Equipe econômica adota ‘voto de silêncio’ pela Previdência
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Equipe econômica adota ‘voto de silêncio’ pela Previdência

Apesar de apostar na aprovação da reforma, governo teme defecções na Câmara com divulgação de detalhes das medidas que vêm por aí

José Fucs

14 de junho de 2019 | 05h00


Guedes, da Economia: objetivo é evitar “marolas”

Com a aproximação da votação da reforma da Previdência pela Câmara dos Deputados, prevista para ocorrer nas próximas duas a três semanas, a equipe econômica adotou uma espécie de “voto de silêncio” em relação às medidas que o governo pretende anunciar assim que a questão for apreciada pelo plenário.

‘Plano Guedes’ deverá mudar o perfil da economia do País

O objetivo é evitar “marolas” que possam gerar defecções entre os parlamentares favoráveis à reforma, com a divulgação antecipada de projetos alinhavados pelo ministro Paulo Guedes. Uma cautela especial é dedicada às medidas que geram mais resistência no Congresso, como a abertura econômica, temida por setores da indústria e do agronegócio, e a privatização, que já é alvo de frentes parlamentares formadas nas últimas semanas, com até 200 deputados.

Guedes e seu pessoal acreditam que a reforma da Previdência deverá ser aprovada pelos deputados, mas por uma margem estreita. Neste cenário, qualquer defecção poderá colocar em risco o esforço empreendido nos últimos meses para viabilizar a aprovação. Paira sobre a cúpula da economia o fantasma da rejeição da reforma pela Câmara no governo Fernando Henrique, quando foi recusada por apenas um voto, com a ausência do deputado Antônio Kandir, que apoiava a proposta, da votação.

Ansiedade. Na semana passada, durante audiência na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara, Guedes até apresentou as linhas gerais das propostas que vêm por aí, mas evitou entrar em detalhes. Segundo seus auxiliares, o ministro fica particularmente ansioso por divulgar as medidas ao ouvir que o presidente Jair Bolsonaro “não tem plano de governo”. Muitas vezes, ele parece deixar a ansiedade aflorar e chega a avaliar a antecipação do anúncio das propostas, mas é contido por sua equipe sob o argumento de que isso colocaria em xeque a estratégia montada para aprovar as novas regras da Previdência.

A percepção no ministério da Economia é de que, apesar das possíveis resistências de grupos parlamentares, “há convergência” em relação à agenda econômica, ao contrário do que acontece com a pauta do governo nas áreas de costumes, como a flexibilização da posse e do porte de armas, e de meio ambiente. A ideia é tentar “blindar” a pauta econômica, para tirar o País do atoleiro em que se encontra, e deixar o Congresso “quebrar o pau” nas questões mais polêmicas, caras ao núcleo mais ideológico que apoia Bolsonaro.

A estratégia para conseguir a blindagem é “tentar compartimentar” os ruídos gerados pela agenda comportamental, com o isolamento da ala mais radical do bolsonarismo, formada pelo grupo ligado ao escritor Olavo de Carvalho, que, apesar de ruidosa, de acordo com auxiliares de Guedes, representa apenas uma pequena parte dos eleitores de Bolsonaro.

‘Cooperação temática’. Embora afirme que a eleição de Bolsonaro representou uma vitória contra o establishment, Guedes parece cada vez mais convencido de que não há “nova” ou “velha” política, mas apenas a política, pura e simples, baseada na negociação e na busca de consensos – um ponto de vista torpedeado pelos bolsolavistas nas redes sociais.

O grupo de Guedes cunhou até uma nova expressão – o “presidencialismo de cooperação temática”, insinuado na campanha eleitoral pelo próprio presidente – para fundamentar o novo modelo de gestão adotado por Bolsonaro em sua relação com o Congresso e se contrapor ao chamado “presidencialismo de coalização” predominante desde a redemocratização e baseado no “toma lá, dá cá.

Entre Guedes e sua equipe prevalece a visão de que o novo modelo, muitas vezes interpretado como sinal de fraqueza do presidente e de falha na articulação política, tem sido mal compreendido pelos analistas. Segundo eles, diante do desafio de “restabelecer a governabilidade”, o novo modelo representa uma tentativa de “restaurar a política” em seu sentido mais republicano.

‘Plano Guedes’ deverá mudar perfil da economia do País

Logo depois de o Congresso apreciar a reforma da Previdência, com a qual o ministro Paulo Guedes espera economizar pelo menos R$ 1 trilhão nos próximos dez anos, o governo deverá “desovar” um conjunto de medidas liberalizantes, para redesenhar a economia do País e a alavancar o crescimento. Embora nem o ministro nem seus auxiliares diretos tenham dado detalhes dos projetos até agora, já é possível ter uma boa ideia de como será o “Plano Guedes”, levando em conta que, segundo ele, “não há nenhuma grande invenção” no prelo (leia o quadro abaixo).

“A Previdência é só o começo. Focamos muito na Previdência até agora, porque é um buraco negro fiscal que está engolindo o Brasil”, afirmou recentemente. “As nossas outras propostas estão sendo estruturadas e na verdade já estão prontas. A palavra de ordem daqui para frente é gerar emprego e renda.”

Guedes parece conformado com a exclusão das mudanças no BPC (Benefício de Prestação Continuada) e na aposentadoria rural da reforma da Previdência, bem como do novo regime de capitalização, baseado em contas individuais de poupança, que constavam da proposta original do governo. Ele pretende, porém, reapresentar o projeto de capitalização isoladamente em seguida.

Além de reforçar a poupança de longo prazo, essencial para estimular os investimentos, Guedes acredita que a capitalização poderá alavancar a contratação dos mais jovens, que são os mais afetados pelo desemprego, já que os custos trabalhistas de quem optar por aderir ao sistema serão reduzidos.

“Não há nenhum compromisso de já disparar a nova Previdência agora. Se aprovarmos só a reforma do sistema atual já colocamos o País para andar”, afirmou o ministro na Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara, na semana passada. “A nova Previdência virá de novo para o Congresso, eu irei explicar tudo outra vez e os senhores vão votar de novo a proposta.”

Protagonismo. As prioridades deverão ser a reforma tributária e o novo pacto federativo. De acordo com ele, o plano é acelerar a tramitação da reforma tributária na Câmara, com corte de subsídios, desonerações e deduções, e encaminhar em paralelo pelo Senado, por meio de um parlamentar aliado, uma proposta que contemple o novo pacto federativo, baseado na desvinculação e na descentralização dos recursos orçamentários, em benefício de Estados e municípios. “Para mim, a recuperação do protagonismo da classe política sobre o orçamento é a coisa mais importante”, disse.

Segundo auxiliares de Guedes, a proposta de reforma tributária em andamento na Câmara não gera desconforto. Mas ele já disse que deverá encaminhar seu próprio projeto, que propõe a implantação de um imposto único federal, deixando a decisão sobre a adesão ao sistema a cargo de Estados e municípios, ao contrário do que prevê a proposta aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no mês passado. Em princípio, o projeto oficial deverá ser acoplado na proposta da Câmara, segundo informam auxiliares de Guedes, a ser discutida na Comissão Especial de Reforma Tributária.

No campo fiscal, além da repartição com os Estados e municípios dos recursos da cessão onerosa do pré-sal, que deverá render cerca de R$ 100 bilhões apenas no leilão marcado para outubro, e da repartição de boa parte dos recursos arrecadados com o pré-sal com os Estados, o governo deverá implementar o chamado Plano Mansueto, elaborado pelo secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, para socorrer os Estados em dificuldades de caixa. O programa prevê a concessão de com empréstimos de até R$ 10 bilhões por ano com garantia da União, para Estados que se comprometerem a equilibrar suas contas, com a realização de concessões e privatizações, entre outras medidas de ajuste.

Pregação ideológica. À margem das reformas estruturais, o governo deverá acelerar o seu agressivo plano de privatizações e de vendas de participações e de imóveis oficiais, cujo valor é estimado em mais R$ 1 trilhão por Guedes. Tudo indica que, depois da hesitação inicial, o processo de desestatização deverá incluir os Correios, apesar da resistência do ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, e a extinção da Empresa Brasileira de Comunicações (EBC), como reafirmou recentemente o presidente Jair Bolsonaro, embora o escritor Olavo de Carvalho e seus pupilos desejassem preservá-la para servir de instrumento de apoio ao governo e de pregação ideológica. O objetivo é usar parte do dinheiro obtido com a venda dos Correios para capitalizar o Postalis, fundo de pensão dos funcionários da estatal, que praticamente “quebrou” com o uso político de seus recursos nos governos anteriores.

No plano externo, o governo pretende promover um corte de tarifas alfandegárias da média atual de 14% para 4% no prazo de quatro anos e adotar uma série de medidas complementares para viabilizar o ingresso do Brasil na OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em até dois anos. Ao mesmo tempo, Guedes já anunciou que há cerca de 80% de chances de o acordo comercial negociado nos últimos vinte anos entre o Mercosul e a União Europeia finalmente ser concluído “em três ou quatro semanas” , na contramão da agenda antiglobalista defendida pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e pela ala olavista do governo. “O Brasil precisa começar a sua modernização”, disse.

O cardápio de propostas que estão no “pipeline” inclui ainda a aprovação do novo marco regulatório de saneamento, que libera a concorrência na área; a adoção de novas medidas para melhorar o ambiente de negócios e aprofundar os efeitos da chamada MP da Liberdade Econômica; a “despedalagem” do BNDES, do BB e da Caixa, com a concentração dos empréstimos em pequenas e médias empresas; congelamento da contratação de novos servidores, para permitir a redução do quadro com a esperada aposentadoria de cerca de 40% da mão de obra nos próximos cinco anos; a criação de uma superagência de seguros e previdência complementar, com a fusão da Susep e da Previc, para reforçar a fiscalização dos fundos de pensão e seguradoras; e medidas com impacto de curto prazo no consumo, como uma nova liberação de saques nas contas dos trabalhadores no PIS/Pasep e nas contas inativas do FGTS.

 

Tudo o que sabemos sobre:

EconomiaPaulo GuedesPrevidência

Tendências: