Tony Volpon: ‘Não é hora de brincar com a política econômica’
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Tony Volpon: ‘Não é hora de brincar com a política econômica’

Para o ex-diretor do Banco Central, a retomada ainda frágil da economia poderá ir para o vinagre, se o governo adotar medidas heterodoxas para tentar ganhar popularidade

José Fucs

29 de julho de 2017 | 00h00

Foto: Amanda Perobelli/Estadão

Apesar da crise política, Tony Volpon, de 51 anos, economista-chefe do banco suíço UBS no Brasil e ex-diretor do Banco Central, está otimista em relação ao desempenho da economia. Segundo ele, “tudo conspira” para o Banco Central aprofundar o corte da taxa básica de juro (Selic) – uma medida considerada fundamental para a retomada da economia. Nem o adiamento da reforma da Previdência, de acordo com Volpon, será suficiente para interromper o atual ciclo de relaxamento monetário. Mas, em sua avaliação, a recuperação poderá ir para o vinagre, se o governo adotar medidas heterodoxas ou se houver dúvida em relação à manutenção da equipe econômica. Nesta entrevista ao Estado, ele diz também que, diante da resistência do governo e dos políticos em geral em cortar gastos, não havia alternativa a não ser o aumento de impostos, para o governo cumprir a meta fiscal neste ano.

Como o senhor analisa a decisão do governo de aumentar os tributos sobre os combustíveis, em vez de cortar mais gastos, para conseguir cumprir a meta fiscal de 2017?
Esse ajuste é necessário – e veio tarde. Como o Brasil está enfrentando uma crise fiscal e há resistência em cortar gastos ou a tendência de só fazer isso depois da eleição, teremos de amargar uma carga tributaria maior, ainda que temporariamente. Em meados de 2015, no governo Dilma, quando ficou claro que não haveria como atingir a meta definida no início do ano, o mercado até estava disposto a aceitar uma mudança, desde que a meta de 2016 fosse mantida e o governo explicasse como seria possível atingi-la. Mas a Dilma decidiu mudar não só a meta de 2015, mas também a de 2016 – e foi isso que acentuou a perda de confiança no governo e a crise que acabou levando ao impeachment. Agora, de novo, a questão não é tanto a mudança ou não da meta de 2017, mas o que será feito em relação a 2018. O ponto crucial é como a equipe econômica vai lidar com a questão do resultado primário (que exclui os juros da dívida pública) no ano que vem.

Na quarta-feira, o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) anunciou a redução da taxa básica de juro (Selic) para 9,25% ao ano e já se prevê no mercado que os juros chegarão a 8% ao ano em dezembro. Ainda assim, muitos analistas dizem que o corte poderia ser mais rápido. Qual a sua visão sobre essa questão?
Não dá para ignorar que houve uma profunda mudança no processo inflacionário brasileiro. Tenho insistido nesse ponto desde o início do ano. Isso permitiu uma forte e rápida flexibilização monetária. Se você olhar o hiato do produto (diferença entre PIB corrente e PIB potencial), o choque exógeno que está permeando a economia neste momento, provocando inclusive a queda nos preços dos alimentos, a relativa estabilidade do dólar, o nível de desemprego, as expectativas abaixo da meta para a inflação, ainda tem grande espaço para, neste ciclo, haver uma grande queda de juros. A atual equipe do Banco Central, por varias razões, decidiu cortar a Selic de forma mais lenta. Ainda assim, a minha estimativa é de que a Selic chegará a 7,5% ao ano, o que representará uma redução significativa, ainda em 2017. Será quase a metade da taxa de 14,25% ao ano que estava em vigor na época do impeachment, em maio de 2016.

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Há um receio entre executivos do mercado de que o governo anuncie medidas heterodoxas para tentar ganhar popularidade. Que efeito isso pode ter na economia?
Qualquer coisa que venha na direção contrária da atual política econômica poderá ter impacto negativo, condicionando a economia real, que está num processo consistente, mas ainda frágil e incipiente de recuperação. Não é hora, portanto, de brincar com a política econômica. Agora, quase todos os dias tem muito ruído político. Eu já estive no governo e sei que sempre tem alguma coisa sendo discutida em Brasília. Por enquanto, essas propostas só estão aparecendo nos jornais. Muitas vezes, são apenas “balões de ensaio”. Depois, eles caem no chão. Se você ficar seguindo cada manchete, cada notícia, cada boato, pode acabar deixando de lado o que realmente importa.

Há uma percepção de que a equipe econômica, da qual o mercado gosta e na qual confia bastante, vai ficar, com ou sem Temer

Ao contrário de outras crises, até agora não houve um impacto dramático das turbulências políticas na economia. A que o senhor atribui isso?
Primeiro, o mais relevante foram as condições externas. Hoje, elas são muito mais favoráveis do que no governo Dilma. Em meados de 2015, a desvalorização da moeda chinesa teve um impacto global sobre os mercados e fez a situação do Brasil, que já não era boa, por causa das incertezas internas, ficar muito pior. Hoje, as Bolsas estão perto de suas máximas históricas, o crescimento global é o mais alto desde a crise financeira e as taxas de juro ainda estão bem comportadas, embora os juros americanos estejam em alta. Então, os condicionantes externos hoje são muito positivos.

Que outros fatores podem explicar a relativa calmaria dos mercados hoje?
Apesar da volatilidade política, não houve até o momento mudanças significativas nas condições financeiras do País, a ponto de sugerir grandes revisões na taxa de crescimento esperada para os próximos trimestres e nas estimativas da taxa de juros, da inflação e do câmbio. Obviamente, isso pode mudar instantaneamente, mas por enquanto a situação está relativamente controlada. Outro ponto importante é que, independentemente das dificuldades políticas que o governo Temer esteja passando, há uma equipe econômica da qual o mercado gosta e na qual confia bastante. Há também a percepção de que ela vai ficar, com Temer ou sem Temer, o que deverá garantir a continuidade da política econômica que o mercado apoia. Não há uma visão de risco de troca nos principais nomes da equipe econômica, que levaria a uma mudança da política que o mercado apoia. Hoje, a percepção é de que, independentemente dos problemas políticos, o Pedro Parente vai continuar na Petrobras, o (Henrique) Meirelles na Fazenda, o Ilan (Goldfajn) no Banco Central, e vai haver a continuidade do que é visto pelo mercado como uma boa gestão.

Há uma crença de que o processo de reformas será gradual e longo, e terá de entrar no próximo governo, como já se previa antes mesmo da crise política 

De que forma a aprovação ou não das reformas pode influenciar a política monetária?
Ao contrário do que aconteceu na reunião anterior do Copom, quando o Banco Central colocou muita ênfase sobre o impacto das reformas para o andamento do atual ciclo monetário, agora ele reconheceu que o quadro politico não teve até o momento um impacto significativo sobre as estimativas de inflação e as condições financeiras do País.  Eu já vinha falando isso há tempos. O que realmente conta para a política monetária são os fatores cíclicos que já estão atuando sobre a dinâmica inflacionária – e tudo conspira para você poder baixar ainda mais a taxa de juro. O andamento das reformas ou não é importante para os ciclos futuros, mais especificamente para definir o momento em que a gente vai ter de subir a taxa quando economia se recuperar.  Quando isso acontecer, se as reformas estiverem bem encaminhadas, a alta de juros talvez seja bastante pequena. Será bem diferente do que a gente observou na gestão do Alexandre Tombini (ex-presidente do BC), quando ele baixou a Selic para 7,25% em 2012 e depois teve de subi-la para 14%, quase o dobro.

O que pode acontecer se a reforma da Previdência não for aprovada pelo Congresso?
Se a reforma da Previdência não passar agora, o Congresso estará apenas retardando a sua aprovação para depois da eleição. A opinião mediana do mercado – obviamente há vozes dissidentes – é que o processo de reformas continuará no próximo governo. Há uma crença de que o processo de reformas será gradual e longo, e terá de entrar no próximo governo, como já se previa antes mesmo da crise política. O mercado meio que confia, sem saber exatamente quem serão os candidatos a presidente nem como vai ser eleição e como serão os desdobramentos da Lava Jato, que haverá um governo reformista eleito em 2018, que dará continuidade ao processo em 2019. A gente até pode discutir se essa crença é racional ou não, se é excesso de otimismo ou não. Mas o fato é que a combinação dessas coisas tem levado o mercado a ter essa reação relativamente moderada. Agora, é claro que, se o Congresso aprovar a reforma da Previdência, haverá uma melhora adicional nas condições financeiras. Se o governo tivesse aprovado a reforma da Previdência no início de junho, como previa o cronograma antes da delação da JBS, a melhora teria sido muito maior.