Lula, as ameaças de Gleisi e o império da lei
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Lula, as ameaças de Gleisi e o império da lei

Com a virtual condenação de Lula pela Lava Jato, o partido da estrela vermelha volta a desafiar as instituições e a democracia, como se o Brasil fosse uma republiqueta de banana

José Fucs

07 de julho de 2017 | 19h11

Gleisi, Lula e Dilma em encontro do PT, em Brasília (Foto: André Dusek/Estadão)

Quando a gente pensa que o PT não pode mais nos surpreender, eis que, de repente, o partido supera mais uma vez as nossas expectativas – para pior. A última do PT – talvez o mais correto aqui fosse dizer “a mais recente”, já que outras certamente virão – foi perpetrada pela senadora Gleisi Hoffmann, recém-empossada como presidente nacional do partido.

Em mais um sinal de que o apreço do PT pela democracia e pela independência dos Poderes se esgota quando seus interesses são contrariados ou colocados em xeque, Gleisi disse que o partido “não reconhecerá” uma eventual condenação de Lula pela Lava Jato e ameaçou realizar uma “denúncia internacional”, se a decisão for referendada em segunda instância, impedindo-o de ser candidato em 2018.

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“Não vamos aceitar uma condenação sem fazer questionamento político. Vamos fazer denúncia internacional, mobilização, não vamos reconhecer”, disse. “Esperamos que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) tenha com Lula o mesmo tratamento que teve com o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. Não há nenhuma prova que incrimine o ex-presidente Lula. A decisão do juiz Sérgio Moro é uma decisão política.”

 O oportunismo e o desprezo pelas instituições do País parecem estar no DNA do PT

Como se isso não fosse o suficiente, Gleisi ainda reforçou a posição do partido em favor da antecipação das eleições de 2018, em franco desrespeito às regras do jogo e à Constituição, que prevê a posse do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, se o presidente Michel Temer deixar o cargo. “Trocar um governo golpista por outro não tem diferença alguma”, declarou Gleisi.

Para quem conhece o PT, mesmo sem nunca ter sido petista nem simpatizante do partido, a ameaça de Gleisi não chega a ser uma surpresa. Ao longo de sua história, o PT cometeu inúmeras transgressões do gênero. A cada oportunidade que surge pelo caminho, o partido parece sempre reconfirmar o que já é sabido pelos brasileiros que não rezam pela cartilha petista: o PT só pensa no PT. O oportunismo e o desprezo pelas instituições do País parecem estar em seu DNA.

Foi assim em 1985, quando o Colégio Eleitoral era a única opção para derrotar Paulo Maluf, o candidato à presidência pelo PDS, o partido do regime militar. O PT tentou capitalizar a frustração dos que apoiavam as Diretas Já, derrotadas no Congresso Nacional, e ficou contra a a candidatura de Tancredo, o candidato da oposição. O PT até expulsou três de seus deputados federais, Bete Mendes, José Eudes e Airton Soares, por votarem em Tancredo.

Depois, em 1988, o PT deixou de assinar a nova Constituição, elaborada e aprovada democraticamente pela Constituinte eleita em 1986, sob o argumento de que não atendia os interesses dos trabalhadores. Hoje, curiosamente, a mesma Constituição é defendida ardorosamente como uma “conquista histórica” pelo partido, que se coloca contra qualquer mudança constitucional, exceto se for para beneficiá-lo, como no caso da antecipação das eleições do ano que vem.

No início dos anos 1990, após o impeachment de Collor, que o PT defendeu entusiasticamente, junto com as demais forças políticas do País, o partido negou-se a apoiar Itamar Franco, mesmo que o momento exigisse um governo de união nacional, por acreditar que sua gestão seria um fracasso e que isso favoreceria Lula nas eleições de 1994.

Com o impeachment de Dilma, aprovado dentro das regras constitucionais, o PT agiu como se o Brasil fosse uma republiqueta de bananas

No governo Itamar, o PT ficou contra o Brasil, ao apostar no fracasso do Plano Real, implantado em 1994, investindo na política do quanto pior, melhor, a sua estratégia preferida. Só que, para frustração do partido, o real foi um sucesso e o PT se deu mal de novo.

No final do governo Fernando Henrique, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, uma ferramenta criada para conter a gastança descontrolada do dinheiro dos pagadores de impostos, mais uma vez o PT se posicionou contra a modernização do Brasil ao votar contra a proposta.

Mais recentemente, com o impeachment de Dilma, aprovado dentro das regras constitucionais, o PT agiu como se o País fosse uma republiqueta de banana. Criou a “narrativa” – termo preferido pelos comunicólogos petistas – criminosa de que Dilma foi alvo de um “golpe” e estimulou suas milícias, incrustadas em organismos ou universidades internacionais, onde se deleitam com as benesses do capitalismo,  a organizar protestos lá fora, para tentar colocar o mundo contra o Brasil. É a mesma estratégia que Gleisi e o PT ameaçam repetir agora se Lula for condenado e impedido de concorrer ao pleito do ano que vem.

Novamente, porém, o oportunismo do PT deu ruim. Apesar do esforço petista e das “manifestações” promovidas por meia dúzia de milicianos em grandes cidades no exterior, nenhum líder político internacional de peso levou a sério as bravatas petistas.  Hoje, a narrativa do “gorpi” só serve para impulsionar a claque petista e seus aliados.

Se fosse necessário, seria possível enumerar aqui mais uma infinidade de outras iniciativas e posicionamentos do gênero adotados pelo PT em seus 37 anos de vida. Desde a sua fundação, em 1980, o PT sempre fez da marcação oportunista de território e da construção de “narrativas” que pouco ou nada tem a ver com a realidade e os interesses do País uma estratégia de atuação política, para tentar alavancar o crescimento do partido.

Diante das falcatruas em que o PT se envolveu, não seria agora, com Lula às vésperas de uma virtual condenação pelo juiz Sergio Moro, que o partido agiria de forma diferente.  Seria esperar demais do PT, depois de todas as manifestações de oportunismo que ele já deu.

Caberá aos brasileiros de bem, que engrossam os 68% de rejeição a Lula apontados pelas pesquisas, mostrar que o Brasil mudou e que, hoje, as “narrativas” fantasiosas do PT só enganam os incautos. Se Lula for condenado, certamente milhares de cidadãos também irão às ruas comemorar a decisão da Justiça. O império da lei tem de prevalecer sobre as iniciativas espúrias do partido, que ameaçam, ano após ano, as instituições e a democracia no País.

 

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