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A pandemia e a administração pública estatal

Humberto Dantas

22 de abril de 2020 | 11h58

Autor do texto:

Igor Nogueira de Camargo é gestor público de formação e prática, e graduou-se em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de São Paulo em 2010, com parte da graduação feita na Universidade de Coimbra, Portugal. Em 2017, concluiu o Master em Liderança e Gestão Pública pelo CLP – Liderança Pública, em parceria com a Universidade de Harvard, Kennedy School of Government. Atualmente, é Diretor de Modernização da Gestão na Secretaria de Gestão e Controle da Prefeitura Municipal de Campinas, São Paulo.

Em tempos de pandemia, o líder fala sobre a necessidade da reestruturar a administração pública e baseá-la em evidências e dados. Entenda:

As guerras, revoluções e pandemias aceleram o processo de transformação da sociedade numa velocidade maior que o rumo cotidiano das coisas levaria dentro do status quo. Fato apresentado e consumado quando se observa a rápida adaptabilidade de organizações ao redor do mundo ao teletrabalho; as pessoas com trabalhos dedicados à produção mental, cada uma com suas limitações, se adaptaram ao home office e passaram a exercê-lo na prática neste crucial ano 2020.

A administração pública não ficou à parte nesta mudança repentina, os entes municipais, estaduais e também o federal, nos seus três poderes, se ajustaram ao mundo que se transforma diante dos olhos humanos e passaram a adotar o teletrabalho. Essa mudança, em condições normais de temperatura e pressão, demoraria meses, talvez anos, em qualquer organização pública nacional, mas o fator exógeno exigiu rápida adaptação de todos.

A pandemia colocou uma luz forte e translúcida sobre os processos de trabalho de grande parte das organizações públicas: muito do que era produzido não precisava ser feito no tempo e com o elevado nível de recursos que se usava, de ordens financeira e humana. O vírus evidenciou uma verdade que sempre esteve frente aos olhos dos gestores públicos, mas que por ser um problema tão grande e complexo, tornava as táticas ao seu enfrentamento difíceis de serem postas em prática.

Ao dialogar com vários profissionais experientes na gestão pública durante estes dias de pandemia percebe-se que há uma expectativa de mudança e, claro, esta virá com o reforço ainda mais contundente da sociedade, pois vive-se e viver-se-á a crise e seus efeitos por um bom tempo, é difícil quantificar. A mudança parece ter caráter prático, com a adoção contundente do teletrabalho, sempre que possível, a diminuição de despesas com viagens e locomoção, a digitalização de processos de trabalho, o aumento do atendimento online e a entrega de serviços público pela web.

Infelizmente, ainda é difícil perceber uma mudança de cultura no sentido de levar os processos de trabalho da gestão pública a uma verdade maior e mais contundente, explico-me, por mais que estes processos de mudança afetem a ordem prática do cotidiano de trabalho, parece haver pouco espaço para o fim da existência de comissionados realizando tarefas burocráticas que muitas vezes poderiam ser feitas por estagiários, simplesmente para atender o jogo político, servidores de carreira arraigados a micro poderes tendem a continuar superestimar seu ofício e políticos continuarão a dar púlpito a ideias vazias que pouco contribuem para a superação dos problemas reais.

No entanto, a realidade pandêmica que se vive hoje e a importância da resposta organizada, efetiva, articulada e científica do Estado à sociedade evidencia, mais do que nunca, a necessidade de conhecimento dos dados produzidos e a capacidade de análise destes superar o cenário teorizado para a aplicação direta na vida real, ou seja, no cotidiano de trabalho dos setores públicos. É claro que este caminho não é facilmente trilhado, pois as variáveis políticas, sociais e mesmo culturais são complexas, no entanto, a pandemia trouxe a evidência de que somente utilizando-se da ciência como verdade e base para as decisões governamentais será possível superar os desafios postos no século XXI.

Leia-se ciência no seu sentido amplo, atualmente a ciência biológica mais evidenciada por motivos óbvios, aos poucos abre espaço para a ciência administrativa, social e política encrustada na administração pública. A simbiose entre todas estas ciências leva a um caminho de mais verdade na produção da administração pública, onde a máxima de se fazer mais consumindo menos chega a um ponto limite: ou a burocracia estatal atende esta prerrogativa ou não será possível dialogar com a realidade do meio em que se vive.

As resistências serão imensas, o corporativismo irá se arraigar a suas conquistas que não fazem mais sentido no mundo atual, mas superado o momento de conflito com o antigo, os benefícios serão notórios, a oxigenação tende a ser maior e a mentalidade estatal, talvez, comece a se influenciar menos pelas práticas ultrapassadas e mais pela verdade dos dados, pela ciência, pela tão almejada e ainda pouco alcançada gestão pública por evidência.

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