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A versatilidade da tripla (ou quádrupla) jornada de trabalho que os números não capturam

Laura Angélica Moreira Silva, Cientista Social, Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e Líder MLG. Atuou na Secretaria de Planejamento do Estado de Minas Gerais e atualmente apoia municípios com foco em gestão e territorialização de ações.

19 de abril de 2018 | 20h30

Agradeço as mulheres incríveis e persistentes que fizeram parte desse debate: Ana Clara, Beatriz, Clarete, Joana, Laura, Márcia, Marina, Raquel, Simone e Thássia. Realidades tão diferentes relatadas em título e texto.

Escrevi um texto sobre os desafios da gestão pública, mas o deixei na gaveta tão logo tive acesso aos resultados da PNAD Contínua 2017 na parte referente a “Outras Formas de Trabalho” e a divisão por gênero, lembrando que esta pesquisa é realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O debate que eu gostaria de provocar está relacionado à tensão existente entre o “trabalho formal” e o que é chamado de “informal”, compreendido aqui como o trabalho doméstico. Claro que para fins de análise de dados e para dar aos pesquisadores um panorama sobre a situação de trabalho entre os gêneros, categorias de análise são importantes. Todavia – e aqui reside minha reflexão – como estamos revertendo a situação apresentada pelos números?

O resultado da PNAD Contínua não apresentou descrição diferente dos registros imediatamente anteriores: as mulheres, de acordo com o IBGE, dedicam mais tempo ao trabalho. Seja qual for a categoria, a ocupação e horas de dedicação seguem distorcidas quando se compara os gêneros: se observarmos somente a categoria de homens e mulheres “ocupados”, as mulheres gastam 18,1 horas por semana em trabalhos domésticos enquanto que os homens gastam 10,3 horas por semana. As mulheres “não ocupadas” dedicam 23,2 horas por semana a tarefas domésticas, enquanto que os homens enquadrados na mesma categoria gastam cerca de 12 horas com as mesmas atividades.

Além desses dados, pode-se fazer a estratificação também por raça, o que gera números ainda mais impactantes: as mulheres brancas e negras possuem média de trabalho em sua “ocupação” de 36 horas semanais, enquanto que os homens negros e brancos possuem média de trabalho de 40 horas semanais. Já a média de trabalho vinculado à vida desocupada, quero dizer, doméstica, entre as mulheres negras é de 15 horas, enquanto que dos homens negros é de 5 horas semanais. Entre os entrevistados que se autodeclararam brancos, as mulheres trabalham 13 horas semanais enquanto que os homens trabalham 4 horas semanais. Todas as estratificações apresentadas registram pessoas com nível de escolaridade “superior completo”.

Entrevistando mulheres da minha rede de relacionamento tal cenário se replica e é possível acrescentar outra variável a esses dados, a maternidade. E aqui reside uma visão de que esse “trabalho” é importante do ponto-de-vista social e opaco do ponto de vista econômico: as pressões que a maternidade gera nas mulheres mães gera também um efeito perverso de pressão sobre si mesmas para garantir que a (o) filha (o) receberá a devida atenção e será a (o) filha (o) que os pais e a sociedade esperam, assim como a mãe será uma boa profissional. Somadas a essa visão, foram apresentadas, inclusive, as pressões que uma mãe com recursos financeiros sofre para administrar a rede de apoio que foi construída a favor dos filhos. Outra tensão apresentada foi a existência de pressões pessoais para administrar uma agenda de meio período de trabalho “formal” e meio período de “trabalho doméstico” entre o casal, dada a inexistência de tal rede de apoio.

Exposto brevemente o debate, retomo o questionamento inicial: há de fato a busca para diminuir as distorções apresentadas pelos números? Ou há somente indivíduos observando que essa realidade gerará custos posteriores? Até o momento temos um diagnóstico e pouquíssimas ações com foco em reduzir a visão distorcida que se tem sobre as demais formas de se trabalhar.

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