A arte de ensinar e os aspectos da formação docente no ensino público superior

Humberto Dantas

20 de dezembro de 2018 | 16h14

Texto de autoria de: Karla Santa Cruz Coelho e Larice Steffen Peters, líderes MLG, a primeira é ex-diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar, doutora em Saúde Coletiva e Professora de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a segunda é administradora pública, mestre em Arquitetura e Urbanismo, professora de administração no Instituto Federal de Santa Catarina, onde também coordena o Curso Técnico em Viticultura e Enologia e o Núcleo de Inovação Social e Empreendedorismo

 

A arte de ensinar e os aspectos da formação docente no ensino público superior, nas Universidades e/ou nos Institutos Federais, a partir da visão de duas gestoras públicas e suas experiências como professoras de cursos de nível superior.

 

A atuação dos docentes em nossas instituições, além das atividades de ensino, pesquisa e extensão, concentra inúmeras outras atividades como as de coordenação de disciplinas, cursos e grupos de trabalho (cabendo destacar a reformulação de Plano Pedagógico dos Cursos, formas de divulgação, atividades para permanência e êxito etc), participação em Núcleo Docente Estruturante, Colegiados, Plano de Desenvolvimento Institucional, entre tantas outras funções.

No que se refere à formação e preparação do professor universitário para o exercício de ensinar, percebe-se que há pouca atenção dada a este segmento de ensino. A formação para o exercício do ensino superior pode ser vista como um campo em que há muito por se fazer em termos de pesquisas e práticas.

A maior parte dos professores universitários não possui uma formação específica para a docência – licenciatura, por exemplo -, mas que a despeito disso, ensinam e são bem sucedidos, em muitos momentos. Talvez em decorrência de saberes oriundos da experiência, aliados a saberes disciplinares. Vimos que qualquer iniciativa formativa, na maioria das vezes, fica a cargo de projetos individuais, dado pela experimentação e esforço próprio para a realização de cursos de capacitação ou leituras complementares.

Nesse aspecto, uma grande diferença entre o ensino em Universidades e Institutos Federais é a natureza de formação que abrange cada uma das instituições. Os Institutos Federais são instituições de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico, tal característica leva à necessidade, de acordo com o artigo 61 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de formação complementar em licenciatura, independente da área de atuação do professor. Está aqui um ponto de polêmica dentro das instituições, pois no processo de ingresso os concursos públicos não exigiram tal especificidade. Para acatar essa exigência, alguns institutos passaram a oferecer – através do ensino à distância – tal formação complementar, além de aceitar para casos com mais de 10 anos de experiência na docência o reconhecimento de “saberes e competências”.

Em um primeiro momento receber a notícia da obrigatoriedade de uma formação complementar em licenciatura parece estranho, posto que é difícil observar com clareza o real impacto dessa exigência nos índices de permanência e êxito, por exemplo. Além é claro dos casos bem sucedidos de colegas que podem ser uma grande escola para troca de conhecimentos e saberes no que tange os métodos de ensino.

Fica, em nossa análise, uma dicotomia. O que é mais relevante depois de já estarmos dentro de uma carreira docente: aprofundar nossos conhecimentos nas áreas específicas para as quais fomos contratados ou investir esse tempo em uma formação pautada em licenciatura e novas metodologias de ensino?

Acreditamos que a discussão e a criação de espaços e cursos complementares focados em compartilhamento de metodologias mais inovadoras e que realmente contribuam para a formação de cidadãos é extremamente necessária dentro das instituições, devendo se tornar uma política pública compartilhada – não somente pelo ensino superior – mas também pelo ensino básico.

Ferramentas metodológicas para a transmissão de conhecimento incluem, além da promoção da aquisição de conhecimentos específicos, o desenvolvimento de habilidades e atitudes pautadas na futura atuação dos alunos. Por exemplo: a aprendizagem baseada em problemas sugere a promoção desta por meio da abordagem de ensino e aprendizagem colaborativa, construtivista e contextualizada. A formação de cidadãos participativos, conscientes de seu papel na sociedade, torna-os capazes de transformar a realidade para que se possa construir uma sociedade com valores éticos ainda mais sólidos.

A metodologia de caso para ensino se desenvolve pela construção do conhecimento a partir da vivência de experiências específicas e significativas, apoiada nos processos de aprendizagem por descobertas, nos quais os conteúdos são oferecidos por meio de problemas, cuja busca por soluções deve ter como protagonista o próprio aluno. Um diferencial é criar no aluno o interesse pela busca do conhecimento, trazendo o tema que faz sentido, a partir de casos reais. A metodologia científica de pesquisa aplicada ao processo de busca do conhecimento realizada através da concepção crítica do que é ciência e suas verdades ditas absolutas enriquece o processo de ensino-aprendizagem. Outro aspecto que merece destaque é o estudo de caso como estratégia de ensino que favorece, portanto, a aproximação entre a teoria e a prática. Contribui, assim, para formular questões que subsidiem discussões e debates, buscando então atingir objetivos educacionais.

De toda sorte, as avaliações merecem um olhar especial e mais cuidadoso por parte dos docentes que devem estar abertos para mudanças durante a aprendizagem como as avaliações que ocorrerem aula-aula/processo, pois o maior número de oportunidades de avaliação do desempenho discente promove a constante reflexão docente e a consequente necessidade de correções de curso.

Cabe ainda destacar, a evasão crescente e as queixas do modelo tradicional de ensino ainda adotado, cabendo ao professor ser disruptivo e inovar nos processos de ensino. Fica a reflexão, como então, avançar a partir daqui, na formação docente no ensino público superior contemplando as habilidades e competências necessárias à arte de ensinar?