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Democracia, diálogo e jazz

Humberto Dantas

20 de maio de 2020 | 09h59

Autor do texto:

Diego Calegari é graduado e mestre em administração e Master em Liderança e Gestão pelo Centro de Liderança Pública. Empreendedor com trajetória no setor privado, público e social, é fundador e atual gestor do Politize!, organização que visa formar cidadãos conscientes e comprometidos com a democracia.


Gosto de pensar que a democracia, quando funciona, pode ser comparada a um bom concerto de jazz. Diferentes músicos, instrumentos e estilos são convidados ao palco para uma mescla de planejamento e espontaneidade. Quando os músicos são hábeis e a sintonia entre eles é grande, o som resultante é fantástico, único.

Contudo, para que o resultado soe bem, é exigido de cada integrante tenha sensibilidade suficiente para perceber os demais, respeitar sua presença, ajustar e ser ajustado pela ação dos outros. Ou seja, um bom músico é aquele que ouve, adapta com prazer seu estilo e cede espaço ao outro, pois entende que é a beleza da harmonia final que verdadeiramente interessa. No bom jazz, assim como na boa política, há que se ter diálogo.

O diálogo é condição indispensável para uma democracia saudável. É por meio dele que reconhecemos uns aos outros, mesmo em nossas diferenças, expandimos nossa consciência sobre os problemas e avançamos na proposição de políticas capazes de abarcar a enorme diversidade (e desigualdade) entre nós. E que se diga logo: estar disposto ao diálogo não é o mesmo que negar a existência de conflitos, muito menos aceitar passivamente agressões e absurdos que venham de onde for. Significa, sim, reconhecer seu papel indispensável para o funcionamento da democracia.

É com tristeza que, neste dia 21 de maio, considerado pela ONU como Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, o Brasil nos pareça muito menos um conjunto coeso de artistas em busca da boa música e muito mais uma trupe de indivíduos tentando fazer o máximo de barulho possível, cada qual se esforçando na ânsia de ser ouvido acima da cacofonia ininteligível. O diálogo parece ter se aposentado e dado lugar aos insultos, aos memes e à “lacração”. Assistimos a uma disputa de forças cada vez mais polarizadas, à radicalização e brutalização das relações, que afeta tanto as mais altas autoridades políticas quanto o nosso convívio com familiares, amigos e colegas de trabalho. Tudo isso em uma de nossas horas mais sombrias, em que somos assolados por uma pandemia que afeta e continuará por muito tempo afetando nossos corpos, mentes e almas, que mata aos milhares e deprime material, social e espiritualmente aos milhões.

Para tentar sair dessa dura situação, penso que há três condições essenciais ao diálogo em contextos difíceis que nos faltam e que precisam ser resgatadas como parte da nossa identidade enquanto sujeitos e enquanto nação.

A primeira é a existência uma base comum de fatos que concordamos serem verdadeiros, sobre os quais podemos ter diferentes interpretações, opiniões e conclusões. A realidade factual é um ponto de partida necessário para uma troca saudável de ideias, sem o qual ficamos “sem chão”, sem referência. Nesse sentido, poucas coisas são mais prejudiciais para a nossa capacidade coletiva de diálogo no momento atual do que o alto nível de toxidade do nosso ambiente informacional. Assistimos a uma verdadeira avalanche de (des)informação, com notícias falsas se disseminando mais rápido que o mais contagioso vírus, sendo transmitidas por meio de narrativas radicalizadas, produzidas para enganar e manipular cidadãos já atordoados e incapazes de distinguir mentira e verdade. Algo que beneficia apenas os poucos sectários que se alimentam da inimizade cívica como forma de obter e manter poder.

A segunda condição para o diálogo saudável é a presença de um conjunto de “regras” ou “combinados” que garantam que todos os participantes possam expressar suas opiniões e sentimentos de forma segura e saudável, sem se sentirem coagidos ou agredidos. Em uma democracia, essas regras decorrem tanto da existência e do funcionamento adequado de um aparato institucional, de ordem jurídica e legal – as leis, os tribunais, os parlamentos etc. – quanto da existência de uma base mínima de valores que nos permitam perceber uns ao outros como cidadãos – mesmo quando nos opomos e discordamos – e não como inimigos.

Nessa seara, as coisas não parecem muito melhores. As nossas instituições, que por décadas foram desprezadas e desacreditadas pela maioria da população – basta ver as diversas pesquisas de confiança institucional por aí – agora são frontalmente atacadas, sua própria existência colocada em xeque, em parte por sua incapacidade de entregar as “promessas da democracia” – bem estar coletivo e justiça para todos – em parte pela ação deliberada das mesmas pessoas e grupos que, incapazes de enxergar qualquer um que esteja fora da sua “tribo” como cidadãos com iguais direitos, não toleram a imposição de regras e de limites para sua ação radical e violenta.

Por fim, a terceira condição para um diálogo difícil ocorrer com qualidade é a (evidente) presença de pessoas com a disposição de dialogar, que assumam para si a responsabilidade de que os fatos sejam trazidos à tona para questionamento e que a conversa ocorra segundo as regras estabelecidas, para que todos tenham a oportunidade de participar, ouvindo e sendo ouvidos, mesmo enfrentando certa indisposição inicial de algumas ou todas as partes. Que, tendo suas próprias convicções, ainda assim sejam capazes de exercer a empatia e ver que, por trás de toda opinião, posição ou comentário há uma história não contada, há objetivos não atendidos e anseios frustrados.

Aqui chegamos à derradeira questão da crise de liderança. Nenhuma nação, por mais desenvolvida que seja, por mais sólidas que sejam suas instituições, consegue manter as engrenagens da democracia funcionando sem líderes que reforcem continuamente a importância das “regras do jogo”, que promovam a expansão contínua da participação qualificada de todos e todas, sem distinção de gênero, raça, classe ou religião, em busca de melhores entendimentos e decisões mais efetivas. Sem o intuito de personalizar nesta ou naquela pessoa ou grupo, está claro que vivemos hoje uma sistêmica incapacidade de produzir, sustentar e alçar às mais altas posições de liderança quantidades suficientes de pessoas competentes na milenar arte do diálogo. As consequências são evidentes: fragmentação política e dificuldade de se obter consensos mínimos sobre o que fazer para nos tirar do buraco que fica cada vez mais fundo.

Considerando essas três (entre tantas outras) condições não atendidas, me arrisco aqui a colocar algumas sugestões de caminhos e medidas para restaurarmos a nossa capacidade de dialogar e construirmos juntos um futuro mais promissor:

  1. O fortalecimento de um arcabouço institucional, legal e social que seja capaz de coibir a disseminação indiscriminada de informações falsas e caluniosas. Se não começarmos fazer valer a Constituição – que veda o anonimato e prevê a proteção à imagem e à honra contra a difamação e a calúnia – criando formas de identificar e punir quem produz notícias falsas e promove linchamentos virtuais, certamente será muito difícil prever o retorno à civilidade e ao diálogo como ponto de partida para a resolução dos conflitos.
  2. A retomada de consensos civilizatórios básicos e o fortalecimento das instituições responsáveis por resguardá-los. Gostemos ou não da geração de políticos que “fez o Brasil” pós-ditadura, uma coisa é seguro dizer: estavam imbuídos do espírito de buscar estabelecer as bases comuns sobre as quais o país seria governado, em sua nova forma democrática. Agora cabe a nós, aprendendo com os erros e acertos do passado, definir quais serão os novos consensos sobre os quais a nossa geração caminhará. Precisamos de mínimos denominadores comuns, caso contrário será muito difícil avançar. E isso exigirá uma articulação que transcenda os rótulos que atribuímos uns aos outros ou a nós mesmos – esquerda ou direita, liberais ou conservadores, pró Estado ou pró mercado – articulação essa que só será possível se estivermos dispostos ao diálogo.
  3. A formação, articulação e projeção de uma nova geração de cidadãos e de lideranças públicas que compreendam a necessidade vital dessas bases civilizatórias para a existência de uma democracia saudável, que estejam dispostas ao diálogo e à construção coletiva, não violenta. Que não caiam na tentação de adotar os atalhos ao poder proporcionados pela radicalização, pelo discurso odioso e pela distorção da verdade, atalhos estes que invariavelmente acabam se voltando contra seus próprios autores, que se tornam reféns das hordas de fanáticos que ajudaram a criar.

Não poderia terminar esse texto sem dizer: o caminho é árduo, mas ele existe. No Politize!, lidamos todos os dias com milhares de jovens que sentem essa mesma necessidade de mudança e querem aprender a dialogar. É por isso que acredito que nada disso será possível, no longo prazo e de forma sustentável, se não começarmos a olhar com carinho para aquilo que Norberto Bobbio, um dos grandes cientistas políticos do século XX, tratou como uma das promessas não cumpridas da democracia: a oferta, em larga escala, de uma educação política, cidadã e democrática capaz de tornar natural aos milhões de jovens desse país essa singela disposição de espírito – a disposição de dialogar e de abraçar o diferente – fazendo da enorme mistura que é o Brasil um “jazz” bonito de se ouvir.

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