Quando Bolsonaro e as esquerdas falam a mesma língua
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Quando Bolsonaro e as esquerdas falam a mesma língua

Por mais estranho que possa parecer, as ideias de Bolsonaro para a economia têm muitas semelhanças com as defendidas pelo PT e por outros partidos e organizações de esquerda

José Fucs

07 de abril de 2017 | 20h20

O deputado federal Jair Bonsonaro na Camara dos Deputados, em Brasilia

 

A entrevista do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), realizada pelo repórter especial do Estado, Marcelo Godoy, e publicada no domingo passado (2/4) pelo jornal e por seu portal na internet, revela muito sobre as suas ideias para o Brasil, que devem ser motivo de apreensão para os brasileiros comprometidos com o desenvolvimento sustentável, a modernização do País e a prosperidade geral.

Não tanto pelas ideias de Bolsonaro, pré-candidato declarado à presidência nas eleições de 2018, a respeito da política e dos costumes. Já amplamente conhecidas do público, elas provocam a ira das esquerdas de todas as colorações e até de uma parcela da nova direita democrática que surgiu no País nos últimos tempos, mas espelham em boa medida, para o bem ou para o mal, o pensamento da maioria silenciosa do País. O que é realmente preocupante é o que Bolsonaro diz sobre a economia e o que ele pretende fazer na área se vencer as eleições para a presidência da República em 2018.

Bolsonaro afirma estar no “ensino fundamental da economia”. Aparentemente, ele não tem um pensamento estruturado sobre a questão. Mas, ao montar o ‘quebra-cabeça’ das declarações feitas aleatoriamente por Bolsonaro sobre o tema, o quadro que se desenha é supreendente.

Assim como Dilma e Lula, Bolsonaro gostaria de ter o economista Antônio Delfim Netto como conselheiro

Por mais estranho que possa parecer, as ideias de Bolsonaro para a economia têm muitas semelhanças com as dos partidos e organizações de esquerda que ele diz combater. Adotadas nos governos do PT, apresentaram resultados desastrosos – a maior recessão da história, um rombo monumental nas contas públicas, um contingente de 13,5 milhões de desempregados e uma queda generalizada na renda da população.

Apesar de já ter se declarado a favor do ‘Estado mínimo’, Bolsonaro parece acreditar mesmo no modelo nacional-desenvolvimentista praticado no regime militar, em especial na gestão do general Ernesto Geisel, assim como Dilma, Lula, o PT e seus aliados. É um modelo marcado por uma pesada intervenção do Estado na economia, pelo nacionalismo e pelas reservas de mercado garantidas por lei.

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Saudosista, Bolsonaro parece acreditar no sonho do ‘Brasil grande’ alimentado pelos militares e também perseguido pelo PT quando estava no poder, mas jamais transformado em realidade, nem no governo Geisel, nem nas gestões petistas. Ao contrário. A megalomania nacional-desenvolvimentista provocou uma crise profunda no País, tanto nos anos 1980 quanto agora, nos governos do PT.

Também repetindo o que fizeram Lula e Dilma, Bolsonaro diz que gostaria de ter como conselheiro o economista Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, do Planejamento e da Agricultura durante o regime militar e uma espécie de assessor informal dos ex-presidentes petistas em seus governos.

Em relação ao Banco Central, mais uma vez as ideias de Bolsonaro se assemelham às do PT e de outros partidos e organizações de esquerda. Como se fosse um ativista de extrema-esquerda agitando uma bandeira vermelha num protesto convocado pela CUT, na Avenida Paulista, em São Paulo, Bolsonaro diz que o Banco Central trabalha a favor do sistema financeiro e mantém os juros altos para favorecer os bancos, impondo um custo muito elevado para a rolagem da dívida pública.

Bolsonaro não descarta a possibilidade de rever o teto dos gastos, se for eleito

Bolsonaro se declara contra a independência do Banco Central e diz que, se isso for feito, o presidente da República vai se tornar “refém” do sistema financeiro, que fornece a maior parte dos integrantes da diretoria da instituição. “Se você deixar à vontade, toda vez que tiver um refresco na economia esse pessoal vai inventar uma maneira de ajudar mais o sistema financeiro”, afirma.

Apesar de falar que não prega o calote na dívida pública, Bolsonaro parece não se preocupar muito com o equilíbrio fiscal, assim como o PT e seus aliados à esquerda. Ele até votou a favor da PEC do teto para os gastos públicos, ao contrário dos parlamentares de esquerda, mas não descarta a possibilidade de rever a medida, caso seja eleito. “Até lá, faltam praticamente dois anos, o que eu falar agora pode não valer”, afirma. “Quem assumir, pode ser que eu assuma, pode estudar a possibilidade de alterar a PEC do teto.”

Por fim, em mais uma afinidade com as esquerdas, Bolsonaro é contra a reforma da Previdência proposta pelo presidente Michel Temer, que pretende conter a principal fonte do déficit nas contas públicas, responsável por um buraco de cerca de R$ 180 bilhões por ano. Com espírito corporativista, como os parlamentares petistas, ele defende os privilégios dos militares na Previdência.

Num momento em que o Brasil tenta, a duras penas, sair do atoleiro em que se encontra, fruto das políticas implementadas pelo PT, e procura criar condições para crescer de forma sustentável, sem a adoção de fórmulas mágicas usadas em profusão nos governos petistas, as propostas de Bolsonaro assustam muito mais do que suas posições sobre a política e os costumes.

A possibilidade de Bolsonaro ressuscitar as velhas práticas do nacional-desenvolvimentismo e outras propostas já testadas com resultados perversos para o País pode provocar  danos iguais ou piores, se é que isso é possível, aos causados pela herança deixada por Dilma e Lula para Temer.

Na entrevista ao Estado, Bolsonaro disse que os jornalistas “vão bater tanto” nele até as eleições presidenciais de 2018 que irão “fazer” sua campanha. Talvez, diante de suas ideias anacrônicas para a economia, fosse o caso de dizer que, nessa toada, Bolsonaro tem tudo para ser o seu próprio algoz na disputa eleitoral.