As esquerdas, a ‘turma do dendê’ e o ódio ao MBL
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As esquerdas, a ‘turma do dendê’ e o ódio ao MBL

Pela oposição que fez à presença de crianças em duas exposições de arte, o grupo passou a ser ‘demonizado’ pela 'gauche' e por setores da mídia. A campanha deflagrada contra o movimento, porém, não é motivada por seus eventuais deslizes, mas por suas qualidades

José Fucs

17 de outubro de 2017 | 18h19

Manifestação realizada pelo MBL em defesa da Lava Jato, em Belém (PA), em março de 2017 (Foto: Paulo Castro/Futura Press)

Nas últimas semanas, as esquerdas elegeram um novo bode expiatório no País – o Movimento Brasil Livre, o MBL, um dos organizadores das manifestações vitoriosas pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e contra a corrupção, que levaram milhões de brasileiros às ruas em 2015 e 2016.

Pela dura oposição que fez à presença de crianças em duas exposições de arte, o MBL se tornou alvo preferencial das milícias esquerdistas, que tentam recuperar a hegemonia perdida nas redes sociais e na sociedade, e de uma parcela considerável da mídia, que elegeu o grupo como o vilão da história.

Numa das exposições, a Queermuseu, realizada no Santander Cultural, em Porto Alegre, havia uma tela de um menino e uma menina com os dizeres “criança viada travesti da lambada”, entre outras obras do gênero. Na outra, o 35º Panorama da Arte Brasileira, realizada no MAM, em São Paulo, uma menina de cinco anos foi estimulada pela mãe a tocar o corpo de um performer nu.

Não me considero moralista nem vou me estender aqui na discussão sobre a sexualidade e a agenda de igualdade de gênero que as esquerdas pretendem empurrar guela abaixo da sociedade, com apoio de veículos e empresas de comunicação considerados “burgueses”. Não é isso que está em jogo aqui.

Também não sou advogado do MBL nem tenho procuração para defender o movimento. Acredito que o grupo tem os seus problemas – afinal, quem não tem? – sobre os quais falarei logo mais. Agora, não dá para engolir impassível a narrativa da gauche tupiniquim, que pretende demonizar o MBL e promover o seu linchamento nas redes sociais, nos meios de comunicação, na academia e nos bares da vida, em especial na zona sul do Rio de Janeiro, onde fica o QG da galera.

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Para confundir a opinião pública e jogá-la contra o MBL, as esquerdas e alguns veículos de comunicação propagaram a narrativa fake de que o MBL defende a censura às artes e deixaram praticamente de lado a discussão sobre a presença de crianças nas duas mostras, que era o cerne do problema. Quando analisaram a questão, levaram em conta apenas a opinião de quem acha “normal” o acesso infantil a eventos do tipo, em franca oposição ao que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Numa ação articulada, com apoio de intelectuais de esquerda e jornalistas simpáticos à causa, que formam a esmagadora maioria nas redações da vida, o MBL foi chamado de fascista, autoritário, direita radical, defensor da censura e do obscurantismo. Foi também acusado de ser responsável pela propagação de um “discurso de ódio” e de uma “onda conservadora”, que é o termo preferido no momento para tentar constranger e manter em silêncio os que se opõem à agenda de igualdade de gênero no País e a outras propostas tidas como “progressistas” pelas esquerdas.

Num telejornal de uma grande rede de TV, um jornalista chegou a dizer, sem ficar corado, que o MBL era “nazista”. Outro jornalista considerado “sério” falou num jornal de circulação nacional que o MBL se engajou numa “campanha maluca contra a nudez”, coisa de que não me lembro, em  momento algum, de ver o movimento fazer.

O PSOL, partido de extrema esquerda que lidera o ativismo talibã em defesa da agenda da igualdade de gênero, foi para cima do MBL desde o princípio. Sem qualquer compromisso com a realidade, o PSOL acusou o movimento de promover a censura e liderar os protestos que levaram o Santander a encerrar de forma precoce a exposição na capital gaúcha e a reação popular contra a presença de crianças na “performance” do MAM.

A campanha suja para satanizar o MBL contou também com o envolvimento militante de sites como Mídia Ninja e Catraca Livre, que fazem oposição feroz ao movimento. Até o ex-padre Leonardo Boff, defensor da “teologia da libertação” e excomungado pelo Vaticano, deu seu pitaco na polêmica. “Temo que o moralismo do MBL comece quebrar as vitrines das lojas que mostram manequins com roupas íntimas de mulheres”, afirmou Boff em sua conta no Twitter. “São mentes perturbadas.” Só faltou dizer que o MBL come criancinhas – no sentido de abocanhar mesmo, é bom frisar, nesses tempos bicudos que vivemos no País.

Para tentar capitalizar a batalha contra o MBL, a produtora cultural Paula Lavigne, aquela que lançou o movimento Procure Saber para defender a censura às biografias, transformou-se, da noite para o dia, em paladina da liberdade de expressão e criou um grupo para coordenar as ações relacionadas à questão, o #342 Artes. Com apoio do marido Caetano Veloso, o Caê, para os íntimos, Lavigne apontou o MBL como mal a ser combatido por defender a censura e prometeu uma enxurrada de processos contra o grupo e os políticos que se opuseram à sexualização e à erotização precoce de crianças.

“MBL e políticos mentirosos querem dizer o que pode #censuranuncamais”, disse Lavigne, que contou certa vez numa entrevista ter perdido a virgindade aos 13 anos com Caê, então com 40 anos – um fato que, pela lei brasileira, que restringe o sexo com menores de 14 anos, é considerado crime. Caê, que apoiou Marcelo Freixo, o candidato derrotado do PSOL à prefeitura do Rio em 2016 e hoje se tornou o líder da esquerda embolorada e da chamada “máfia do dendê”, como é conhecida nas redes sociais a baianidad que domina a produção cultural no País, reforçou o post de Lavigne, ao dizer que sabe bem onde leva “esse tipo pensamento autoritário”.

Mas, ao contrário da narrativa propagada pelos velhos baianos, pelas esquerdas e por setores da mídia, o que aconteceu não foi uma “censura às artes” nem “coisa do MBL”. Foi, sim, o resultado da indignação da maioria silenciosa da sociedade, muitas vezes ignorada ou ridicularizada por uma parcela expressiva dos jornalistas e pelas esquerdas que se consideram “cool” e acreditam deter o monopólio da verdade.

O MBL pode até ter alavancado a reação popular contra as duas exposições. Mas, por mais força que ele tenha, com seu poder de mobilização e seu ativismo digital, seria uma tremenda sobrevalorização do grupo imaginar que nada disso teria acontecido se o MBL não existisse. Isso ficou claro com o singelo comentário de dona Regina, uma senhora que participou há duas semanas de um quadro sobre o tema no programa de Fátima Bernardes, na Globo. “Eu não sou contra a arte. Mas e a criança?”, disse dona Regina, que poderia ser a avó de qualquer um de nós, ao comentar a performance do artista nu realizada no MAM. Com sua incômoda espontaneidade, ela deixou os apresentadores e os artistas convidados pelo programa numa situação difícil e virou meme na internet.

O MBL, é certo, criticou o uso de recursos públicos via Lei Rouanet na produção das duas exposições e defendeu o boicote às mostras para os seus 2,5 milhões de seguidores nas redes sociais. Também defendeu o boicote ao Santander, que patrocinava a exposição de Porto Alegre, e às empresas que apoiavam a exposição do MAM, em São Paulo, por parte de quem não concordava com presença de crianças nos dois eventos. Mas isso é parte do jogo democrático. Ou não?

Eu tenho dúvidas de que, apesar das obras chocantes expostas pelo Santander Cultural e da performance do peladão apresentada pelo MAM, os dois eventos estimulavam a zoofilia e a pedofilia, como o MBL e outros estão afirmando por aí. De qualquer forma, isso está bem longe de significar que o MBL defende a “censura às artes”.

O MBL tem pontos a esclarecer sobre as suas atividades. Falta, por exemplo, transparência em relação às suas fontes de financiamento. Falta transparência também sobre a forma como o dinheiro que o grupo recebe é aplicado. Dado o crescimento do movimento, é importante que fique claro, muito claro, como é o seu fluxo financeiro. Além disso, o MBL precisa institucionalizar os critérios de escolha de suas lideranças e criar instâncias deliberativas que sejam de conhecimento público e respeitadas e aprovadas por seus associados.

Só que, no caso das exposições do MAM e do Santander Cultural, o MBL não está sendo demonizado por seus defeitos e escorregões, mas por suas inúmeras qualidades. Primeiro, por enfrentar de cabeça erguida a narrativa das esquerdas e por ter contribuído para acabar com a hegemonia esquerdizante no mundo digital, na academia e na arena cultural. Também por promover a divulgação de uma agenda que coloca em xeque as “verdades” propagadas sem contestação até pouco tempo atrás.

Segundo, por ter sido protagonista das manifestações que levaram ao impeachment de Dilma, pelo seu antipetismo radical, que espelha o sentimento de muitos brasileiros hoje, e pela defesa enfática que faz da Lava Jato. Depois, por defender bandeiras liberais para a economia brasileira, como a privatização de estatais, o teto dos gastos públicos e as reformas da Previdência, trabalhista e tributária, e por apoiar medidas como o fim da “partidarização” das escolas por professores; o fim do Estatuto do Desarmamento, que funciona como uma reserva de armas para a bandidagem; o fim da universidade gratuita para todos, que permite aos ricos estudar de graça às custas dos pagadores de impostos, enquanto os pobres têm de pagar para estudar em faculdades particulares; e o fim da Lei Rouanet, que entregou bilhões de reais em dinheiro público para artistas consagrados, como Caê, e produtores culturais da zona sul carioca como Paula Lavigne, nos governos do PT.

Como se isso não bastasse, o MBL ainda é atacado pela oposição que faz à política de cotas, capitaneada por um de seus líderes, o jovem vereador negro e homossexual, Fernando Holiday; por seu apoio ao prefeito de São Paulo, João Doria; por expor ao ridículo personagens caricatos das esquerdas, por meio do vídeomaker Arthur do Val, que foi agredido covardemente por um professor da extrema esquerda em Porto Alegre, ao filmar a manifestação contra a exposição realizada no Santander Cultural.

Depois de décadas de hegemonia das esquerdas no plano das ideias no País, ao menos desde a redemocratização, o ativismo e a coragem da garotada do MBL representam uma novidade mais que bem-vinda à cena política brasileira. Na “guerra de narrativas”, na qual as esquerdas costumam se dar bem, o MBL se tornou uma espécie de infantaria da nova direita, que surgiu no País nos últimos anos. Sem essa força, provavelmente, a esquerda teria continuado a navegar soberana na internet, nas universidades e na cultura.

Em sua trajetória para enfrentar a hegemonia das esquerdas, é provável que o MBL tenha cometido alguns excessos. Mas, após décadas de supremacia esquerdista, que marginalizava e perseguia qualquer pensamento divergente, a nova direita tem sede de participação e de expressão e está determinada a não aceitar as narrativas fakes propagadas pela gauche e por certos veículos de comunicação. O Brasil mudou muito nos últimos anos, com a derrocada do PT, o impeachment e a Lava Jato, e muita gente ainda não se deu conta disso.

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