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A qualidade do trabalho e o crescimento econômico

Ana Paula Bertolin é Mestre em Administração com área de concentração em Gestão Estratégica da Informação e do Conhecimento pela PUC/PR e líder MLG – Master em Liderança e Gestão Pública, pelo Centro de Liderança Pública (CLP), atualmente é Assessora de Projetos no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba – IPPUC.

17 de maio de 2022 | 12h00

O mundo do trabalho vem enfrentando desafios ao longo da última década e a tendência é que estes desafios sejam ainda maiores com relação às próximas. A força de trabalho, fundamental para o crescimento econômico e a produtividade de longo prazo, está intimamente relacionada a estes desafios, afetando diretamente a competitividade.

Biernaca-Lievestor observa que nos últimos 10 anos, o crescimento populacional está ligado ao crescimento econômico porém não a produtividade, confirmando o que Joel E. Cohen, professor de populações da Rockefeller University e da Columbia University em Nova York afirma que, o  que conta não é apenas a atividade econômica em si, mas a atividade econômica por pessoa.

Tanto o Banco Mundial, quanto o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Socia – BNDES e o Instituto de Pesquisas Econômicas – IPEA já apontaram em seus estudos que o crescimento da renda per capita e o crescimento econômico só acontecerão caso haja um grande salto de produtividade no país. Portanto, ao se imaginar um desafio para os próximos anos, as tendências da força de trabalho mudaram significativamente as necessidades. Glenn Barklie, economista-chefe do Investment Monitor aponta que os avanços tecnológicos levaram as empresas a simplificar as partes mais manuais de suas operações eliminando um número crescente de empregos para trabalhadores menos qualificados, substituídos por processos automatizados, portanto a demanda por habilidades científicas, profissionais e técnicas nunca foi tão alta. Sendo assim, a necessidade de trabalhadores altamente qualificados e inovadores cresceu, juntamente com a necessidade de fortes habilidades técnicas. Mas muitos trabalhadores que deixaram esta força de trabalho não têm estas habilidades para acessarem os empregos mais bem pagos que desejam, ou as habilidades que os empregadores de base tecnológica precisam para expandir suas empresas.

Observando a demografia, o Brasil nos últimos anos viveu seu bônus onde houve aumento contínuo da proporção de pessoas em idade ativa – jovens – em relação a população inativa – idosos, porém a produtividade e consequentemente o país, não cresceu na mesma proporção.  Como afirma o economista Aod Cunha a produtividade por trabalhador está estagnada nas últimas três décadas. A previsão para os próximos anos é ainda pior pois o país terá uma transição demográfica das mais rápidas da história. Segundo o banco de dados da ONU e, por conta do envelhecimento da população que cresce mais rápido do que as gerações que os substituirão, o bônus demográfico terá seu fim.

“Não estamos fazendo uso eficiente das pessoas que temos – por que não investimos nelas?”, diz Cohen.

Como o trabalho menos qualificado diminuiu é necessário elevar a qualificação efetiva para que este perfil de trabalhadores possa alcançar empregos com salários mais elevados em setores da economia onde os empregos são crescentes. Trabalhadores mais jovens precisam adquirir um conjunto inicial de habilidades, assim como trabalhadores mais velhos necessitam se reciclar, visto o aumento da longevidade e a consequente permanência no mercado. É necessário, portanto, aumentar os níveis de educação e formação, de forma efetiva.

Incrivelmente, o Brasil está dentre os países que mais destinam recursos à educação e é signatário de todos os acordos internacionais relacionados ao tema e ainda assim não há um processo educacional e de qualificação eficiente. Dentre 70 países participantes do último Programa Internacional de Avaliação de Alunos – PISA, o Brasil ficou dentre as últimas colocações tanto em leitura como em ciências, mas principalmente em matemática. Um problema antigo, persistente e sem perspectivas de melhora. Como afirma o relatório “Emprego e Crescimento: A Agenda da Produtividade” do Banco Mundial: “Ocorre que o país é ineficiente na grande maioria das atividades que realiza”.

E este é um dos indicativos do baixo índice de produtividade brasileiro, como aponta o documento “Visão 2035 – Brasil, país desenvolvido” publicado pelo BNDES: “uma das razões da baixa produtividade brasileira é a baixa qualidade da educação básica” e a baixa qualidade na formação escolar, principalmente de conhecimentos básicos, e mais especificamente a matemática, responde diretamente ao PIB, por vezes em 75% nos países que possuem o resultado inverso, aponta Eric Hanushek, doutor em economia pelo MIT e professor da Universidade Stanford dos EUA.

Os jovens brasileiros que estão ou estarão no mercado não conseguem atingir a capacidade produtiva para os melhores trabalhos e estão com sua formação defasada, resultando em maiores dificuldades para entrarem e se manterem no mercado de trabalho e com alto risco de caírem, em um futuro bem próximo, em situação de pobreza. Outra característica brasileira que o relatório “Competências e Empregos: Uma Agenda para a Juventude”, publicado pelo Banco Mundial aponta, é o baixo aprendizado no local de trabalho, resultado de um baixo tempo de permanência no emprego, em média 5 anos, resultando em baixo aprendizado de competências específicas.

“A melhor oportunidade que o País do Futuro tem de atingir o status de alta renda é por meio do maior engajamento de seus jovens”, cita o relatório. Sendo que mais de 50% dos jovens não estudam nem trabalham, ou um ou outro e, pela grande maioria destes não conseguirem adquirir capital intelectual para os trabalhos mais qualificados, os mesmos estão em risco de desengajamento econômico.

Almeida e Packard (2018) analisam esta falta de engajamento da juventude e apontam à falta de interesse em construir capital humano. A falta de engajamento é resultado das deficiências de aprendizagem além da não de percepção da relevância e o consequente desinteresse em investir na sua própria formação. Muitas vezes este processo finaliza no abandono escolar. A falta de aprofundamento do currículo apresentado pelo ensino médio, focado em memorização de muito conteúdo e não no desenvolvimento de pensamento crítico fazem com que o aluno não correlacione o aprendizado com a sua prática efetiva no mercado de trabalho.

Além destes fatores, o apoio e os subsídios governamentais para a população com educação média também podem desencorajar os trabalhadores a se tornarem altamente qualificados ou a buscar qualificações adicionais para novos empregos fortemente baseados em tecnologia. Salário mínimo baixo e remuneração para os profissionais qualificados defasada também geram falta de estímulo. Nos países desenvolvidos, a qualidade de vida das pessoas com educação média já pode ser tão boa quanto a das pessoas com educação superior. A resposta a estes desafios se mostra na perda destes profissionais para outros países.

Produzir novos conhecimentos, incentivar e desenvolver pesquisa aplicada de qualidade além do emprego de tecnologia são ferramentas de manobra que o país possui para melhorar a educação brasileira e assim inovar, crescer, ser competitivo e produtivo, processos diretamente proporcionais à qualidade do trabalho e crescimento econômico.

Além do aumento da longevidade, o país que está envelhecendo rapidamente, mudará a estrutura etária da população, visto a baixa taxa de natalidade. Investir na produtividade agora é a urgência do país. Tornar nosso cidadão mais produtivo, não por mais horas de trabalho, mas sim à maior produção por hora trabalhada necessita de escolaridade, mas o foco não é somente ter mais anos de estudo, mas sim adquirir mais conhecimento e capital intelectual, um problema para nosso país.

Será que ainda estamos em tempo de investir na capacidade produtiva desta geração de jovens para que possam, em breve, transformar o país com um novo perfil? Uma nova geração de novos idosos? Bastará experiência? Qualificação? Esta reflexão se torna mais profunda quanto mais se aprofunda o assunto…mas é fato que ao se elevar o PIB per capita eleva-se a renda e com ela a riqueza gerada por cada trabalhador, influenciando na transformação para um novo país – mas sem esquecer da qualidade.

Utilizando um conceito do relatório “Decade of Healthy Ageing” da Organização Mundial da Saúde – OMS aplicando a este cenário da juventude, construir capacidade e motivação do sistema com ambição, foco, clareza, urgência e irreversibilidade deve ser o objetivo para qualquer ação que deva ser tomada nestes tempos de incerteza e falta de perspectivas.

 

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