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Sobre meninas e lobas

Ana Paula Henkel

23 Maio 2018 | 18h45

Uma daquelas jóias perdidas no Netflix é a série da BBC “She-Wolves: England’s Early Queens” (2012), criada e estrelada pela historiada PhD de Cambridge e escritora Helen Castor. É uma chance de viajar com a autora pela fascinante trajetória de algumas das mulheres mais extraordinárias da monarquia britânica, daquelas que realmente desafiaram o poder, as convenções e fizeram história. Feminismo raiz e não de butique.

Logo no primeiro episódio somos apresentados a mais antiga das “lobas”, chamadas assim até por Shakespeare: Matilde de Flandres (1031-1083), primeira mulher a exercer o cargo de rainha britânica com autoridade e não apenas como esposa decorativa do rei. A série ainda relembra Leonor de Aquitânia (1122-1204), Isabel da França (1295-1358), Margarida de Anjou (1430-1482), Joana Grey (1536-1554), Maria I (1516-1558) e Elizabeth I (1533-1603). Uma história de mil anos com mulheres que, para muitos deslumbrados e desavisados de hoje, aparentemente nunca existiram. Como ensinou Orwell, “quem controla o passado, controla o futuro”.

A monarquia britânica não inventou a mulher com poder, mas deu a elas, de Matilde de Flandres até Elizabeth II, não apenas a coroa e os rapapés mas também a possibilidade de governar de verdade. Acredita-se que a Rainha de Sabá tenha governado há 3.000 anos uma região tão vasta que incluía a Etiópia, o Egito e parte da península arábica. Quando ouviu falar da sabedoria do Rei Salomão, viajou até seu encontro e o que dizem sobre o que aconteceu entre eles deixaria as atuais feministas de sofá de cabelo em pé.

Outra rainha famosa da região foi, evidentemente, Cleópatra (69 a.C.-30 a.C.), a egípcia que governou um dos maiores reinos da antiguidade depois de vencer o irmão numa guerra e que com muita habilidade conseguiu conter os avanços do Império Romano, o mais poderoso da época. Lia em doze línguas e gostava de conversar com interlocutores no idioma do convidado, era uma exímia diplomata, foi amante de Júlio César e depois de Marco Antonio, com quem se casou. De novo, uma mulher que exerceu o poder sem meios tons e com uma mente estratégica reconhecida e respeitada até hoje. Se estivesse entre nós provavelmente não teria tempo, nem paciência, para vestidos pretos e hashtags de araque.

Mesmo que você não queira buscar exemplos tão distantes no tempo e não citar Catarina, a Grande, a Rainha Vitória, ou nomes mais recentes como Golda Meir, Grace Kelly, Eva Peron, Indira Gandhi ou a fenomenal Margareth Thatcher, basta Elizabeth II, rainha do Reino Unido há 66 anos, o mais longo reinado de todos, linda e poderosa aos 92 anos, para entender como se fez tanto barulho por quase nada em relação ao casamento do seu neto, o menino-problema Harry, que ocupa um longínquo sexto lugar na linha de sucessão do trono, e a americana Meghan Markle. Custo a acreditar que a moça representará mais do que uma nota de pé de página na história britânica, mas quem avisa os lacradores e problematizadores da imprensa?

Depois de um casamento que não poderia ter sido mais cristão e tradicional, os engajadinhos das redações, entre uma forçada de barra cafona e outra e num impressionante contorcionismo ideológico, tentaram emplacar a tese de que a “feminista” de Hollywood teria sido um exemplo para a causa ao virar princesa, por ter exercido seu direito de querer virar princesa. Mas não é isso que nós, rotuladas de ultraconservadoras e caretas, recatadas e do lar, defendemos todo dia? O direito de ser o que você bem quiser! “Ah, mas Meghan é diferente! Ela é “feminista” e votou na Hillary!”. Ah, ok.

Hillary Clinton, a ex-primeira-dama americana, que permanece casada com um predador sexual cujos rastros ajudou a esconder, é curiosamente vista também como um exemplo para algumas mulheres. Depois de culpar todo mundo, exceto ela mesma, pela última derrota nas eleições presidenciais de 2016, Hillary disse, com o apoio de Michelle Obama, que as mulheres que não votaram nela foram, na verdade, constrangidas por maridos, filhos e companheiros e “forçadas” a votar no oponente. Na curiosa visão de liberdade de Hillary, a única maneira de nós mulheres sermos livres é votando nela, qualquer outra opção, ou escolha, é tratada com desprezo, arrogância e até xingamentos, como “deploráveis”. Que deselegante. Make Hillary great again.

Hillary e Meghan passarão para a posteridade como ícones para as mulheres? Veremos. O tíquete para a relevância nos livros de história não se compra nos guichês do Partido Democrata, o que inclui seus despachantes na imprensa. Já as lobas de Helen Castor estão a salvo de modismos passageiros e fúteis e de ideologias revolucionárias de butique, seus nomes serão lembrados muito tempo depois que essa geração constrangedora de afetados e engajados tenha desaparecido. God save the real queens.