O ‘negacionismo’ econômico, a realidade dos números e a credibilidade dos analistas
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O ‘negacionismo’ econômico, a realidade dos números e a credibilidade dos analistas

José Fucs

02 de março de 2022 | 14h01

Diante da narrativa propagada por aí, fortemente influenciada por inclinações políticas e eleitorais, a impressão que se tem é de que o Brasil está à beira do abismo na economia.

Segundo a turma do “apocalypse now”, o País vai fechar 2022 em recessão, a inflação está fora de controle e as contas públicas estão explodindo, ameaçando a estabilidade econômica. O quadro sinistro se completa, na visão dos catastrofistas, com o sumiço dos investidores estrangeiros, o tombo dos investimentos na produção e o alto índice de desemprego, que está deixando os mais pobres famintos e os obrigando a comer ossos para sobreviver. Como afirma o jornalista José Roberto Guzzo, colunista do Estadão, a julgar pelos “boletins médicos” do paciente, o Brasil já pode chamar o padre para receber a extrema-unção, pois vai morrer daqui a cinco minutos.

Cena do filme Apocalypse Now, de 1979, dirigido por Francis Ford Coppola  /  Foto: Divulgação

Os números, porém, revelam um cenário bem diferente do que o retratado pelos profetas do fim dos tempos, que dominam o debate econômico. Apesar do “negacionismo” de muitos analistas, há boas notícias na economia, algumas muito boas até, relacionadas a alguns dos principais indicadores econômicos.

É certo que nem tudo vai bem e que há muitos desafios a superar pela frente. O Estado continua drenando boa parte da riqueza nacional, há ministros querendo “arrombar” o teto de gastos, as reformas administrativa e tributária empacaram no Congresso, as privatizações dos Correios e da Eletrobras não andam e os problemas criados pela pandemia nas cadeias globais de abastecimento parecem longe de ser resolvidos, ainda mais agora com o conflito entre a Rússia e a Ucrânia.

Além disso, como já se tornou praxe desde 1989, o processo eleitoral tende a aumentar as incertezas sobre os rumos da economia, especialmente com Lula, o eterno candidato do PT à Presidência, apregoando o “revogaço” – um “coletivo” que inclui o fim do teto de gastos, a revisão da reforma trabalhista e da autonomia do Banco Central e a paralisação total das privatizações.

Não há nada mais comprometedor para a reputação de um economista do que negar a realidade

Mesmo assim, não dá para brigar com os números, minimizando as conquistas e maximizando as dificuldades, só para marcar posição, como o PT fazia antes de assumir o poder, em 2003, com tudo o que não tinha as suas digitais, inclusive a Constituição de 1988, hoje defendida com unhas e dentes pelo partido, o Plano Real e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Não há nada mais comprometedor para a reputação de um economista do que negar a realidade e perder a objetividade em sua análise. Quem acredita que pode escapar ileso deste processo está enganado. Mais dia, menos dia, a sua credibilidade vai para o vinagre. E, como diz o velho dito popular, a credibilidade é fácil, muito fácil, de perder, mas dura, duríssima, de (re)conquistar.

Confira, a seguir, alguns indicadores que mostram um cenário mais promissor ou bem menos sombrio do que se pode imaginar pela narrativa dominante, impulsionada pelos pregadores do apocalipse. Há vários outros que poderiam ser incluídos na lista, mas os indicadores abordados aqui representam uma amostra emblemática do abismo que separa hoje as análises de boa parte dos economistas e a realidade.

1. Crescimento econômico – Em oposição às previsões mais pessimistas, a economia fechou 2021 com crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 4,6% e voltou praticamente ao nível em que estava antes da pandemia, em 2019. Com a alta dos juros, para combater a inflação, que se espalhou pelo mundo e afetou os preços dos combustíveis e dos alimentos, o ritmo de atividade perdeu força e apareceu até gente prevendo que o País fechará o ano em recessão.

Em 2022, já estão contratados R$ 390 bilhões em investimentos privados, segundo o PPI

De repente, não mais que de repente, começaram a pipocar no mercado estimativas de que o PIB (Produto Interno Bruto) poderá crescer de 1% a 2% neste ano, inclusive por parte de críticos da atual gestão econômica. Considerando que esse crescimento se dará, se confirmado, em cima dos 4,6% do ano passado, não será algo desprezível, principalmente em um contexto marcado pela propagação da ômicron, pelas incertezas geradas pelas eleições e pela guerra no leste europeu, com efeitos negativos em todo o mundo.

Como os Estados estão com o caixa recheado, com algo em torno de R$ 100 bilhões, em razão do congelamento salarial do funcionalismo nos últimos dois anos, alguns analistas acreditam que isso deverá resultar em mais obras públicas e em reajustes para os servidores, alavancando a economia. Se somarmos os investimentos privados já contratados para a área de infraestrutura em 2022, de cerca de R$ 390 bilhões, o equivalente a 4,5% do PIB, de acordo com estimativas do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), parece factível que a taxa de crescimento surpreenda os mais céticos novamente neste ano.

É claro que há economistas dizendo que tal crescimento em 2022, se confirmado, estará mais para um “voo de galinha” do que para o início de um ciclo de crescimento sustentável. Mas é preciso ter em mente que, apesar do “negacionismo” econômico, o País passou por mudanças consideráveis nos últimos anos, que tiraram amarras da economia e melhoraram, ainda que ligeiramente, o ambiente de negócios, principalmente no campo da infraestrutura e dos transportes, com as alterações promovidas nas regras dos leilões de concessões e nos marcos legais que regulam os investimentos na área.

Tudo vai depender, na verdade, de quem ocupará o Palácio do Planalto a partir de 2023. Só então se saberá ao certo se o crescimento da economia neste ano será algo efêmero ou não. Se o presidente eleito der um cavalo de pau na liberalização econômica, retomando o estatismo dos anos do PT, revertendo a reforma trabalhista e voltando a usar os bancos públicos para financiar “campeões nacionais”, é difícil imaginar que isso se mantenha no longo prazo, mesmo que, no curto prazo, possa gerar uma ilusão de melhora na economia. Aí, sim, pode-se dizer, sem medo de errar, que o crescimento do PIB será um verdadeiro “voo de galinha”.

2. Inflação – Embora o remédio seja amargo, com efeitos perversos na atividade econômica, tudo indica que o Banco Central está conseguindo conter a inflação com a alta dos juros, apoiado em um resultado fiscal que está longe do caos previsto por muitos economistas. Depois de atingir 10,38% em 12 meses em janeiro, a inflação deverá ficar em 5,6% em 2022, praticamente a metade do índice atual, de acordo com as projeções dos bancos compiladas no Relatório Focus, do Banco Central.

Mesmo que a inflação fique só 0,01% acima do teto, vão dizer que a meta não foi cumprida

Ainda que a previsão esteja ligeiramente acima do teto da meta — 0,6 ponto percentual, para ser mais exato – será uma conquista considerável. Se tal previsão se confirmar e se não houver novas turbulências pelo caminho, o BC poderá encerrar, daqui a alguns meses, o ciclo de alta dos juros e talvez até começar a cortar as taxas. Isso vai permitir, se confirmado, que o próximo presidente, seja lá quem for, assuma o posto com a inflação praticamente dentro da meta e com os juros em queda ou prestes a cair.

É óbvio que, na narrativa dominante, alimentada pelos catastrofistas, o que importa é destacar que a inflação deverá ficar acima do teto da meta. Mesmo que, no fim do ano, a “transgressão” acumulada em 2022 seja de apenas 0,01 ponto percentual, vai ter gente dizendo que a meta não foi respeitada. Provavelmente, serão os mesmos que atribuem a alta da inflação no País a fatores essencialmente domésticos e não levam em conta o impacto da pandemia nos preços dos fretes, dos combustíveis e dos alimentos em escala global.

3. Contas públicas – É provável que nenhum outro indicador tenha comprometido tanto a reputação da turma do “apocalypse now” quanto o das contas públicas. Em vez do caos previsto pelos “negacionistas”, que colocaria em xeque a própria estabilidade econômica, o setor público consolidado, que inclui a União, os Estados e os municípios, fechou 2021 com um superávit primário de R$ 65 bilhões, o primeiro desde 2013, equivalente a 0,75% do PIB.

É certo que o superávit se deu graças ao resultado dos Estados e dos municípios, que fecharam com saldo positivo de R$ 97,7 bilhões, enquanto o governo federal ainda ficou no vermelho, com um déficit de R$ 35,9 bilhões. Mas o déficit do governo central ainda foi mais ou menos a metade do que a média das previsões mais recentes do mercado, segundo o Broadcast, serviço de informações em tempo real do Grupo Estado, e 85% menor do que os R$ 247 bilhões estabelecidos pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2021.

A dívida pública bruta ficou em 80,3% do PIB em 2021, bem abaixo das previsões

Com isso, a dívida pública bruta, que até economistas considerados cinco estrelas haviam previsto que superaria os 100% do PIB, ficou em 80,3% do PIB, oito pontos a menos do que em 2020, quando atingiu 88,6% do PIB, e apenas um pouco acima do que em 2019, quando estava em 75,4% do PIB. Considerando que, com a pandemia, o País teve um gasto extraordinário em torno de R$ 700 bilhões, equivalente a quase 10% do PIB, para cobrir as necessidades sanitárias e amparar os mais vulneráveis, trata-se também de um resultado notável. Isso foi possível graças ao aumento surpreendente da arrecadação, com a retomada em “v” da economia, e a contenção das despesas, por meio do congelamento dos salários do funcionalismo em todas as instâncias de governo por dois anos, no período mais duro da pandemia.

Em 2022, o resultado do ano passado não deverá se repetir. A previsão orçamentária é de que o déficit do governo central fique em R$ 79,3 bilhões, o equivalente a 0,8% do PIB, mais do que o dobro do registrado em 2021. De qualquer forma, segundo analistas independentes, ainda será um déficit relativamente baixo, se comparado com os déficits contabilizados nos governos Dilma e Temer. Em 2015, 2016, 2017 e 2018, de acordo com dados oficiais, o déficit foi de 2%, 2,6%, 1,9% e 1,8% do PIB, respectivamente.

Confrontados com o resultado fiscal surpreendente de 2021, os porta-vozes do apocalipse procuraram se justificar dizendo que o aumento da arrecadação ocorreu por causa da inflação, que ultrapassou a casa dos 10% no ano passado. Mas, apesar de a inflação gerar um aumento de receita, eles “esquecem” de dizer que as contas públicas não teriam fechado 2021 com superávit se não tivesse havido um corte significativo de despesas, com o congelamento salarial dos servidores. A maior prova disso é que, no governo Dilma, quando a inflação também bateu em 10% ao ano, o fenômeno registrado agora não aconteceu. No ano passado, de acordo com dados oficiais, as despesas do governo federal caíram nada menos que 17,3% em termos reais (já descontada a inflação).

4. Investimento estrangeiro – Dizem por aí que os investidores externos estão fugindo do Brasil, por causa de uma suposta atitude relapsa do governo federal em relação ao desmatamento da Amazônia, pela perda de credibilidade da política econômica, em especial na área fiscal, e pelo “negacionismo” em relação à pandemia. Mas, na verdade, os investidores estrangeiros continuam a apostar no País, tanto via mercado de capitais quanto por meio de investimentos diretos na produção.

Segundo dados da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), o Brasil fechou 2021 em 7º lugar no ranking dos países com o maior volume de investimentos estrangeiros diretos (IED), com um total de US$ 58 bilhões. Foi um pouco menos do que em 2019, quando chegou a US$ 65 bilhões, mas mais do que o dobro do resultado de 2020, quando a pandemia afetou o volume de aportes externos em todo o mundo e os ingressos de investimento direto no País somaram US$ 28 bilhões. Em 2020, mesmo países desenvolvidos, de acordo com a Unctad, tiveram uma queda significativa de investimentos estrangeiros, calculada em 58%, na média, para o menor nível desde 2003.

Nos dois primeiros meses do ano, investimentos externos na Bolsa chegam a R$ 56,8 bilhões

Em 2021, o volume de investimentos externos no País superou também a média anual de 2015 a 2021, de US$ 54,1 bilhões. Se excluirmos da conta o resultado de 2020, que foi um ponto fora da curva devido à pandemia, o volume de investimentos diretos fica exatamente na média do período. Em 2022, conforme o Boletim Focus, do Banco Central, a previsão é de que o investimento direto seja até ligeiramente superior ao do ano passado, na faixa de US$ 60 bilhões.

Na Bolsa de Valores o quadro não é diferente. Depois de um período em que os saques dos investidores estrangeiros superaram os depósitos, os ingressos líquidos de moeda forte nos pregões dispararam nos primeiros dois meses de 2022. De acordo com dados da B3, o saldo positivo alcançava R$ 56,8 bilhões até 21 de fevereiro, o que está longe de representar um voto de desconfiança no País.

Embora um grupo de 29 grandes fundos de investimento internacionais, que administram US$ 3,6 trilhões em ativos, tenha divulgado uma carta em 2020 ameaçando paralisar os aportes no Brasil, por causa de uma suposta postura negligente do governo em relação ao meio ambiente, o que se pode observar, com base nos dados mencionados acima, é que o País continuou a ser um dos principais polos de atração para o capital internacional.

5. Investimentos na produção e em infraestrutura – Pela versão disseminada pelos catastrofistas, o Brasil estaria com os investimentos na produção e em infraestrutura em marcha à ré, devido a uma suposta desconfiança das empresas na economia e no governo. O que se vê, porém, é que não só os investimentos não estão caindo como estão subindo de forma considerável.

Em 2021, a taxa de investimento foi de 19% do PIB, maior nível desde 2015

Segundo dados do IBGE, o Brasil fechou 2021 com um crescimento de 16% na taxa de investimento, de 16,4% do PIB em 2020 para 19% do PIB, o maior nível desde 2015. Em 2022, embora a fatia reservada para investimentos no orçamento federal, de apenas R$ 42,3 bilhões (0,5% do PIB), seja a menor da história, a previsão oficial é de que a taxa de investimento continuará a subir, para 20% do PIB.

De acordo com analistas independentes, isso será possível porque a iniciativa privada está tomando o lugar do setor público como alavanca do desenvolvimento, graças às mudanças promovidas nas regras dos leilões de concessões e da liberalização de setores relevantes da economia, com a aprovação dos novos marcos regulatórios do saneamento, do gás, das ferrovias, da cabotagem e com a assinatura dos contratos do 5G.

Pelas projeções do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), o aporte de recursos em infraestrutura já contratado para os próximos dez anos alcançou a casa de R$ 1,2 trilhão. Só em 2022, segundo as estimativas do PPI, deverá haver um total de R$ 390 bilhões em investimentos na área, o equivalente a 5% do PIB.

Ao mesmo tempo, as vendas do setor de máquinas e equipamentos, que refletem a disposição das empresas em investir na modernização do processo de produção ou em novas plantas industriais, tiveram um crescimento de 25,3% no mercado doméstico em 2021, puxadas principalmente pelo setor agrícola e pela construção civil, segundo a Abimaq, (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos). Apesar de as vendas estarem perdendo tração desde meados do ano passado, principalmente em razão da alta dos juros, que torna menos atraente o investimento para as empresas, a Abimaq ainda prevê um crescimento de 1,5% no mercado doméstico em 2022.

Alguns analistas relativizaram a alta dos investimentos no ano passado dizendo que se baseou numa base de comparação muito baixa. Disseram que o aumento dos investimentos em 2021 foi “pontual”, alegando que parte relevante da melhora veio da alta dos preços dos bens de capital, em relação aos preços da economia como um todo. O forte investimento em máquinas agrícolas também teria sido resultado da elevação temporária dos preços das commodities e não indicaria vigor da atividade econômica. Eles desconsideram, porém, que, mesmo descontando o aumento dos preços dos bens de capital, o setor ainda teve um crescimento real de vendas significativo, acima da média da economia. Desconsideram ainda a mudança estrutural que está em curso, deslocando o eixo dos investimentos do setor público para o privado, que é uma novidade mais que bem-vinda para a economia do País. Só em 2022, se as previsões de investimento do PPI se confirmarem, conforme estabelecido nos contratos, os investimentos privados em infraestrutura deverão ser quase dez vezes maiores que os do governo federal.

6.Privatizações – É fato que, em três anos de governo, nenhuma das “joias da coroa” foi privatizada. A privatização da Eletrobras está encaminhada no Congresso, mas depende do sinal verde do TCU (Tribunal de Contas da União), onde um único ministro está impedindo o processo de avançar. A venda dos Correios, por sua vez, está parada no Senado. É difícil imaginar que, nesse ritmo, as duas privatizações possam ocorrer em 2022, ainda mais se levarmos em conta que estamos num ano eleitoral.

O total de ativos vendidos pelo governo federal desde 2019 alcançou R$ 230 bilhões

Ao mesmo tempo, o presidente Jair Bolsonaro não se empenhou para acelerar o processo como deveria, descumprindo sua promessa de campanha de reduzir a presença do Estado na economia. Isso mostrou que seu comprometimento com a proposta não passava de estratégia eleitoral e que ele não apoia efetivamente o processo de desestatização, como já era possível deduzir a partir da postura corporativista que marcou os seus trinta anos de atuação parlamentar.

Ainda assim, não dá para dizer que nada foi privatizado no atual governo. Entre subsidiárias de estatais, coligadas e participações acionárias, já foram vendidos ativos que renderam R$ 230 bilhões, de acordo com dados do Ministério da Economia. Isso sem contar os valores de outorga amealhados com as concessões de aeroportos, estradas, portos, ferrovias e até de parques nacionais.

Fazem parte da lista de ativos repassados à iniciativa privada a BR Distribuidora, a Tag e a refinaria Landulpho Alves, da Petrobras, que renderam cerca de R$ 70 bilhões, e a participação da Caixa no banco Pan, que rendeu mais R$ 7,9 bilhões. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também se desfez de suas participações na Vale e na Petrobras, por um total de R$ 65 bilhões, entre outras de menor valor.

Somando tudo, é muito menos do que o R$ 1 trilhão de que falava o ministro Paulo Guedes, mas não é pouca coisa, não. Certamente, é muito mais do que ocorreria num governo do PT, que paralisou por completo as privatizações e estabeleceu regras para os leilões de concessão que afastaram os grandes investidores, nos 14 anos em que esteve no poder. Algumas concessões só se viabilizaram porque contaram com o apoio de empreiteiras “amigas”, em troca de favores inconfessáveis em obras públicas e em outras áreas de interesse das empresas.

7. Comércio internacional – A abertura ampla da economia, com corte generalizado de tarifas e aumento da concorrência externa, não aconteceu. O Brasil continua a ser um dos países mais fechados do mundo e o acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul também não saiu do papel.

O saldo da balança comercial em 2021 foi de US$ 60,4 bilhões, maior nível da história

Mas algumas medidas foram tomadas nos últimos anos na direção de uma maior integração do Brasil na economia global. O corte de 10% nas tarifas do Mercosul, para 90% dos produtos comercializados na região, é uma delas e certamente vai dar uma contribuição, ainda que limitada, para ampliar a concorrência no mercado nacional. A formalização do convite da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) para adesão do Brasil também é um sinal de que a abertura continua na pauta econômica. O mesmo se pode dizer em relação ao acordo de livre comércio entre Brasil e Chile, aprovado pelo Senado em setembro e em vigor desde janeiro.

Na esfera do comércio internacional, o desempenho do País também está surpreendendo positivamente. Em 2021, o Brasil registrou um saldo recorde na balança comercial, de US$ 60,4 bilhões, impulsionado pela alta das commodities no mercado externo. Foi o melhor resultado em 32 anos, ou seja, desde 1989, quando foi adotada a atual metodologia de cálculo. Somando exportações e importações, o volume de negócios cresceu 36,2% chegando a US$ 0,5 trilhão, sendo US$ 280,4 bilhões em exportações e US$ 219,4 bilhões em importações, de acordo com dados oficiais.

Mesmo assim, o saldo de transações correntes, que incluem os serviços e a remessa de lucros e dividendos para outros países, ficou no vermelho em US$ 28,1 bilhões, o equivalente a 1,75% do PIB. Mas o ingresso de moeda forte sob a forma de investimentos estrangeiros diretos, que muitos analistas diziam que haviam sumido na atual gestão, chegou a US$ 58 bilhões em 2021, segundo a Unctad, e foi mais do que suficiente para cobrir o déficit.

8. Desemprego – Apesar da narrativa de que o desemprego no País só sobe e está levando os mais pobres a comer ossos para sobreviver, os números apontam uma queda significativa no número de trabalhadores que estão fora do mercado formal de trabalho.

No ano passado, o País criou 2,7 milhões de empregos formais, melhor resultado desde 2016

Em 2021, de acordo com o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), o País criou 2,7 milhões de novos postos com registro em carteira. A taxa de desemprego, que chegou a 14,9% da população economicamente ativa (PEA) no fim de 2020, em decorrência dos efeitos da pandemia, fechou o ano em 11,1%, segundo dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), do IBGE, o melhor resultado desde setembro de 2016.

Diante dos números robustos, em plena pandemia, muitos analistas procuraram destacar o fato de que, apesar da redução do desemprego, a renda média caiu 11% no trimestre encerrado em outubro, em relação ao mesmo período de 2020, e atingiu o nível mais baixo desde 2012, de R$ 2.449 mensais. É claro que se trata de uma informação relevante. Mas, considerando o efeito da pandemia, que provocou um aumento geral do desemprego no mundo, a contratação de quase 3 milhões de trabalhadores em um ano é um resultado e tanto. Pior do que ganhar um pouco menos hoje, na maior crise sanitária mundial desde o início do século passado, é não ter emprego nenhum.

Em relação a 2022, alguns analistas independentes já enxergam nova melhora no emprego e no mercado de trabalho. Como os Estados estão com o caixa recheado, em razão das transferências bilionárias realizadas pelo governo federal na pandemia e da alta dos preços dos combustíveis e dos alimentos, que tiveram impacto significativo na arrecadação, a expectativa é de que haja um aumento das obras públicas e de que alguns governadores e prefeitos concedam aumentos salariais para o funcionalismo, alavancando a atividade econômica e o emprego.

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