O populismo de Bolsonaro, o liberalismo de Guedes e o “patriotismo” dos supermercados
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O populismo de Bolsonaro, o liberalismo de Guedes e o “patriotismo” dos supermercados

José Fucs

05 de setembro de 2020 | 09h20

Foto: Gabriela Biló/Estadão

Em meio às divergências cada vez mais explícitas com o ministro Paulo Guedes sobre os rumos da economia, o presidente Jair Bolsonaro parece ter perdido de vez o constrangimento em expor suas inclinações populistas, opostas às ideias liberais de seu comandado.

Foi assim quando Bolsonaro defendeu a continuidade do auxílio emergencial de R$ 600 para os informais, contra a proposta de Guedes de incorporar o benefício ao Renda Brasil, que unificaria os programas sociais do governo, e quando ele impôs a exclusão dos atuais servidores da reforma administrativa à equipe econômica, para evitar uma eventual repercussão negativa da medida contra seus aliados nas eleições municipais.  Mas agora, com o pedido para que os donos dos supermercados tenham “patriotismo” e segurem os preços dos alimentos para conter a inflação, o presidente desferiu, talvez, o seu mais duro golpe contra o “Posto Ipiranga”, cujos serviços parecem perder relevância para ele a cada dia.

Nada poderia ser mais distante do liberalismo pregado por Guedes do que atribuir aos empresários uma suposta responsabilidade pela alta dos alimentos, como acontecia nos tempos do Plano Cruzado, em meados dos anos 1980, no governo Sarney. Guedes foi, inclusive, um dos principais críticos do Cruzado, que tentou debelar a hiperinflação com o congelamento de preços e salários, e diz ter sofrido até uma represália do governo por isso, com a perda da condição de organização sem fins lucrativos pelo Ibmec, uma escola de formação executiva em finanças que ele controlava.

Na época, cidadãos investidos de súbito civismo, os chamados “fiscais do Sarney”, fechavam supermercados entoando o Hino Nacional e davam voz de prisão a gerentes e empresários acusados de burlar o congelamento. Quando a carne sumiu do mercado, porque os pecuaristas não aceitavam vendê-la pelo preço congelado, o governo determinou à Polícia Federal que realizasse o confisco de bois no pasto em algumas fazendas, para tentar normalizar o abastecimento. A empreitada até levantou a arquibancada, mas deu em nada, como se poderia imaginar.

Do jeito que a coisa vai, 34 anos depois, não será surpresa se logo, logo, surgirem por aí os “fiscais do Bolsonaro”, para monitorar os preços nos supermercados. Sua tropa de choque aguerrida cumpriria tal papel de forma “exemplar”. Também não será surpresa se Paulo Guedes colocar um ponto final em seu “casamento hétero” com Bolsonaro e seguir seu caminho longe de Brasília. É só o que falta para confirmar, para quem ainda tem alguma dúvida, que a  tal “conversão” de Bolsonaro ao liberalismo representou, na verdade, um estelionato eleitoral de altíssimo custo para o País.

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