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Vencemos todos, podem comemorar

Ana Paula Henkel

04 de fevereiro de 2019 | 21h21

Como todo torcedor dos New England Patriots, “Pats” para os íntimos, estou evidentemente eufórica com a vitória maiúscula e indiscutível do meu time no Super Bowl de ontem, um dos maiores eventos esportivos do planeta. Estou também feliz e orgulhosa com o reconhecimento, para alguns tardio, de que Thomas Edward Patrick Brady Jr., natural aqui da Califórnia e casado com a nossa Gisele Bündchen, é o maior jogador de futebol americano de todos os tempos. É muito, mas não é só isso.

O que se viu ontem no Mercedes-Benz Stadium, um colosso para mais de 70 mil expectadores construído há menos de dois anos por US$ 1,6 bilhão de dólares em Atlanta, na Geórgia, foi uma vitória do cidadão americano médio, do trabalhador que luta o ano inteiro como poucos e que busca no esporte uma catarse, aquela palavrinha grega que significa algo como um momento de descarga emocional e alegria para aliviar as tensões, traumas e pressões do dia a dia. A vitória, na verdade, foi dele.

Ontem foi o dia de John Smith, o “little guy” que dirige caminhão, empilha caixas no Walmart, apaga incêndios, protege crianças de bandidos na porta das escolas, pilota aviões, varre ruas, cumpre uma extenuante rotina dando aulas ou virando hambúrgueres em lanchonetes, que vende de porta em porta, dirige Uber, corta cabelos, conserta carros ou encanamentos, pode simplesmente colocar o boné do seu clube, tomar uma cerveja com a família e se divertir depois de anos de uma abjeta politização da sua maior festa pela esquerda mais radical e anti-americana.

Uma das características mais admiráveis do país declarado independente em 4 de julho de 1776, enfrentando uma guerra sangrenta com a maior potência mundial da época, é a sua “religião civil”, uma ideia de que existe uma Constituição e um conjunto de regras de civilidade, ordem e solidariedade cristã que transcendem o varejo da política partidária e das agendas dos lobistas, corporações, sindicatos e grupos de interesse. É o que faz com que todos entendam e se emocionem quando as irmãs Chloe e Halle Bailey cantaram “America The Beautiful”.

Para quem não se lembra, a polêmica começou em 2016 quando Colin Kaepernick, quarterback dos 49ers de São Francisco, começou a se ajoelhar em franco desrespeito (ou protesto, você escolhe) à execução do hino americano, uma tradição dos eventos esportivos por aqui. Os atos protagonizados por Kaepernick geraram algumas adesões de parte da elite e das celebridades americanas, além de uma onda de protestos dos cidadãos comuns e até do presidente Donald Trump que tiveram um impacto profundo na audiência dos jogos e na relações dos torcedores com o esporte, mesmo os mais apaixonados por futebol americano. O anti-americanismo militante de alguns não foi bem aceito pela maioria que, a despeito das posições político-partidárias, viram nos protestos um desrespeito inaceitável, desnecessariamente divisivo e uma intromissão absurda de uma agenda militante radical e impopular na maior festa esportiva do país.

Os protestos funcionaram e o que se viu no Super Bowl LIII, a despeito de uma ou outra manifestação tímida e até uma rápida ajoelhada de Adam Levine, vocalista do Maroon 5 que deu um show para lá de burocrático no intervalo, foi uma volta do país às suas melhores tradições de união em torno da história, dos símbolos e do orgulho nacional. Uma vitória ainda mais arrebatadora do que os 13 x 3 que o time do New England Patriots impôs ao Los Angeles Rams. Ontem vimos uma vitória da “primeira natureza” de Edmund Burke, como o respeito à ancestralidade e valores humanos, imposta a valores partidários e secundários.

Moro na cidade dos derrotados, e apesar de ter comemorado ontem com todos os torcedores dos Pats em Boston, meus vizinhos da Cidade dos Anjos, civilizados como todos devem ser, entenderam e comemoraram comigo mais uma festa que só este país sabe promover. País que tanto deve ao hino, à bandeira e aos homens e mulheres de uniforme que deram e dão suas vidas para que até militantes radicais, milionários e mimados como Colin Kaepernick, possam ganhar milhões em contratos publicitários apenas por desrespeitar o país. A liberdade, em sua verdadeira essência, existe até para os ingratos.