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A arte do cinema como movimento de reflexão

Humberto Dantas

26 de setembro de 2019 | 15h24

Autores do texto:

Karla Santa Cruz Coelho é médica, docente da UFRJ e Líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública -MLG. Ela, o jornalista Marcelo Cajueiro e o músico e educador, Rodrigo Scofield, são autores desse texto que fala sobre o filme brasileiro Bacurau. O conteúdo também aborda o ponto de vista dos autores, tanto da mensagem política passada quanto dos elogios de produção, roteiro e elenco. Confira:

“Bacurau”: é bom porque é cinema.

Fazia um tempo, talvez desde os Tropas de Elite, que um filme não rompia a casinha da cinefilia para suscitar um debate público acalorado. A boa notícia é que as pessoas se mobilizaram para discutir uma obra cinematográfica brasileira, “Bacurau”, dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. A má notícia é a pobreza da reflexão, guiada unicamente pelo aspecto ideológico: os coxinhas odiaram, os mortadelas amaram, em linha com o fla-flu político que assola a nação.

Um colunista, que repudia o rótulo de direita civilizada, detestou as metáforas do filme, “dignas de pré-adolescentes excitados”, e a trama, “tão simples como uma cartilha do PCdoB”. Um crítico, responsável pelo rótulo ao colega de jornal, saiu em defesa de “Bacurau”, pero no mucho: “as alegorias são por vezes muito simples” e o filme é de propaganda mesmo. Mas ele gostou porque “Bacurau” é um filme “sobre resistência e de resistência”.

Ou seja, o parâmetro do colunista e do crítico – e de muita gente que entrou na polêmica Brasil afora – para gostar/detestar a obra foi a sua concordância/discordância com o viés ideológico de esquerda da mensagem de “Bacurau”. Não há nada de errado em se discutir a mensagem de um filme, o tema da obra, uma tese defendida pelos autores ou o contexto histórico que serve de pano de fundo para a trama. Mas a mensagem não pode ser o único parâmetro para a avaliação da obra, sob pena de empobrecer a análise.

Há outros parâmetros para o julgamento de um filme. Um deles é a capacidade de provocar reflexão. Se o filme é medíocre, o espectador esquece. Mas se ele pensa no filme no caminho para o trabalho, se lembra de uma sequência na hora do banho, se comenta com alguém a fala de um personagem, é porque foi tocado pela obra. A arte é assim, toca as pessoas.

Foi o caso do colunista (de direita civilizada). Se “Bacurau” não tivesse méritos, como escreveu, ele não teria dedicado sua coluna em veículo de comunicação de massa ao filme, muito menos faria uma segunda coluna com a tréplica ao crítico. Teria agido como Rick (Humphrey Bogart) na cena final de “Casablanca”. Quando o comissário da polícia do governo de Vichy pergunta a Rick se ele o despreza, ele responde cinicamente: “Se eu pensasse em você provavelmente o desprezaria”.

Outro parâmetro para avaliar um filme é, na falta de um termo melhor, a curiosidade pelo whatsapp. Se o filme é chato, pontos de luz começam a pipocar no escurinho da sala de cinema. O espectador fica entediado, lembra dos compromissos ou da balada. É quase irresistível cutucar o smartphone momentaneamente colocado no módulo silencioso. Não podemos falar por todas as sessões, mas nas nossas não teve luzinha, mas sim corpos que se contorciam nas poltronas, suspiros, gritinhos de júbilo e pesar e até aplausos, sem falar em um “Lula Livre!” nos créditos.

O filme prende a atenção, mobiliza, diverte (cinema é a maior diversão!) e emociona. “Bacurau” tem alma, funciona, e discutir porque funciona deveria estar no centro do debate sobre o filme. Funciona porque a dramaturgia é boa. O roteiro é bem escrito. A abertura é instigante e apresenta os personagens e seu mundo, as sequências avançam a história, as viradas de ato surpreendem e o clímax se resolve em uma grande cena final. O espectador é levado a se engajar na jornada dos habitantes de Bacurau, que lutam por suas vidas. Tem suspense, tem ação, tem realismo e tem surrealismo. O roteiro é clássico.

A direção é magistral. Arranca de atores não profissionais desempenhos espontâneos, que só os locais seriam capazes de fazer. Arranca dos atores estrangeiros o que só atores estrangeiros conseguiriam fazer. Eles são perversos e falam como gringos asquerosos (um com sotaque alemão), como os vilões tem que ser. Brilham Sônia Braga, a estrela principal, assim como Barbara Colen, talento em ascensão.

Todas as cenas são bem-feitas: as intimistas, as de multidão, as de ação e as de sexo. Fotografia, cenografia, maquiagem, som e outros aspectos técnicos são impecáveis.

O vilarejo de Bacurau pulsa na tela. Ele é realista, mas também futurista. Seus habitantes falam e agem como nordestinos, não como personagens das minisséries da Rede Globo. Tem professor, tem médica, tem criança, tem prefeito-coronel, tem profissional do sexo, tem trovador… tem vida. Um mundo que só poderia ser levado à tela por um filho da terra, Kleber Mendonça, que é hoje o mais importante cineasta brasileiro, e produto do mais vigoroso movimento cinematográfico do país, o pernambucano. Bacurau é cinema dos bons e, por isso mesmo, vai muito além dos aspectos técnicos já debatidos acima. 

O  filme também provoca uma injeção de ânimo fundamental à nossa autoestima enquanto brasileiros que tem andado tão em baixa nesse ano de 2019. Quando na cena do bar da cidade chegam os personagens dos “gringos” como naqueles filmes de western antigos e perguntam: 

– Quem nasce em Bacurau é o quê?

E o menino sentado brincando, responde calmamente: – É gente! 

Vemos aí uma crítica direta àquela mentalidade antiga que não cabe mais em um mundo globalizado contemporâneo. A de que existe uma hierarquização entre países, sendo uns melhores ou piores em relação aos outros, ou ainda pior, que de acordo com sua situação socioeconômica o indivíduo passa a ser mais “gente” do que o outro, nesse momento que o fantasma da depressão pode aparecer.

Essa visão maniqueísta muito conhecida por nós brasileiros, que tem toda uma facilidade hegemônica na invasão das culturas latino americanas, através de sua indústria de massa avassaladora que quer impor sua visão de mundo, tem como um de seus principais defensores os Estados Unidos. Não à toa continuamos a consumir há tantos anos seus enlatados (desde franquias de super heróis, até o mais novo sanduíche de três andares de carne bovina).

Enfim, cabe ao Brasil, por ser um dos países mais miscigenados do planeta, e por isso diverso, protagonizar essa mudança de paradigma. Devemos nos alimentar das pílulas de autoestima, como fazem os habitantes de Bacurau, a fim de erguer a cabeça, acendendo a chama de mudança que está dentro de cada um de nós para incendiar coletivamente, pois agora temos um inimigo em comum que insiste em aparecer cada vez maior à nossa frente impedindo nossa caminhada e nosso crescimento, nós mesmos.

Sem rodeios, “Bacurau” é o melhor filme brasileiro em anos. Não porque tem uma mensagem política de resistência quanto à opressão, o que é certamente um aspecto positivo do filme, mas sim porque é cinema, e dos bons.

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