Análise: Bolsonaro, a Geni e a narrativa da oposição
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Análise: Bolsonaro, a Geni e a narrativa da oposição

Hoje, virou uma espécie de esporte nacional descer o sarrafo no presidente. Mas, apesar de todos os seus problemas, nem tudo o que vem dele e do governo são trevas

José Fucs

25 de julho de 2019 | 17h48

Foto: Gabriela Bilo/Estadão

É certo que o presidente Jair Bolsonaro não se ajuda, com declarações estapafúrdias, o vai e vem de posições e as demissões de ministros e auxiliares pela mídia e pelas redes sociais. Também não jogam a seu favor os traços de autoritarismo que ele revela aqui e ali, em comentários e decisões de governo, e a prática do mais repulsivo nepotismo, com a indicação do filho Eduardo – o 03 – para a Embaixada do Brasil em Washington.

Por seus exageros, reações intempestivas e habituais hesitações, Bolsonaro se transformou, em pouco mais de seis meses, numa espécie de Geni, como se dizia antigamente de quem era “apedrejado” pela turba em praça pública, em referência a uma música de Chico Buarque. Hoje, virou uma espécie de esporte nacional falar mal do presidente. A razão pouco importa. Tudo o que ele faz ou diz é motivo para descer o sarrafo. Tem gente até aproveitando a onda para tirar daí, sem muito esforço, o seu ganha pão.

Em meio às bordoadas que ele recebe, a esquerda e as forças políticas derrotadas na eleição aproveitam para execrar também, muitas vezes, o que deveria ser exaltado. Até quem votou em Bolsonaro, para evitar a vitória de Fernando Haddad e a volta do PT ao poder, acaba caindo, consciente ou inconscientemente, nesta armadilha.  Só que, ao contrário do que as intervenções desastradas de Bolsonaro podem sugerir, nem tudo que vem dele e de seu governo são trevas. Mesmo com todos os seus problemas – e ele não se constrange em exibi-los em profusão – não dá para negar que várias ideias e propostas que brotaram em sua gestão têm o seu mérito.

Não sou advogado de Bolsonaro nem faço parte das milícias digitais bolsolavistas, que se recusam a enxergar defeitos no “mito”, repetindo o culto à personalidade que a tropa de choque petista pratica em relação a Lula. Tornei-me até alvo da ira do grupo, que briga com os fatos se for para defender Bolsonaro e seus filhos, ao publicar uma reportagem sobre os linchamentos virtuais promovidos por seus integrantes. Por causa da reportagem, que foi acompanhada de uma lista dos líderes e influenciadores bolsolavistas, apurada com quem já foi massacrado pela turma, fui detonado nas redes e chamado de “comunista”, “PTralha” e “jornapetista”. Estou, portanto, à vontade para discutir a questão e separar o joio do trigo, sem ser acusado de ter um olhar complacente com o presidente e o governo.

A real é que vale tudo para “malhar o Judas”. Se Bolsonaro busca “despetizar” o governo, aparelhado até as vísceras pelo PT nas gestões de Lula e Dilma, dizem que está “perseguindo” adversários, em vez de aplaudir a iniciativa. Se ele afirma que vai liberar saques no FGTS – que remunera o dinheiro dos trabalhadores por uma taxa menor que o rendimento da poupança e muitas vezes até que a inflação –, falam que a medida vai prejudicar o setor da construção, acostumado a receber dinheiro público com juros subsidiados, em vez de enaltecer a possibilidade de os cotistas terem acesso aos recursos depositados em seus nomes.

Quando Bolsonaro afirma que é difícil ser patrão no Brasil, não está falando nenhum absurdo

Se Bolsonaro diz que poderá extinguir centenas de conselhos criados por decreto presidencial durante as gestões petistas, cujos integrantes se alinham, em bom número, com a política socializante do partido e de seus aliados, a narrativa que predomina é a de que ele pretende acabar com a participação da sociedade civil nas decisões do governo.  A pergunta é: que sociedade civil é essa que está representada nestes conselhos? Outra coisa: será que o leque ideológico da sociedade está refletido na composição deles? A resposta para as duas perguntas, provavelmente, é não. Mas é claro que isso não tem muita importância na hora de repercutir a proposta. Até quando o governo anuncia que não vai mais bancar a viagem e a estadia de milhares de conselheiros para participar de reuniões periódicas em Brasília, predominam reclamações, em vez de elogios.

Quando Bolsonaro afirma que é difícil ser patrão no Brasil, não está falando nenhum absurdo, como se diz por aí. São tantas as amarras para o exercício do empreendedorismo e da atividade empresarial no País, como a pesada carga tributária, de 33% do PIB, apenas para ficar no exemplo mais nefasto, que sete em cada dez novas empresas fecham as portas até o segundo ano de vida, em prejuízo não apenas de seus donos, mas também de seus empregados.

Idem quando Bolsonaro diz que o excesso de diretos e a carência de deveres trabalham contra o emprego no País, porque o custo da mão de obra para o empreendedor é cerca de 100% maior que os salários recebidos pelo trabalhador, estimulando a informalidade no mercado de trabalho. Mas, apesar de todo empresário brasileiro sentir isso na pele, fala-se que Bolsonaro “só pensa nos ricos”, em vez de se enxergar o lado positivo do comentário do presidente, que está, enfim, reconhecendo o óbvio e se dispondo, aparentemente, a resolver o problema, mesmo remando contra a maré.

Não dá para negar que o Nordeste tornou-se um ‘cinturão vermelho’ que trabalha contra o governo

Nada, porém, parece mais emblemático neste sentido do que a reforma da Previdência. Aprovada em 1ª turno na Câmara, ela deverá proporcionar uma economia de cerca de R$ 950 bilhões em dez anos, segundo dados oficiais, e permitir que o País enfrente o déficit fiscal gigantesco deixado pelos governos petistas. Embora tenha sido proposta por Bolsonaro, com uma ambição bem maior do que o projeto do ex-presidente Michel Temer, os louros da reforma são atribuídos não a Bolsonaro, que não teria se empenhado o suficiente para aprová-la, nem ao ministro da Economia, Paulo Guedes, mas aos deputados que votaram a favor da medida e ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ainda que alguns pontos da proposta oficial tenham sido alterados no Legislativo, não parece fazer sentido dizer que Bolsonaro não tem crédito a receber pelo resultado alcançado. Mesmo que Maia tenha também a sua responsabilidade na aprovação da reforma.

O caso do acordo do Mercosul com a União Europeia não é muito diferente. Depois de vinte anos, o governo conseguiu finalmente fechar o acordo entre os dois blocos. Ele ainda precisa ser aprovado pelos parlamentos dos países envolvidos, inclusive o do Brasil, mas é difícil negar que foi uma tacada de mestre do governo, em especial da equipe econômica, mesmo levando em conta que o governo Temer já vinha aparando arestas para transformar o projeto em realidade. Mas, em vez de celebrar o acordo, questiona-se a oportunidade da negociação e dá-se guarida à choradeira de setores que trabalham contra a abertura econômica para manter suas reservas de mercado e privilégios, especialmente na área industrial.

Com as afirmações de Bolsonaro sobre os governadores do Nordeste aconteceu algo parecido. Ainda que se reconheça que ele errou o tom e se excedeu – mesmo considerando que os comentários foram feitos numa conversa ao pé do ouvido com o ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, e captados pelo microfone de uma emissora oficial sem o conhecimento de ambos – não dá para negar que a região tornou-se um “cinturão” vermelho que trabalha contra o governo, seja defendendo a manutenção de políticas praticadas nas administrações petistas e colocadas em xeque agora, como incentivos fiscais, subsídios, estímulos às empresas estatais e quetais, seja pela oposição ideológica pura e simples contra o presidente.

A lista de casos do gênero poderia se estender, incluindo o pacote do ministro da Justiça Sérgio Moro contra a impunidade e a corrupção, a MP da Liberdade Econômica, a transferência da Ancine do Rio para Brasília, o fim da multa de 40% sobre o saldo do FGTS nas demissões sem justa causa, entre outros. Mas, como foi possível observar nos exemplos acima, Bolsonaro e seu governo têm suas virtudes, ainda que o próprio presidente não se ajude e que seus adversários pretendam embaralhá-las com seus deslizes, suas limitações e seus defeitos.

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