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Anosmia presidencial

Humberto Dantas

10 de dezembro de 2020 | 10h34

Autora do texto:

Juliana Lohmann é cientista social e líder MLG, Mestre em Relações Internacionais (UFF), MBA em Gestão Estratégica de Negócios e Inovação (HSM Escola Superior de Administração), Especialização em Políticas Públicas para Micro e Pequenas Empresas (Unicamp) e no Observatório de Inovação do Turismo (FGV). Há 14 anos atua diretamente com projetos junto a administração pública dos municípios fluminenses e dos órgãos do Estado do Rio de Janeiro.

No texto, a autora discorre sobre a falta de desarticulação do Poder Executivo Federal em relação à chegada da vacina contra o novo coronavírus. Leia:

Sabemos que os efeitos da pandemia realmente vão muito além das avarias na economia e da própria doença, que somente no Brasil interrompeu os sonhos de cerca de 180.000 brasileiros até hoje, e em menos de um ano – como se quase todos os habitantes de Teresópolis (RJ) tivessem sido dizimados. Conquanto o que mais surpreende são os sintomas mais graves e que facilmente podemos observar, como uma verdadeira epopeia, os episódios diários do exercício da política, em seu significado strictu senso, pelo primeiro escalão do Governo Federal.

Se segundo a Constituição Federal do Brasil, compete privativamente ao Presidente da República: – exercer, com o auxílio dos Ministros de Estado, a direção superior da administração federal, não seria esta a GOLDEN HOUR* do Exmo. Presidente Jair ‘Messias’ Bolsonaro protagonizar diálogos entre o Governo Federal, Estados e Munícipios quanto a aquisição da vacina contra a Sars-CoV-2, debatendo e definindo estratégias em um plano nacional? Comunicando quanto ao calendário do Programa Nacional de Imunização e alinhando com a imprensa os próximos passos para conter não apenas a ansiedade de dezenas de milhões de habitantes, mas também a proliferação e contágio da doença em ritmo tão acelerado?

Segundo a concepção de Nicolau Maquiavel, ‘Um príncipe é necessário ter o povo como amigo, pois, de outro modo, não terá possibilidades na adversidade” (Maquiavel, 2010).

Até agora, diferente da população de muitas outras nações, o brasileiro está sentindo cheiro de uma grande desarticulação do Poder Executivo Federal em relação à possibilidade de chegada da vacina contra a COVID-19, que esquece ser parte integrante do Sistema Único de Saúde. Pelo que parece o Brasil está mesmo diante de mais uma importante sequela da pandemia: uma anosmia presidencial!

Caberá aos cientistas políticos entenderem os corolários deste sintoma para futuras reflexões e fortalecimento do federalismo e democracia brasileira. E à população brasileira caberá, saber que foi mais uma vez enganada, desta vez pelo Presidente da República – e não como ele mesmo, o Messias, havia dito em março de 2020 sobre o coronavírus: ‘O povo saberá que foi enganado por governadores e a imprensa’.

*Expressão que nasceu no campo da medicina, e que representa o momento crucial do trauma e/ou da emergência, ancora-se na ideia de que a primeira hora de atendimento à vítima após a lesão traumática é de fato estratégica e tem efeito direto sobre os resultados da recuperação dos pacientes.

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