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A importância da educação de qualidade para o futuro do país

Humberto Dantas

29 de novembro de 2019 | 10h57

Autora do texto:

Maria Tereza é professora, advogada, intérprete de libras, ex-Secretária de Educação de Ourinhos – SP e líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública – MLG. Ela foi vencedora do Prêmio Espírito Público no Brasil – Educação em 2018. Atualmente é Secretária Municipal de Educação de Londrina – PR. Nesse texto, Maria Tereza fala sobre a educação, trazendo também o contexto da primeira infância. Leia:

Com quantos anos você entrou na escola? Houve um tempo em que ir para a escola era obrigatório aos 7 anos, depois aos 6, e hoje, as crianças devem ser matriculadas a partir dos 4 anos de idade. E isso é um grande avanço!

Que a Educação de qualidade é caminho obrigatório para o país que queremos, ninguém discorda, mas como chegar lá é a pergunta para a qual tem as mais variadas repostas, inclusive para agradar gregos e troianos.

Na minha vida de gestora pública na área de Educação, já vivenciei cenas inesquecíveis, mas uma delas me ajudam a entender o contexto da Primeira Infância: estava visitando uma cooperativa de catadores de materiais recicláveis e vi uma criança de dois anos agarrada a perna da mãe, enquanto está separava os resíduos que rodavam na esteira. Fui perguntar porque aquela criança não estava na escola (creche) e ela me disse que não precisava, afinal a avó tinha criado a mãe no lixão e que tinha crescido também naquele lugar e agora estavam bem, poderia manter o filho ali, já haviam melhorado muito, pois não tinham mais que conviver com urubus. Insisti que procurasse uma creche, pois o filho tinha direito a uma escola, mas isso não fazia sentido para aquela família.

Se aquela mãe tivesse levado seu filho para a creche, talvez o ciclo tivesse sido interrompido: bisavó, avó, mãe catadoras de materiais que estavam satisfeitas porque a vida já tinha melhorado muito! Se ele fosse à escola naquela idade, teria oportunidades diferentes que seus pais tiveram.

Eis aí um dos grandes avanços que o Brasil pode viver: hoje, 26% das crianças oriundas do quartil mais pobre da população frequenta a creche, enquanto 55% é o percentual das crianças ricas que vão a creche (considerando aqui idade entre 0 a 3 anos).

O Plano Nacional de Educação prevê que ao final de 2024, essa diferença seja inferior a 10%. E esse desafio está nas mãos dos municípios, considerando que esta etapa da Educação Básica é atendida preferencialmente pelas redes municipais. O mesmo Plano, que foi replicado por quase todos os municípios brasileiros, prevê que 50% das crianças entre 0 e três anos frequentem a creche em 2024, porém o Brasil está bem longe de atingir esta meta.

>> Conheça boas práticas no Setor Público

Segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, publicado pelo Movimento Todos pela Educação em parceria com a Editora Moderna, estamos atendendo pouco mais de 3,5 milhões de crianças desta idade, ou seja, 34,1% do total. Precisamos ampliar em pelo menos 1,6 milhão de vagas em apenas 4 anos para honrar o planejamento mínimo feito para a Educação, o que requer um investimento de mais de R$ 5,1 bilhões ao ano para manter as novas vagas (considerando o valor aluno/ano estabelecido pelo Fundeb).

E esta conta fica mais difícil de ser fechada nos estados do Norte, onde o índice de atendimento à creche é de apenas 18,3%.

Ninguém discorda dos impactos positivos de um atendimento de qualidade na Primeira Infância, porém os desafios para cumprir esta meta são cada dia maiores, uma vez que é a fase que mais requer investimentos (prédio, número de professores por alunos/bebês) e tudo isso às vésperas da eleição municipal: nossos candidatos ouvirão muitos pedidos relacionados a vagas em creches e será preciso muito planejamento e cautela para que não se torne um discurso vazio, uma meta sem cumprimento.

Existem muitas estratégias sendo usadas pelo país a fora que tornam o atendimento a Educação Infantil possível e eficiente: diagnóstico bem feito da demanda e parcerias com organizações da sociedade civil, são alguns exemplos que merecem ser observados por aqueles gestores que pretendem chegar a 2024 cumprindo metas, afinal, além de necessário, isso fará bem ao eleito e à população!

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