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A Educação Pública de Singapura e Caminhos para a Educação no Brasil – Parte 2

Humberto Dantas

13 de agosto de 2019 | 17h51

Autores do texto:

André Lopes é líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública , educador e coordenador de redes do Ensina Brasil.

Alex Moreira é Mestre em Educação  pela UFJF e Coordenador Geral da Elos Educacional.

Em 25 de junho de 2019 publicamos neste blog a primeira parte dos aprendizados com o ecossistema da Educação de Singapura: a coesão das políticas entre todas as instituições educacionais do sistema e o olhar atento para as competências do Futuro. Agora, André e Alex dão sequência ao conteúdo tratando de outros aspectos importantes. Confira:

 

Valorização da Carreira Docente

“Tecnologia é importante, infraestrutura é importante, mas nada é mais importante do que o professor”, Professor Gopi (National Institute of Education – NIE). Esta frase resume grande parte das reflexões sobre o tópico, pois foi um dos aspectos que mais nos impactou ao estudar o sistema educacional singapuriano: a importância do professor para o sistema.

O Ministério da Educação é quem seleciona os aspirantes a professor entre os estudantes de melhor desempenho escolar, sendo considerados aptos somente os 30% que apresentam os melhores resultados escolares. Em seguida, os selecionados podem cursar a graduação em Pedagogia ou Licenciatura, em um modelo que mescla teoria e prática com quantidades progressivas de horas de estágio nas escolas, com mentoria de professores mais experientes. Por fim, depois de aprovados em todos os exames da graduação, os docentes terão emprego garantido em uma escola pública, recebendo salário inicial equivalente ao de outras carreiras valorizadas no mercado. Não há professor sem trabalho ou com baixos salários.

Para a Universidade de Educação não basta conhecer o conteúdo das aulas: é preciso saber ensiná-lo. Portanto, todos os futuros docentes precisam dominar ambas as habilidades, bem como manter altas expectativas em relação ao desempenho de seus alunos. Para o Ministério da Educação, esses resultados se evidenciam na ótima qualidade das aulas e na garantia do aprendizado dos alunos.

A valorização docente em Singapura vai além de boa formação e bons salários: a comunicação governamental prestigia a carreira, reconhecendo a profissão como a formadora de todas as demais, além de fazer do dia do professor uma efeméride nacional, na qual o presidente do país reconhece publicamente aqueles que mais se destacam.

Este assunto costuma ser bastante polêmico, mas não poderíamos deixar de tratá-lo aqui. Os profissionais mais dedicados e comprometidos com a excelência de seu trabalho, contribuindo melhor com o aprendizado dos alunos e a oferta de uma escola pública de qualidade para sua comunidade não merecem ser valorizados e reconhecidos? Singapura não titubeia em dizer que SIM! Em sociedades sem grandes disparidades de renda e oportunidades, como é o caso de Singapura, implementar sistemas de reconhecimento por mérito é menos desafiador, pois todos os indivíduos partem de uma base menos díspar.

Além disso, o reconhecimento não se resume a premiação em dinheiro, um importante ponto de reflexão que gostaríamos de trazer neste tópico é que a valorização profissional pode ocorrer de inúmeras maneiras: com progressão horizontal na própria carreira, permitindo que excelentes professores permaneçam em salas de aula, com momentos de mentoria junto a outros professores, focando no desenvolvimento de boas práticas pedagógicas e apoio para lidar com dificuldades docentes. É o que se faz em Singapura.

O desafio é superar os inúmeros obstáculos existentes quando tratamos desta pauta e avançar na construção de políticas que valorizem bons profissionais de maneira justa, pois o ganho maior, afinal, é dos estudantes.

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Gestão Educacional: recursos, processos e dados

Outro aspecto que nos chamou muito a atenção é a maneira cuidadosa, sistemática e organizada pela qual os representantes das diferentes instituições educacionais de Singapura realizam a gestão dos processos, recursos e dados educacionais. As decisões sobre currículos, avaliações e formação são sempre tomadas com base em dados e evidências coletados nas escolas, alimentando um diálogo permanente entre educadores – acadêmicos, professores das instituições de ensino e técnicos do Ministério da Educação – representantes do mercado de trabalho.

Trata-se de um país rico que aloca seus recursos estrategicamente na formação de professores e na infraestrutura educacional. As escolas possuem autonomia financeira na compra de materiais e contratação de serviços, com acompanhamento visando o emprego adequado dos recursos.

No Brasil, alguns passos foram dados na melhoria da gestão dos processos educacionais, mas ainda há muito a ser feito. É preciso investir na autonomia das escolas sem burocratizar o trabalho da gestão escolar. Em contato com gestores de inúmeras escolas do país e técnicos de Secretarias de Educação é possível constatar que muitas decisões são tomadas sem informações suficientes, e, quanto maior o nível hierárquico do tomador de decisão – geralmente mais distante da escola – mais graves são seus efeitos.

As maiores críticas, em geral, relacionam-se à falta de tempo para uma investigação mais adequada, à ausência de dados mais acessíveis ou ao desconhecimento de como gerir processos (e pessoas) de maneira mais eficiente. Todavia, como avançaremos sem buscar um modelo mais eficiente? Talvez por razões culturais não valorizemos devidamente a gestão dos processos dentro das políticas de educação, uma vez que a questão pedagógica é de suma importância. No entanto, Singapura e outros sistemas educacionais já perceberam que a gestão de processos e de pessoas impactam diretamente nos resultados escolares. Assim, acreditamos que autonomia com responsabilidade é um importante caminho para a gestão escolar avançar.

Como começar essa transformação?

Essa pergunta nos acompanhou durante toda imersão e na viagem (de mais de 30 horas) de volta ao Brasil. Sabemos que cada um em seu microcosmo pode dar o primeiro passo, seja no âmbito da sala de aula, da escola, da Secretaria de Educação ou, até mesmo, do Ministério da Educação.

Algumas mudanças são mais estruturais e exigem o apoio da sociedade civil, dos políticos, das instituições do terceiro setor e de outros profissionais também envolvidos com a bandeira da escola pública. Evidentemente, não há receita pronta. Algumas fórmulas experimentadas pelo sistema educacional singapuriano apresentam bons resultados, contudo a mudança somente ocorre também a partir de atitudes individuais.

Mas, por onde começar? Talvez, para transformar o complexo sistema educacional, seja preciso reconhecer a necessidade de mudar a nossa própria realidade, a nossa prática, inspirando as práticas dos nossos colegas, influenciando os nossos líderes.

Não é tarefa fácil, mas é algo mais próximo e possível, que pode nos liberar das amarras que envolvem a complexidade de fazer grandes mudanças. Existe um efeito multiplicador quando começamos a fazer a diferença em nossos espaços de atuação, pois isso pode gerar engajamento das pessoas ao redor. Nosso primeiro passo foi expor alguns dos aprendizados neste texto, colocando-nos à disposição para conversar sobre muitas dessas iniciativas lá observadas.

Obrigado!

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