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As ciências do design como campo de conhecimento prático para a superação de problemas

Humberto Dantas

08 de junho de 2021 | 11h24

Autor do texto:

Bruno Dias Magalhães é líder MLG. Coordenador do Curso Superior de Administração Pública da Escola de Governo Prof. Paulo Neves de Carvalho da Fundação João Pinheiro – MG. Candidato ao doutorado de Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais.

No texto, ele discorre sobre a obra “As Ciências do Artificial”, de Herbert Simon. A fim de chamar atenção para o caráter essencial de sua leitura, o autor enxergar a noção do design como uma atividade complementar à noção da tomada de decisão. Leia: 

Como sabe o leitor e a leitora, estou dedicando minhas contribuições deste ano ao blog do MLG para a curadoria de alguns textos canônicos focados no design aplicado à administração pública. No texto anterior, discutimos a leitura de políticas públicas realizada por John Dryzek sobre a noção de design, conforme definida por Herbert Simon em seu trabalho sobre a Ciência do Artificial. Hoje nos debruçaremos sobre a obra em si, avaliando-a do ponto de vista da gestão pública.

Convém, primeiramente, apresentar o autor, adicionando breve consciência histórica à obra. Não é preciso muito esforço para isso. Simon é um dos pais da Administração tal como a entendemos hoje. Isso se deve a duas razões principais. A primeira relaciona-se com o texto “Os provérbios da administração” (no original” The proverbs of administration”), publicado na revista Public Administration Review em 1946. Neste texto, o autor faz uma potente crítica à administração clássica, dizendo que a ela faltava uma teoria científica, uma vez que se pautava extensivamente por princípios.

O problema dos princípios, segundo o autor, é que eles provam coisas demais. Neste sentido, assemelham-se a provérbios, isto é, não são falseáveis. Nas palavras do Simon, provérbios são ideais para a persuasão, pois são formulados de forma tão abstrata que sempre é possível encontrar uma situação que se encaixa precisamente no que dizem. No entanto, pela mesma razão, é igualmente possível encontrar situações que os contradizem.

A proposta de Simon para endereçar este problema foi a formulação de um programa de administração que construísse conhecimento sobre “realidades propriamente teorizadas de fenômenos organizacionais”. Para tanto, dever-se-ia não só desenvolver conceitos adequados à descrição de “situações administrativas”, mas também realizar “diagnósticos” dessas situações de acordo com “critérios”, cujos pesos seriam atribuídos a partir de estudos concretos.

Noutras palavras, a solução apontada pelo autor caminhava no sentido de desenvolver uma teoria científica apropriada para a administração. Uma teoria que pudesse focar na prática administrativa, isto é, na solução de problemas. Essa linha é desenvolvida pelo autor nos seus trabalhos futuros, notadamente na famosa obra “Comportamento Administrativo” (no original Administrative Behavior), lançada em 1947.

O livro “Comportamento Administrativo” é sem dúvida a obra mais conhecida de Simon e consiste na segunda razão pela qual ele compõe o núcleo fundamental da disciplina de Administração. É também uma obra controversa, sobretudo pela dicotomia entre fato e valor, estabelecida pelo autor na definição do processo de tomada de decisão. Permitam-me não me engajar neste debate. O ponto importante da obra é que ela reforça que a construção de uma organização eficiente vai além da definição de funções e alocação de autoridade, mas diz respeito à influência de padrões coordenados de comportamento. Ao fazê-lo, Simon expande o cânone da ciência administrativa, ressignificando a ideia de processos de tomada de decisão e apresentando uma operacionalização da nossa racionalidade limitada que não implica no abandono do ideal de eficiência. Essa operacionalização se dá basicamente pela noção de que face à impossibilidade de otimização, as decisões são realizadas a partir de processos que procuram – e se satisfazem – com alternativas suficientemente adequadas.

Mas, afinal de contas, o que tudo isso tem a ver com o design? A ideia do design adquire uma formulação acabada para Simon cerca de 20 anos após ambos os estudos mencionados, com a publicação em 1969 da obra “As Ciências do Artificial” (no original The Sciences of The Artificial). Três são, em minha opinião, os insights fundamentais deste livro. O primeiro diz respeito ao próprio conceito de artificial, usado de forma muito específica, a saber, para denotar sistemas cujo comportamento deriva de sua adaptação com o ambiente. Pensado dessa forma, não só as organizações ou qualquer artefato humano – incluindo a linguagem – é artificial, mas nosso próprio comportamento biológico e social pode assim ser entendido.

O segundo insight relaciona-se com a proposta desenvolvida anos antes com grande apoio de Allen Newell, a quem o livro está dedicado, de que estes sistemas adaptativos podem apontar para um campo de conhecimento geral sobre a complexidade. Nas palavras de Simon, seria possível a construção de uma teoria geral dos sistemas, que abstraindo-se dos elementos particulares de cada sistema social, biológico, físico ou simbólico, consistiria em uma potente ferramenta científica para lidar com fenômenos complexos.

O terceiro insight, por sua vez, relaciona-se especificamente com a tarefa de projetar, de desenhar, que para o autor vai muito além das atividades técnicas, mas une toda a humanidade. Parece pretensioso. E de fato o é, como admite o próprio Simon. Mas isso não torna o argumento menos robusto. Com efeito, uma das coisas que nos unifica enquanto homens e mulheres é que estamos sempre a agir sobre o mundo. Seja uma engenheira, que projeta uma ponte para conectar duas margens de um rio, seja uma compositora, que projeta uma canção de notável valor estético. Do ponto de vista do design, é possível dizer que ambos estão replicando ideias, mas também criando algo novo. Ambos estão, ademais, solucionando problemas.

A esta constatação, Simon opõe o crescente domínio das ciências naturais e sociais sob os currículos aplicados, a exemplo da medicina, da engenharia e da administração. Estes, mais do que conhecer os fenômenos e suas causas, preocupam-se com projetar ações no mundo. E esse campo de conhecimento, argumenta, é ainda fartamente inexplorado. Simon, portanto, nos adverte para a necessidade de constituição de uma ciência do design.

E no que consistiria essa ciência? Correndo o risco de simplificar demasiadamente este comentário, essa ciência consistiria nos conhecimentos necessários para projetar artefatos para atingir objetivos definidos. Pensando na forma de sistemas, poderíamos dizer que esta ciência destinar-se-ia a projetar sistemas hierárquicos (no sentido de que seus componentes estão inter relacionados) que interagem com o ambiente de forma a cumprir funções específicas. Ao fazê-lo, dedicar-se-ia a analisar desafios ou problemas de design, categorizar e sintetizar distintos designs de sistemas artificiais e testar e avaliar estes designs em ação.

É certo que há muito mais na obra de Simon que permite o curto espaço provido por estas linhas, ou as limitações deste escriba. Um exemplo é a estimulante discussão sobre a ideia do design aplicada a atividades de planejamento social, com as quais lidamos frequentemente ao elaborar e implementar políticas públicas, e que possuem, na maioria das vezes, objetivos abertos, no sentido de que as próprias etapas vão adicionando aprendizagem e novos rumos ao processo.

Mas o objetivo aqui não é resumir a obra, mas chamar atenção para o caráter essencial de sua leitura. E tal essencialidade emerge justamente da noção do design, compreendida não só como ciência, com igual importância em relação às tradicionais ciências natural e social, mas sobretudo como atividade complementar à noção da tomada de decisão, tradicionalmente restrita às tarefas de seleção e avaliação de alternativas. Em outras palavras, o design emerge como campo de conhecimento baseado na prática. Uma prática, ademais, cujo objetivo é a superação de problemas da vida real.

Disto se trata a gestão pública!

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