Bolsonaro, a reeleição e o risco do populismo
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Bolsonaro, a reeleição e o risco do populismo

De olho nas eleições de 2022, o presidente já evita a inclusão de medidas impopulares na agenda do governo

José Fucs

16 de janeiro de 2020 | 09h50

Bolsonoel. O presidente Jair Bolsonaro coloca gorro de Papai Noel e distribui presentes a crianças de escolas públicas no Palácio do Planalto, em Brasília.  Foto: Dida Sampaio/Estadão

Durante a campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que iria propor o fim da reeleição, como parte de uma reforma política, e que não seria, de qualquer forma, candidato a um novo mandato.

Mas, pelo visto, as duas promessas foram para o brejo já em seu primeiro ano de governo. Pelos sinais que ele tem emitido e pelas declarações feitas aqui e ali por seus mais fiéis escudeiros, o presidente parece engajado, desde já, em disputar a reeleição em 2022 e em viabilizar a sua permanência no cargo por mais quatro anos.

Embora a orientação de Bolsonaro seja a de evitar o assunto a qualquer custo, até pelo caráter precoce da iniciativa, é cada vez mais difícil camuflar que ele e a seus auxiliares e conselheiros mais próximos estão trabalhando pelo segundo mandato. Como dez entre dez políticos que chegaram ao Olimpo, Bolsonaro parece ter sido picado pela “mosca azul” do poder.  Depois de chegar lá, ninguém quer largar o osso.

Os sinais de que o presidente já governa de olho no segundo mandato se multiplicam por aí. Às vezes, ele acaba voltando atrás em medidas populistas, como dar descontos na conta de luz para os templos religiosos. Mas, em geral, já está preocupado em ganhar pontos com a opinião pública e os grupos de interesse, evitando a adoção de medidas destinadas a acabar com privilégios, como a taxação da energia solar, o fim da estabilidade dos atuais funcionários públicos, inicialmente prevista na reforma administrativa a ser enviada ao Congresso em fevereiro.

O mesmo pode ser dito em relação às privatizações de estatais, consideradas decisivas para viabilizar a reforma do Estado proposta durante a campanha eleitoral, que sumiram da agenda. Em vez de defender as privatizações, Bolsonaro prefere apoiar os ministros que resistem à venda das estatais sob sua esfera de influência.

Fazem parte da lista empresas como a Eletrobrás, vinculada ao ministério das Minas e Energia, a Valec, a EPL e a Infraero, ligadas ao ministério da Infraestrutura, e a EBC, atrelada à secretaria de Governo da Presidência, que ele jurou fechar na campanha de 2018. A privatização de símbolos do estatismo tupiniquim, como a Petrobrás, o BNDES e o Banco do Brasil, então, foi simplesmente limada da agenda.

Pelo jeito, em vez de forjar a tal da “nova política” de que tanto falou nas eleições, Bolsonaro segue a mesma trilha de ex-presidentes como José Sarney, que segurou o descongelamento de preços no Plano Cruzado, para garantir a eleição de aliados no Congresso; Fernando Henrique, que adiou a liberação do câmbio para não prejudicar a sua reeleição; Lula, que manteve os “anabolizantes” adotados depois da crise global na economia para eleger Dilma; e a própria Dilma, que deixou de fazer as “maldades” necessárias para colocar as contas do País em ordem, em busca de sua reeleição, e deu no que deu.

Talvez fosse o caso de Bolsonaro levar em conta também os resultados desastrosos que os quatro episódios, decorrentes da ambição política de seus protagonistas, tiveram para o País. O adiamento das medidas de que o Brasil precisa pode ser conveniente para os seus planos políticos, mas no fim quem acaba pagando a conta dos “estelionatos eleitorais” são todos os brasileiros – e não só os que acreditaram em suas promessas de palanque.

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