Os ‘jacobinos’, o fogo amigo e a ‘velha política’
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Os ‘jacobinos’, o fogo amigo e a ‘velha política’

José Fucs

22 de março de 2019 | 15h32

Filipe G. Martins (à dir.), assessor especial para assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro, com o chanceler Ernesto Araújo – Foto: Reprodução/Twitter

A ala “jacobina”, formada pelos “adoradores” do escritor e pensador Olavo de Carvalho, parece se dar conta de que não detém a hegemonia no governo, apesar de ter o apoio do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e do próprio presidente da República, Jair Bolsonaro. Ao contrário.

As alas formadas pelos militares, liberais, políticos e lavajatistas estão cada vez mais conscientes de que a ação dos “jacobinos” pode colocar em risco projetos importantes do governo, como a reforma da Previdência e o “pacote” que endurece a legislação contra a corrupção e a criminalidade, e estão procurando se diferenciar do grupo mais radical e ideológico, entrincheirado nos ministérios das Relações Exteriores e da Educação e no  próprio Palácio do Planalto, com o assessor internacional da Presidência, Felipe G. Martins, uma espécie de ponte entre olavistas e Bolsonaro e e seu filho Eduardo.

Apesar da euforia dos olavistas com as demonstrações explícitas de apoio de Bolsonaro e Eduardo ao “professor” e seus pupilos durante a viagem aos Estados Unidos, Martins demonstra preocupação com as notícias sobre o fogo amigo no front interno.  Numa sequência de publicações no Twitter (thread) nesta sexta-feira, 22, Martins diz que há uma tentativa exógena de indispor a ala ideológica do governo com as demais  — algo que poderia ser enquadrado numa categoria que o ex-presidente Jânio Quadros chamou de “forças ocultas”.

“Há uma flagrante tentativa de isolar a ala anti-establishment do governo Bolsonaro, lançando sobre ela uma série de adjetivações maliciosas e de acusações infundadas que não cumprem outra função senão a de torná-la tóxica e mal-vista pelas outras alas que compõem o governo”, afirma Martins. “Tentam vender para a equipe econômica a ilusão de que é possível romper com o sistema patrimonialista que existe há 500 anos, desde as Capitanias Hereditárias, por meio da cooperação ativa com os oligarcas e sem romper com a forma convencional de fazer política no Brasil. Tentam vender para a equipe do Ministério da Justiça a ilusão de que representantes da velha política e membros da elite oligárquica que se beneficiam dos esquemas da corrupção e do crime organizado vão aprovar o pacote anti-crime, desde que haja diálogo.”

Segundo Martins, que se vê como parte de uma espécie de “revolução” que estaria em curso, só será possível conter a resistência do establishment com apoio da população. “A única forma de ativar a lógica da sobrevivência política é por meio da pressão popular, por meio da mesma força que converteu a campanha eleitoral do PR Bolsonaro em um movimento cívico e tornou possível sua vitória”, diz. “É necessário, em suma, mostrar que o povo manda no país.”

A questão é que, em decorrência de toda a confusão armada até agora no governo, em especial pelos “jacobinos”, Bolsonaro perdeu, em pouco mais de três meses de governo, uma parte considerável do capital político que tinha no dia de sua posse, em 1º de janeiro. De acordo com pesquisa divulgada nesta semana pelo Ibope, referendada por outros institutos, o índice dos brasileiros que consideram o governo Bolsonaro “ótimo” ou “bom” caiu 15 pontos, de 49% para 34%. Ainda que a fatia dos que avaliam o governo como “regular” tenha subido de 26% para 34%, o índice dos que o consideram  “ruim” ou “péssimo” aumentou de 11% para 24%.

Bolsonaro afirma que as pesquisas “não têm credibilidade”, ancorado no erro dos principais institutos nas eleições, quando previram sua derrota em todos os cenários no segundo turno. Mesmo assim, talvez seja o caso de o presidente abrir os olhos para enxergar o que acontece nas suas barbas.

 

 

 

 

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