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Com democracia em jogo, eleições municipais tornam-se esperança

Humberto Dantas

30 de junho de 2020 | 11h39

Autor do texto:

Lucas Porto é pós-graduado em economia pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduado em Gestão e Liderança Pública pelo CLP – Liderança Pública, estudou relações internacionais na PUC-SP e ciência política no Institut d’Etudes Politique de Paris (SciencesPo).  Atualmente é Chefe de Gabinete Parlamentar do Vereador Caio Cunha em Mogi das Cruzes.

Fazendo uma crítica à falta de democracia no Brasil, o autor sugere que as mudanças começam de dentro para fora. Em um momento crítico que o país vive, é preciso reconhecer o que há para melhorar. E as eleições municipais podem ser aproveitada para uma evolução enquanto coletivo. Leia para saber mais:

Reforma da previdência aprovada, escândalo do laranjal eleitoral, lei da liberdade econômica aprovada, recorde de desmatamento na Amazônia, mudança de liderança no INPE, crise nas relações internacionais com França, cisão política do PSL, formação de um novo partido (Aliança), três ministros da educação, três ministros da saúde, crise nas relações internacionais com China, ingerência em investigações na Polícia Federal, dois ministros da justiça, acúmulo de 31 pedidos de impeachment protocolados, 107 milhões de brasileiros cadastrados para o auxílio emergencial, taxa de desemprego atinge 12,6%, manifestações e ataques simbólicos às instituições democráticas, abertura de negociação política com o Centrão, criação de um novo ministério, 55 mil mortos por COVID-19, taxa histórica mínima da Selic, novo marco do saneamento básico aprovado, aumento do número de militares em cargos estratégicos…

É difícil fazer um balanço destes conturbados 18 meses de um novo ciclo político do país que começou em 2018. Os avanços parecem ser muito tímidos, se não negativos, frente à quantidade de escândalos e polêmicas. É natural, portanto, sentirmos que estamos literalmente “no olho de um furacão”.

Com medo, raiva, incertezas e qualquer outro sentimento que nos tire um pouco do eixo. Afinal, podemos considerar que estamos passando por uma crise multidisciplinar na saúde, na economia, no social e na política-institucional, explicada, em partes, pelos “eventos jabuticabas” acima elencados.

Se olharmos numa perspectiva maior de tempo, todos estes fatos e acontecimentos recentes são consequências e, ao mesmo tempo, catalisadores de uma história brasileira duríssima para se olhar de frente. Um país que, apesar dos grandes e importantes avanços, parece ainda não ter encontrado os caminhos para uma trajetória contínua de desenvolvimento. Estamos no caos! No epicentro de uma crise nunca vivida, num país que cresceu economicamente, mas que ainda é um dos mais desiguais do mundo.

Onde a evolução dos direitos sociais não acompanhou pari passu a dos direitos civis e políticos. Onde a sabedoria do pensar e agir coletivo e da arte de se associar não evoluíram conforme o crescimento econômico. De forma menos acadêmica, um país onde ainda temos 100 milhões de pessoas sem saneamento básico, onde metade da população vive na pobreza e/ou na extrema pobreza, onde as pessoas têm medo e raiva do Estado. Ou seja, um país onde, infelizmente, não é possível dizer que se vive numa democracia plena.

Falo isso sem remorso e negativismo. É preciso reconhecer com franqueza onde estamos para melhorar. Já diz o ditado: seja duro na crítica e otimista na ação. Pois bem, temos uma grande oportunidade em nossa frente para melhorarmos enquanto sociedade: as eleições municipais. Provavelmente a maioria encara esse período com desesperança, ceticismo ou até mesmo “encheção de saco”. Fazer isso vai ser o normal ou o esperado desta sociedade ainda em formação. A eleição municipal, neste contexto, não pode ser apenas mais uma. Podemos aproveitar este breve momento para melhorarmos enquanto coletivo.

Fazer diferente é mais difícil, mas necessário. Por que não a sociedade civil organizada patrocinar uma campanha coletiva, educativa e midiática reforçando a importância das eleições? Por que não as fundações de partidos, em conjunto, fazerem cursos EAD de formação política básica? Por que não ter uma campanha midiática que combata a compra de votos? Por que não as TV’s locais aumentarem o tempo e o número de debates eleitorais? Por que não os eleitores votarem em pessoas com práticas novas e coerentes para a renovação política? Por que não pararmos de falar que “de política não se fala porque dá briga”? Por que não começarmos a ler os programas de governo de quem quer o cargo majoritário? Por que não trocar a palavra da urna de “fim” para “início”? Por que não organizações civis suprapartidárias fazerem mutirões educativos na periferia sobre o voto e as eleições?

Ideias não faltam. Mas precisamos começar dentro de casa. Cada um entendendo que a democracia é valor e não um instrumento.

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