‘Em 2018, é pouco provável que a direita obtenha um resultado vigoroso’, diz cientista político
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‘Em 2018, é pouco provável que a direita obtenha um resultado vigoroso’, diz cientista político

Ainda assim, segundo Bruno Garschagen, o crescimento dos grupos liberais e conservadores já mudou o debate de ideias e a pauta eleitoral no País

José Fucs

04 Janeiro 2018 | 05h00

Foto:Gabriel Lordello/Estadão

 

O cientista político capixaba Bruno Garschagen, de 42 anos, é uma raridade entre os seus pares. Ele se define como “conservador”, com posições liberais na economia e tradicionalistas nos costumes, e é um dos trombones mais respeitados da chamada “nova direita” que surgiu no Brasil nos últimos anos.

Autor do best-seller Pare de Acreditar no Governo – Por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado, publicado em 2015 pela Editora Record, com 40 mil exemplares vendidos, Garschagen finaliza no momento um novo livro, ainda sem título, a ser lançado em maio, sobre a ideia predominante no País de que todos devem ter direito a tudo, sem deveres, obrigações e responsabilidades.

Nesta entrevista, ele fala sobre o amor dos brasileiros pelo Estado, discute as transformações ocorridas na sociedade após a derrocada do modelo estatista implementado pelo PT e analisa as perspectivas da direita nas eleições de 2018. “É pouco provável que, na próxima eleição, a direita obtenha um resultado vigoroso”, diz.

Em seu livro, publicado em 2015, o senhor fala do amor dos brasileiros pelo Estado e da desconfiança nos políticos. Hoje, dois anos depois, com a derrocada do PT, o impeachment e o fracasso do modelo econômico adotado nos governos petistas, o que mudou?
Acredito que mudou muita coisa. Uma parcela considerável da sociedade passou a ver o governo de uma maneira diferente. Os equívocos do governo Dilma acabaram por potencializar uma crise que começou ainda no governo Lula, mas cujos efeitos só foram aparecer depois. Isso fez muita gente perceber que o governo pode causar grandes estragos com os seus erros.

Que impacto essa percepção teve na visão dos brasileiros em relação ao papel que o Estado deve desempenhar na sociedade?
Desde o final da década passada, vinham surgindo grupos, indivíduos e organizações que procuravam mostrar as consequências negativas da intervenção do Estado na economia e na vida das pessoas. Aí, no segundo mandato de Dilma, quando  tentava entender melhor a situação, agravada pelas denúncias de corrupção, uma parte da sociedade começou a se dar conta de que a esquerda não se mostrou apenas um fracasso na política e na economia, mas também nas esferas ética e moral.

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Em sua opinião, até que ponto isso afetou a relação afetiva dos brasileiros com o Estado da qual o senhor fala no livro, essa dependência do paternalismo estatal?
Essa relação com o Estado, com o governo, não vai mudar de uma hora para outra. Todas as pesquisas, mesmo as mais recentes, mostram que o brasileiro médio ainda acredita que o governo deve ser o protagonista do desenvolvimento social e econômico. Em geral, a maioria ainda vê o Estado como o grande agente a quem se deve recorrer para resolver os problemas e para garantir direitos.

Não deverá haver nenhum candidato com as características de ‘salvador da pátria’ no Brasil

Agora, segundo diversas pesquisas, a confiança da população em relação os políticos, que já era baixa, caiu ainda mais.  Como o senhor analisa essa questão?
É um paradoxo que procuro explicar no livro. Os brasileiros continuam a depositar no governo uma grande esperança de mudança para melhor sem levar em conta que o governo é formado pelos mesmos políticos nos quais a maioria da população não confia. As pessoas continuam a acreditar que o governo vai resolver alguma coisa, mas o grau de desconfiança em relação aos políticos só aumenta. Talvez, o descrédito em relação à classe política hoje seja o maior da história. É uma conta que não fecha.

Que efeito esse paradoxo pode ter nas eleições de 2018? Pode levar ao surgimento de um “salvador da pátria”?
No momento, não há no páreo nenhum outsider, como o presidente americano Donald Trump, um empresário sem vida política pregressa que entrou na disputa eleitoral e ganhou. O presidente francês Emmanuel Macron não tem nada de outsider. Veio do mercado financeiro, mas fez parte do governo socialista de François Hollande. No Brasil, o deputado Jair Bolsonaro também não é um outsider da política. Ele tem um longo histórico parlamentar. Mesmo o prefeito de São Paulo, João Doria, se fosse candidato – e parece que não vai ser – não poderia ser considerado um outsider. Quem poderia ser considerado um outsider, se o projeto fosse adiante, era o Luciano Huck, ainda que sem uma proposta concreta para o País. O Joaquim Barbosa, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que não teve carreira política prévia, também, mas sua participação na disputa ainda está no campo da especulação. Então, acredito que não deverá haver ninguém com essas características de “salvador da pátria” no Brasil.

Diante desse quadro, como o senhor avalia hoje o cenário eleitoral?
Mesmo com o descrédito dos políticos, essa mentalidade estatista de querer que o governo continue a ser o grande protagonista pode se acentuar, o que seria horrível. Muita gente está apostando em candidatos, à esquerda e à direita, que defendem não o protagonismo do indivíduo, mas do Estado brasileiro. Mesmo os grupos com mais acesso à informação estão caindo nessa armadilha. O que está acontecendo hoje, que é diferente do passado, é que a gente está vivendo, talvez pela primeira vez, um movimento que pode mudar essa mentalidade no futuro.

De que forma a chamada “nova direita”, que surgiu no País nos últimos anos, pode se beneficiar dessa situação?
Estamos vivendo um momento de transição. É pouco provável que, na próxima eleição, a direita possa obter um resultado vigoroso, considerando o tempo curto decorrido desde o início deste processo, mas o debate político hoje já é diferente. O ambiente de ideias já mudou. Há uma pressão sobre os potenciais candidatos à presidência para se posicionar a favor ou contra a liberdade de mercado, as liberdades individuais. Se compararmos com o que aconteceu nas eleições anteriores, nas quais havia a disputa entre dois projetos de esquerda, o PT e o PSDB, com gradações distintas de intervencionismo, essa eleição já vai representar, em termos de ideias, uma mudança muito grande. Essa é uma novidade muito saudável.

Em termos de nomes, não acredito que haja uma grande renovação no ano que vem

Concretamente, na corrida presidencial, como essa mudança pró-mercado está se manifestando?
Recentemente, o deputado Jair Bolsonaro, que tem sido muito cobrado sobre suas posições econômicas, anunciou que, se ele vencer a eleição, seu ministro da Fazenda poderá ser o economista Paulo Guedes, que tem uma longa história em defesa das ideias liberais. Numa outra frente, há o Partido Novo, que recebeu recentemente a adesão do economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, que era quem defendia o liberalismo econômico no governo FHC. Mas, por enquanto, não tenho me manifestado sobre nenhum candidato específico, porque nenhum deles é efetivamente candidato.

Nas eleições legislativas, o que pode acontecer? O senhor acredita que a direita poderá eleger uma bancada robusta?
Nas eleições municipais de 2016, percebi que alguns candidatos em vários pontos do País defenderam as ideias da liberdade, liberais ou conservadoras. Acredito que, na próxima eleição, como disse há pouco, isso ainda vai aparecer numa medida muito reduzida, mas acho que é parte de um processo de mudança que estamos vivendo. Nas eleições seguintes, esse movimento deverá crescer e no futuro vai se consolidar. Muita gente que não tem um partido com o qual se identifica ideologicamente, mas quer participar da vida pública, está entrando nos partidos que existem hoje, para ter influência política ou até se eleger, ainda que  tenham posições diferentes das suas. Um exemplo recente é o do deputado federal Paulo Eduardo Martins, do PSDB, que defende uma agenda claramente liberal na economia, mas em termos de costumes tem uma agenda conservadora. Foi ele o autor da emenda que pôs fim à obrigatoriedade da contribuição sindical pelos trabalhadores.

Em sua visão, esse cenário poderá levar a uma grande renovação política no País em 2018?
Em termos de nomes acho difícil que aconteça uma mudança numa escala que a gente possa considerar, passado o pleito, que houve de fato uma renovação. No ano que vem, acredito que haverá o surgimento de candidatos que estão percebendo o que a sociedade quer e que vão defender coisas como a redução de carga tributária, um Estado menor, um Estado que não atrapalhe, menos burocracia. Isso já será fruto dessa pressão ideológica que está acontecendo. Mas não acredito que haja uma grande renovação no ano que vem, porque não deu tempo de formar uma elite política vinculada a essas ideias. Acredito que, em duas eleições, aparecerão vários candidatos novos, com posições liberais ou conservadoras, que entrarão na política pela primeira vez e se conseguirão se eleger.

Há dois grupos que, desde o começo do ano passado, começaram a coletar assinaturas para montar um partido conservador no País

Além do Partido Novo, fundado em 2011, que o senhor mencionou há pouco, há o Livres, um movimento de jovens que surgiu dentro do PSL (Partido Social Liberal), com uma posição liberal tanto na economia como nos costumes. Há também um grupo mais autoritário, com uma visão nostálgica do nacional-desenvolvimentismo do regime militar, identificado com o deputado Jair Bolsonaro. Mas até agora não surgiu um partido ligado aos grupos conservadores, com os quais o senhor se identifica. A que atribui isso?
Montar um partido político do zero não é fácil. O João Amoêdo, fundador do Novo, com todos os recursos à mão, enfrentou dificuldades quase intransponíveis para se estruturar. Essas pessoas que defendem uma posição conservadora não têm os recursos do João Amoêdo. Agora, eu sei que há dois grupos que, desde o começo do ano passado, começaram a coletar assinaturas para montar um partido conservador, inspirados no Partido Conservador brasileiro do século 19. Um chama-se Paco, Partido Conservador, e o outro é o Cons. É gente desconhecida que está entrando na política agora. Essas coisas estão acontecendo. Podem não estar aparecendo ainda para o grande público. Talvez não tenham ainda o apoio de nomes de peso como o Gustavo Franco e o Paulo Guedes, mas essas pessoas estão se movimentando para criar alternativas aos partidos existentes e que não os representa. Tenho acompanhado de perto essa movimentação e posso afirmar e garantir que isso está acontecendo. Não vai aparecer de forma exponencial agora, mas está sendo uma construção gradual e a gente vai ver isso com mais nitidez no futuro, espero que brevemente.

Como o senhor vê os diversos grupos que surgiram à margem do sistema político tradicional, como Vem Pra Rua, Acredito, Agora e MBL, que deverá ter candidatos próprios por meio dos partidos já existentes?
De forma extremamente positiva, porque é sinal de que tudo o que eu falei em termos de transformação social está acontecendo mesmo. Essa é a prova empírica de que uma parcela da sociedade quer se envolver politicamente, mesmo que não na política formal, e isso representa uma dinâmica social extraordinária. É sinal de vitalidade e de saúde de uma sociedade que se preocupa com os seus rumos. A coisa saiu da esfera estrita dos sindicatos ligados a partidos políticos e dos próprios partidos e ganhou uma dinâmica social muito interessante. Quando (o pensador francês) Alexis de Tocqueville (1805-1859) escreveu A Democracia na América, a partir de uma viagem que fez aos Estados Unidos para cumprir uma missão nas colônias, uma das coisas que mais o impressionaram, que foi objeto de elogio no livro, foi justamente a forma como os americanos se mobilizavam em diversas instituições sociais, desde a Igreja até os grupos de moradores.

Que o papel esse pessoal pode desempenhar nas eleições de 2018?
O papel que já estão desempenhando agora: mostrar para os grupos que acompanham direta ou indiretamente esses movimentos o que eles defendem em termos de ideias políticas e econômicas. Eles acabam servindo de bússola para quem que não quer acompanhar a política no dia a dia, informando-se sobre candidatos e partidos. Atuam também como facilitadores. Os candidatos que eles indicarem e representarem as suas ideias ou os que eles apoiarem diretamente ou endossarem de alguma forma certamente serão beneficiados nas urnas.

Em que medida toda essa efervecência reflete, de fato, a disseminação das ideias liberais no País, entre os cidadãos que não participam diretamente da política, dentro e fora dos partidos?
Aí, posso dar um depoimento de quem está vivendo dentro desse movimento de defesa de ideias da liberdade. Desde 2009, quando comecei a viajar o País com alguns colegas para participar de palestra e seminários nas universidades públicas e privadas, eu trabalho com isso. Naquela época, era terra devastada. Para se conseguir espaço para falar sobre liberalismo era um problema sério. Houve evento que tinha mais gente na mesa para falar do que para ouvir. Numa dessas palestras, havia quatro palestrantes na mesa e só duas pessoas para nos ver. Desci da mesa dos palestrantes para ficar junto com o público para tentar equilibrar o quórum. Em 2015, quando voltei a rodar o Brasil para lançar o meu livro, o panorama já era totalmente diferente. Não conseguia atender a todos os convites que surgiram.

Como o senhor explica essa súbita transformação?
Houve um movimento de mudança na sociedade, de baixo para cima, sem ligação com sindicatos, governo, partido político, que vem se acentuando nos últimos anos. Várias frentes foram abertas para defender ideias liberais clássicas, libertárias, anarcocapitalistas e conservadoras, grupo no qual eu me incluo. Tem muita gente fazendo coisas diferentes, de produção de conteúdo, palestras, aulas de pós-graduação, debates e revistas acadêmicas, e o público tem respondido com grande interesse. É um sinal de vitalidade e de saúde de uma sociedade que se preocupa com os seus rumos. Essa é a prova empírica de que uma parcela da sociedade quer se envolver politicamente, mesmo que não na política formal. Isso representa uma dinâmica social extraordinária.

A esquerda cresce neste momento em progressão aritmética e a direita, em progressão geométrica

No Brasil, hoje, o crescimento desses grupos tem muito a ver com a rejeição aos políticos e que está muito legado àquela ideia da renovação da política…
Se a gente considerar que esses grupos têm sido bem sucedidos em sua atuação, isso mostra aspecto interessante da questão. Uma parcela da sociedade brasileira tem rejeitado os políticos tradicionais, mas está disposta a apoiar políticos comprometidos com essas ideias que estão sendo apresentadas agora e que para esse pessoal tem algum valor, porque esses novos nomes estão se apresentando com propostas políticas e econômicas diferentes. Ao participarem ativamente do debate público, das manifestações, eles acabam estimulante surgimento de novos políticos com novas cabeças.

Embora o senhor afirme que esses novos grupos de direita não devam obter um resultado expressivo nas próximas eleições, na internet a impressão que se tem é de que a situação é diferente. Aquela hegemonia da esquerda, que havia até pouco tempo atrás, já não existe mais. Hoje, se somarmos toda essa turma mais à direita, há um número considerável de pessoas que defendem as ideias liberais, conservadoras e libertárias. Como o senhor analisa esse fenômeno?
É um número considerável e que cresce em progressão geométrica. A esquerda cresce neste momento em progressão aritmética e a direita em progressão geométrica. Eu sei que os libertários e os anarco-capitalistas não gostam de ser classificados como direita. A rigor, seria mais adequado até falar os grupos de não esquerda. Mas o fato é que, hoje, de um jeito ou de outro, a esquerda não fala mais sozinha. Esses grupos todos, de forma descentralizada, espontânea, têm reagido nas redes sociais e também nos eventos, debates públicos, em todas as dimensões na vida em sociedade, e têm reagido de forma qualificada, ou seja, com informação e formação.

Não está havendo uma polarização no Brasil, como a gente costuma ouvir e ler por aí.

Como o senhor avalia a polarização política existe hoje no País?
Não está havendo propriamente uma polarização no Brasil, como a gente costuma ouvir e ler por aí. O que está acontecendo é o contrário da polarização. A gente tem uma diversidade e uma pluralidade de interesses, de posições e até autoqualificações ideológicas como a gente nunca teve na história do País. Toda essa violência verbal, discussão, briga nas redes sociais faz parte desse processo de mudança, de descoberta, de testar as ideias. Não vejo com horror o que está acontecendo, como a maior parte das pessoas. Não estou dizendo que é bonita a forma como muita gente se comporta nas redes sociais. O que estou dizendo é que isso é compreensível se considerarmos que estamos vivendo um processo de mudança. Esse processo é como uma criança que aprende a andar, cai, quebra o dente, bate a cabeça. É natural em um processo de amadurecimento. É uma pluralidade e uma diversidade de ideias como talvez nunca tenha experimentado na história do Brasil.

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