver um problema complicado; como sociedade, temos profissionais qualificados que seguem a receita de como se construir um avião e obtém sucesso.

Já para os problemas complexos, a história é um pouco diferente. Receitas, procedimentos e profissionais altamente qualificados não são sinônimo de resultados positivos. Problemas complexos são únicos e multidimensionais, requerendo a cada iniciativa que se propõe a resolvê-lo um tipo de engajamento único. Um exemplo clássico de problema complexo é a criação de uma criança: não existem fórmulas ou profissionais que garantam que a criação de uma criança seja bem-sucedida.

A despeito da qualificação técnica e conhecimento acumulado da sociedade, problemas complexos requerem um espírito de engajamento único e característico. Como um primeiro passo, os atores devem buscar entender toda a multidimensionalidade de um determinado problema; devem também, com humildade, assumir que é praticamente impossível ter a solução de forma rápida e a priori, precisando encontrá-la no caminho que as vezes é longo. Solucionismos não resolvem e podem levar ao agravamento do problema.

Resolver problemas complexos é trilhar um caminho, às vezes longo, de busca constante pela solução e estar preparado para um altíssimo grau de imprevisibilidade. É crítico ter uma equipe multidisciplinar engajada e atenta no processo de resolução para que seja possível identificar pequenos resultados positivos ou negativos que devem ser ou encorajados ou evitados. Analogamente, é a família que está atenta ao constante e imprevisível desenvolvimento de uma criança e utiliza diferentes métodos ao longo deste caminho para ajustar a direção de sua formação.

No Brasil, os principais atores executores e articuladores das políticas de desenvolvimento em nossos territórios são, pelo menos em tese, os poderes que compõem nossos governos federais, estaduais e municipais. Estes têm como missão a articulação para resolver ou a resolução de problemas complexos como a fome, as desigualdades, violência e muitos outros. Ao me deparar com este fato, penso se estes atores têm a humildade de se vestir do espírito de engajamento necessário, tendo assim que assumir que não sabem as soluções a priori e precisarão de ajuda para resolvê-los. Um passo adiante, penso se nós, como sociedade, estamos prontos para não julgar e desacreditar estas lideranças que eventualmente assumam desconhecimento da solução e necessidade de apoio.

Acredito que todos nós, atores nos processos de desenvolvimento, devemos criar espaços onde encarar o desconhecido com humildade é bem vindo e essencial na tarefa de se resolver nossos problemas cada dia mais complexos. Este é o espírito.

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