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A flexibilização do conhecimento e a busca por lideranças adaptativas

Carlos Portinho é Senador Suplente pelo Rio Janeiro, especializado em Gestão Pública e Liderança pelo Centro de Lideranças Públicas – CLP.

21 de outubro de 2020 | 10h51

O conhecimento científico nos trouxe a este século. Superou diversas intempéries, solucionou fenômenos e dilemas históricos, fez a raça humana prevalecer. A busca por evidências científicas para superar as mais diversas hipóteses e desafios enfrentados pela nossa sociedade, somada a habilidade técnica desenvolvida pelo domínio da ciência, determina a evolução da humanidade e a sua longevidade, com a graça de Deus.

Mas a sabedoria que acumulamos e disseminamos como nunca antes, não admite retrocesso ou falsidade.  O filosofo Platão já advertia que “cabe ao Homem reconhecer o uso que deve fazer do seu próprio conhecimento”. Um alerta bem atual em tempos de “Fake News”.

Mas a repulsiva manipulação da verdade não se manifesta somente sob o rótulo da “Fake News”. Também ocorre com a Flexibilização do Conhecimento, tanto evidenciada nesta pandemia – ou pandemônio. É verdade que muito se produziu em tão pouco tempo sobre um vírus absolutamente desconhecido e inesperado. Mas ainda há pouco consenso e muita hesitação. Incertezas no imaginário coletivo que afastam governos e sociedades, num momento que obriga maior convergência e aproximação, justo o contrário.

Pecamos por exigir um distanciamento social sabendo que a maior contribuição está no distanciamento físico, – este sim é eficaz na redução do risco da COVID-19. A compreensão equivocada do termo distanciamento nos afastou das relações sociais, fragmentou a sociedade e determinou o baque na economia.

Sim, perder o elo das relações sociais com o propagado distanciamento social condenou também as relações econômicas, quando precisávamos na verdade era compreender a necessidade do distanciamento físico. Mas as relações sociais não se anulam e a sociedade, confusa, rompeu com leis, decretos, e adaptou os seus meios sociais, na ausência sentida das suas lideranças e autoridades constituídas, tanto no setor público, como no privado.

Nas praias do Rio de Janeiro, o Prefeito cogitou o distanciamento social por verdadeiros “currais na areia” com divisórias, quando o que pretendia era somente incentivar o distanciamento físico, mas não soube transmitir esse conhecimento. Perdeu ele a obediência e a liderança.

No avião, a aeromoça se esgoelava para explicar no desembarque que não poderia aglomerar no corredor, em meio a incompreensão da sua mensagem pelos passageiros que compartilhavam três poltronas sem o menor distanciamento físico, num ambiente fechado por longas horas de viagem.

Na Educação, o distanciamento social com o absoluto e prolongado afastamento dos alunos das salas de aulas impôs um prejuízo incomensurável para o futuro das nossas crianças e jovens, quando sabemos que um pouco de previsão, organização, distanciamento físico e outras cautelas, poderiam ter abreviado o déficit do ensino e do convívio social dos alunos, que, muitos, por sua vez, buscaram as suas relações sociais sem restrição alguma nos shoppings, “nas resenhas” e até em cinemas, antes mesmo das escolas.

O distanciamento físico não somente é possível, como eficaz. Pode ser medido e ensinado. O distanciamento social é utopia que contraria a natureza humana. O homo sapiens sempre perseguirá a sua adaptação social, o que o torna sábio e superior, diferente das demais espécies pelo conhecimento que acumula e justamente pela capacidade de construir uma rede de relacionamento complexa entre pessoas.

Não se anulam as relações sociais ou tampouco o conhecimento. O Ser Humano sempre desafiará um e outro. Confrontados com a Flexibilização do conhecimento precisamos urgentemente de lideranças. Mais ainda, necessitamos de lideranças adaptativas, capazes de fazer o melhor uso do conhecimento para adaptar a sociedade ao seu tempo, guiando-nos sem hesitações, com o domínio da sabedoria e a capacidade de refletir sobre as diferenças sociais nesse país de tamanho continental e diverso.

Competentes para desenvolver e executar ações lógicas, intermediando a comunicação publica da ciência e os assuntos de interesse coletivo num contexto de incerteza, que permitam a sociedade compreender a mensagem e conhecer o seu destino e a retomada econômica pós COVID-19, confiando nos seus líderes.

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