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Atuação do terceiro setor empresarial no apoio à educação pública em meio à pandemia

Humberto Dantas

27 de janeiro de 2021 | 10h13

Glória Maria Almeida da Silva é pós-graduada pelo Master em Liderança e Gestão Pública do CLP (Centro de Liderança Pública), bacharela em Ciências e Humanidades e bacharela em Políticas Públicas, ambos na Universidade Federal do ABC (UFABC). Tem ampla experiência com parcerias com terceiro setor, contratos e inclusão digital. Atualmente, é Analista de Projetos Sênior no Instituto Natura, trabalhando com políticas públicas de alfabetização em regime de colaboração.

Marcelo Menezes é graduado em Políticas Públicas e em Ciências e Humanidades pela Universidade Federal do ABC (UFABC), certificado em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais para o Terceiro Setor pela PUC-SP e em Gestão de Projetos de Desenvolvimento pelo BID. Compõe a Turma 7 do Master em Liderança e Gestão Pública do CLP (Centro de Liderança Pública). Em 2019, assumiu pelo CIEDS a coordenação de uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação e Esporte de Goiânia com a Fundação Telefônica Vivo, cujo intuito é engajar educadores para temas de Inovação Educativa.

No texto, os autores discorrem sobre a atuação do terceiro setor empresarial, e apresentam o cenário destas organizações que atuam no campo educacional e auxiliam na criação de políticas formativas. Leia:

A rápida disseminação de contágio do novo coronavírus (COVID-19) para o mundo, resultou na pandemia do século XXI e muito conteúdo científico na área da saúde tem sido produzido nesse quase um ano de crise sanitária, os quais subsidiaram e subsidiam os governos nacionais nas decisões ágeis de políticas públicas na corrida contra o tempo para salvar vidas. Entretanto, essa não é a postura do governo federal brasileiro que tem empurrado esse papel aos entes subnacionais, Estados e Municípios.

Assim, Estados e Municípios têm tomado decisões com base no comportamento da curva de contaminação e das produções científicas, que irradiam em outras frentes de políticas públicas muito relevantes, como é o caso da educação. Uma das principais dificuldades com o início da pandemia foi: Como manter as aulas em contexto de isolamento social? Como servidores públicos, escolas, professores e alunos se adaptariam a um modelo de comunicação e aulas remotas?

Diante desses desafios, algumas organizações da sociedade civil e fundações empresariais, historicamente parceiras do poder público, fizeram adequações em suas formas de interação, seus quadros funcionais, mas sobretudo seu portfólio de cursos e assessoramentos de forma a dar suporte aos representantes municipais e estaduais de educação. Neste artigo, falaremos sobre a atuação do terceiro setor empresarial, agente de suma importância e determinadas regiões do país, e debater as principais mudanças impostas pela pandemia e o cenário que se apresenta para o ano vigente destas organizações atuantes no campo educacional auxiliam na criação de políticas formativas e dialogam com professores e servidores públicos de todo o Brasil.

Assim, para melhor compreender o cenário encontrado por essas organizações da sociedade civil antes e durante a pandemia, é importante um exercício de resgate histórico sobre o uso de tecnologias, a partir dele poderemos observar mudanças ocorridas com servidores públicos, professores e alunos, e assim termos a dimensão do suporte empreendido por esses agentes que fazem uso de investimentos sociais privados. Posto isso, aqui nos deparamos com pelo menos três barreiras: acesso às tecnologias, infraestrutura de internet disponível e letramento digital.

Ao observar os dados da TIC Educação 2019, os quais trazem luz sobre o cenário brasileiro da educação pré-pandemia e as três barreiras citadas anteriormente e que já estavam postas em 2019. Ainda assim, os dados revelaram que aproximadamente 40% dos professores, e 65% dos alunos, ambos em espaços urbanos, não possuíam computador em seus domicílios.

Outro dado importante é o percentual de 99% das escolas urbanas e 49% das escolas rurais com computadores, ou seja, segundo este levantamento as escolas apresentam grande potencial de acesso a algum tipo de tecnologia aos seus alunos, ainda que a taxa rural seja significativamente baixa. Entretanto, o cenário muda quando falamos sobre recursos digitais individuais pertencentes aos alunos, os quais em sua grande maioria fazem uso de equipamentos de terceiros, como de familiares. Assim, pensar educação em um contexto de isolamento social não é algo trivial.

O desafio da infraestrutura evidenciou percepções relevantes dos professores urbanos em relação às barreiras de TICs nas escolas: falta computadores por aluno, equipamentos obsoletos e sem manutenção nas escolas, baixa velocidade (ou ausência) de banda larga, além da falta de suporte técnico por parte das secretarias, e cursos de capacitação aos poucos profissionais existentes nas redes. Com a suspensão do trabalho presencialnos órgãos públicos e a prerrogativa de atuação remota outros elementos começaram a tornar-se evidentes, fazendo com que a análise fique cada vez mais individualizada e particular, como por exemplo, a existência de local apropriado e equipamentos funcionais nas residências de servidores públicos, algo impossível de ser garantido a todos os profissionais do serviço público.

Finalmente, a barreira do letramento digital mostrou que 97% dos professores urbanos utilizavam a internet para comunicação, redes sociais, acesso a jornais, busca ou realização de cursos, porém apresentam grandes limitações na utilização de recursos digitais em sala de aula, ainda assim, na percepção dos alunos, o uso de tecnologia poderia ter gerado interesse no aprendizado. Neste sentido, é notório o avanço causado pela pandemia, a qual acelerou o processo de incorporação das tecnologias no cotidiano dos professores e servidores públicos, impactando nos alunos.

Outra fonte de informação interessante e com atualizações dinâmicas é o Guia EduTec, ferramenta gratuita construída em 2018 pelo Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB), em que as fontes de dados são formulários padronizados preenchidos pelos professores no formato de autoavaliação de competências digitais, e de escolas, por intermédio de seus gestores que realizaram o diagnóstico do grau de adoção de tecnologia pela sua instituição. Em linhas gerais, os dados nos permitem constatar a percepção em ambientes escolares sobre a necessidade de avançarmos em relação ao nível de conectividade em escolas.

Se por um lado professores fizeram adequações em suas metodologias de ensino e a preparação de aulas para o digital, aprendendo a utilizar ferramentas de gestão, de vídeo chamada, por outro, há a questão do aumento de carga de trabalho sem qualquer tipo de incremento salarial. Nesse novo contexto, professores criaram alternativas de diálogo com suas turmas, transmitindo conteúdos de diferentes formas (Youtube, TV, Rádio, WhatsApp etc), com a esperança de que alunos estivessem realizando suas tarefas, e aqui cabe ressaltar o surgimento de um novo agente primordial nessa relação, os familiares, responsáveis por auxiliar as crianças e os adolescentes com equipamentos e tarefas escolares, sendo este um fator passível de um estudo detalhado nos próximos anos, a saber a discrepância existente entre alunos em contextos familiares distintos e o impacto na aprendizagem.

Aprofundar o conhecimento sobre uso de tecnologias em escolas públicas em um contexto de pandemia, nos faz refletir sobre o esforço empreendido por secretarias municipais e estaduais de educação para garantir políticas públicas efetivas, que tornem esse desafio possível. Apesar do cenário bastante crítico de acesso, infraestrutura e habilidades com recursos digitais, estamos diante de uma oportunidade para escolas, com o auxílio de seus secretários municipais e estaduais, para que possam reformular o entendimento sobre o uso de tecnologias, e façam os investimentos necessários para qualificar os parques tecnológicos existentes nas escolas e nas secretarias, considerando o modelo híbrido de aulas (online e presencial).

Neste campo de oportunidades, é possível vislumbrar o apoio e suporte das organizações da sociedade civil e fundações empresariais, pois estas possuem recursos e repertório quanto à importância do uso de tecnologias, há anos o setor vem produzindo experiências em determinados territórios, e possui uma série de literaturas e cursos que dialogam sobre essa necessidade de mudança. Como por exemplo: as formações continuadas de professores, treinamento de equipes técnicas (tutoria) e em alguns casos o incremento via doação de equipamentos e literatura.

Vejamos o caso das organizações que atuam com a formação de professores, em sua grande maioria dispunham de equipes locais e/ou consultores técnicos cujo trabalho era a capacitação de educadores, em jornadas de horas, quase sempre dispondo de alguns dias, considerando a necessidade de junção de professores em um mesmo local, para debater temas de interesse. Em uma breve pesquisa sobre algumas organizações e seus portfólios, temas como Base Nacional Comum Curricular (BNCC), educação integral, inovação, tecnologia, empreendedorismo, competências sócio-emocionais, desafios da profissão, dentre outros, são alguns temas pertencentes ao rol de possibilidades trazidas por estas organizações às redes de ensino.

Convém destacar, que grande parte dessas organizações estão presentes nas grandes capitais, com isso a atuação em outras localidades quase sempre estava condicionada à presença física dessas organizações nestes locais, seja para a formação em si, mas também para a manutenção do relacionamento com os representantes governamentais (Governadores, Prefeitos e Secretários), com isso cargos de articuladores governamentais, consultores técnicos locais que sempre foram figuras presentes nestes espaços, passarão a atuar remotamente.

Pois bem, com a pandemia e a preocupação inicial voltada aos investimentos em saúde, a reinvenção do terceiro setor foi necessária, sobretudo no que diz respeito ao escopo de atuação, presencial em grande medida. Nos primeiros meses o cenário foi de estagnação, pois a suspensão total das atividades e em alguns casos o adiantamento do período de recesso escolar, não permitia a criação de ações formativas.

Tempo precioso para que algumas organizações pudessem refazer seus planejamentos estratégicos visando redirecionar seus investimentos sociais e realocar seus colaboradores. Não houve, em um primeiro momento, o desligamento em massa de profissionais da área, pelo contrário, a reinvenção de portfólio passou pelas mãos das equipes de campo detentores de conhecimento e abertura com stakeholders locais, auxiliaram na construção de planos de ação e de mitigação.

A grande virada do setor na busca por auxiliar redes de ensino foi a disponibilização de cursos online em diferentes plataformas e-learning, com destaque ao Moodle, bem conhecido dentre os educadores, e neste sentido organizações que já mantinham em seu escopo de atuação formações em ambientes virtuais de aprendizagem conseguiram em um primeiro momento garantir o atingimento de suas metas, sendo estas vinculadas ao dinheiro investido, mas falaremos sobre isso em breve, desta forma plataformas de cursos ou de objetos digitais de aprendizagem foram as principais válvulas de escape para redes que não tinham expertise na mobilização e formação de professores de maneira remota.

Algumas redes buscaram parceiros com conteúdo formativo específico ao seu território, outras secretarias optaram por criar conteúdos e cursos próprios, mantendo assim maior proximidade com seus professores. Houveram também movimentos individuais de professores, buscando cursos online gratuitos e materiais formativos (objetos digitais de aprendizagem, planos de aula etc) visando sua qualificação pessoal e profissional, e para estes há uma gama de cursos com diferentes temáticas à disposição.

Passado o boom formativo, as redes começaram individualmente a pensar processos formativos mais estruturados, pois entendiam que em 2020 não havia a possibilidade de retomada das aulas presenciais, e somente em 2021 o chamado ensino-híbrido com aulas online e presencial estará presente no país. As redes também irão precisar rever questões relacionadas ao parque tecnológico das escolas, bem como a capacidade de investimento para aquisição de novos equipamentos, e certamente o investimento das organizações da sociedade civil podem ser utilizados, em parte, para auxílio na aquisição ou no treinamento de seus profissionais para utilização de diferentes tipos de recursos digitais.

No campo das boas práticas, tivemos a aproximação do setor, o qual por vezes encontravam resistência do poder público ao ofertarem individualmente seus portfólios, às vezes em locais onde já havia outro parceiro. Então, a pandemia também aproximou essas organizações com o intuito de apoiar gestores educacionais, professores e famílias com a criação do Aprendendo Sempre, trata-se de um conjunto de organizações do terceiro setor que prepararam uma curadoria de conteúdos e soluções gratuitas e úteis para promover aprendizagem durante a pandemia.

Em 2021 com as novas gestões municipais, tendo maior conhecimento sobre o cenário educacional, ciente da expectativa pela retomada das aulas, e com suas equipes internas habituadas ao trabalho remoto, a expectativa é que tenhamos a continuidade das ações em curso, porém com a expectativa sobre a criação de soluções próprias pelas redes de ensino, pelo fato do setor não produzir uma quantidade de cursos diferentes que deem conta das diferentes necessidades dos educadores, nem das especificidades de cada território. E como as organizações vão atuar nesse sentido? Darão suporte na elaboração de políticas públicas locais ou vão permanecer com seus portfólios originais, e em tendo uma mudança de cenário fará busca por novos territórios?

Algumas questões são certas para o ano, será preciso compreender o dimensionamento de equipes, pois se em 2020 o cenário de manutenção dos profissionais foi necessário, talvez com a escassez de atuação local as organizações possam tentar enxugar seus quadros. Outro fator relevante é quanto aos recursos a serem empreendidos em 2021, pois grande parte desses institutos atuam mediante o atingimento de metas, as quais sabidamente foram colocadas em segundo plano no último ano e podem retornar nos próximos meses corroborando com a tese de diminuição dos quadros funcionais.

Para além disso, tanto no poder público, quanto as organizações da sociedade civil que atuam com educação estão em diferentes estágios do chamado ciclo de políticas públicas e precisarão continuar se reinventando para continuar dando suporte às políticas públicas educacionais e aos gestores estaduais e municipais. Com intuito de propagar iniciativas de incentivo à formação de professores e suporte às redes municipais e estaduais de educação, listamos algumas iniciativas de organizações sociais e fundações empresariais:

  • ESCOLAS CONECTADAS, iniciativa da Fundação Telefônica Vivo;
  • CONVIVA, sistema de gestão gratuito para Dirigentes Municipais de Educação (DME), equipes técnicas das secretarias, gestoras e gestores escolares;
  • ESCOLA DIGITAL, plataforma gratuita de busca que oferece a professores, gestores e redes de ensino mais de 30 mil recursos digitais de aprendizagem;
  • GUIA EDUTEC, plataforma para diagnóstico e planejamento do uso de tecnologia nas escolas;
  • PORTAL TRILHAS, Uma plataforma colaborativa com cursos referenciados pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e com a troca de experiências com educadores de todo o Brasil.

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