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Pisando no freio da revolução

Ana Paula Henkel

01 Junho 2018 | 16h27

Depois do Brasil ter parado, literalmente, e enfrentado dias venezuelanos devido à greve dos caminhoneiros, o país começa a voltar ao normal nas estradas e rodovias, mas não nas redes sociais. As vias virtuais continuam tumultuadas, motoristas ainda exaltados e muitos dirigindo embriagados. Se beber, não dirija nem use as redes sociais, vai dar PT.

De todos os cantos das redes (cada dia menos) sociais, o que mais me espanta é aquele que ainda tenta relacionar as estradas bloqueadas da histórica greve dos caminhoneiros, as prateleiras vazias dos mercados, a intimidação muitas vezes violenta de quem quer trabalhar (um caminhoneiro infelizmente foi agredido e faleceu), as escolas sem aulas, os hospitais sem remédios, as propriedades rurais ilhadas, com a Revolução Americana. Posso não entender de muita coisa na vida, mas quero, se me permitem, esclarecer um ponto ou outro sobre o que aconteceu aqui nas terras do Tio Sam no final do séc. XVIII e evitar revisionismos históricos que beiram à insanidade.

Num sermão proferido em 1750 em Boston, o pastor graduado em Harvard, Jonathan Mayhew disse: “nenhuma taxação sem representação” (“no taxation without representation”), frase que logo se tornou um bordão na costa americana banhada pelo Atlântico. Anos mais tarde, também em Boston, a frase ecoava como fonte de inspiração para os colonos da coroa britânica através de James Otis, um político local, que a adaptou para “taxação sem representação é tirania”. Os colonos americanos acreditavam que, como cidadãos britânicos, não estavam suficientemente representados no parlamento londrino e que, portanto, este não teria legitimidade para governar a colônia. A coroa britânica estava longe de ser um império totalitário e ditatorial para os parâmetros da época, mas com os elevados gastos das guerras travadas contra a França entre 1754 e 1763 houve a necessidade de fazer caixa e a colônia era vista como um enorme caixa eletrônico para saques.

Muitas decisões unilaterais foram tomadas pela Inglaterra, chegando às “Leis Intoleráveis” de 1774 que tornaram a Guerra de Independência inevitável. O que diferencia a Revolução Americana de praticamente todas as outras, especialmente da Revolução Francesa ocorrida poucos anos depois, é que em vez de rios de sangue nas ruas, cabeças guilhotinadas e todo tipo de barbárie bestial contra tudo e todos, os Pais Fundadores da América entenderam que estavam sendo tratados injustamente como súditos de segunda classe do Rei e que precisavam de um plano bem executado para se libertarem das injustas imposições da coroa britânica.

O que seu viu, então, foi uma revolução baseada em ideias, conduzida por gigantes intelectuais e morais da história, que se rebelaram contra uma “quebra de contrato” da coroa britânica e que buscou, com inigualável sucesso, recriar na ex-colônia uma sociedade nos moldes da pátria-mãe mas longe da tirania de um monarca específico. A América não queria “enforcar o último rei nas tripas do último padre” como os jacobinos franceses, muito pelo contrário, como se provou na Declaração da Independência, no Bill of Rights e na Constituição promulgada pouco depois.

John Adams, George Washington, Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, entre outros seres realmente iluminados e únicos, queriam um país com governo controlado, cidadãos livres para buscar a própria felicidade sem a intermediação, controle, ingerência ou supervisão da burocracia estatal. O resultado foi a sociedade mais próspera e bem sucedida da história da humanidade, enquanto os jacobinos criaram O Terror, abriram o caminho para a ascensão de Napoleão e de uma perda de protagonismo da França com consequências até os dias de hoje.

As conquistas da Revolução Americana foram únicas porque seus ideais, métodos e valores eram igualmente únicos, daqueles que nós, apenas quatro anos antes do bicentenário da nossa própria independência, poderíamos estudar e relembrar um pouco mais antes de citar como exemplo de insubordinação ou desobediência civil. Comparar a Revolução Americana com a Revolução Francesa ou qualquer outra revolução promovida por líderes carismáticos contra “tudo isso que está aí” é como comparar o trabalho de um lenhador sério com “O Massacre da Serra Elétrica”.

A natureza humana traz dentro de todos nós um Robespierre e um John Adams, cabe a cada um decidir qual voz interna falará mais alto. Sou filha de pais professores, classe sufocada e desprezada em quase todos os governos, entendo perfeitamente e me solidarizo com o drama de toda categoria profissional brasileira que se encontra presa numa cadeia de regulações insanas, impostos extorsivos e reféns dos burocratas e políticos insaciáveis que devoram quase metade de tudo que o brasileiro produz, sem devolver praticamente nada à sociedade. A sensação é de verdadeira “taxação sem representação” e isso tem que mudar, e pra ontem, ou o país do futuro será sempre o lupanário do atraso ideológico, político e econômico. No entanto, como meu saudoso pai dizia, e como em tudo na vida é importante que se diga, os fins nem sempre justificam os meios.

Se mudar o país utilizando as instituições democráticas é lento e com resultados incertos, quebras institucionais levam sempre a mais problemas do que aqueles que diziam querer resolver. O Brasil já está na sua sétima Constituição e não é exatamente comum na nossa história que um presidente eleito, que tenha recebido o governo de outro eleito, passe a faixa para um sucessor também eleito. Sem continuidade e estabilidade, sem o império das leis, como ingleses e americanos nos mostram há séculos, não há escapatória. Nas estradas e na democracia, não existem atalhos.

A falta de liderança e autoridade de um governo fraco, que hoje entregou a cabeça de Pedro Parente e as joias da coroa num fim melancólico de mandato, mesmo que com alguns bons resultados na economia, é uma carniça que sempre atrai os abutres, nas estradas da política e nas vias das redes sociais, mas cabe a cada um de nós, especialmente os que se autointitulam conservadores, que as paixões revolucionárias do momento possam ser refreadas em função do senso comum e do bem estar de todos os cidadãos que sofreram e ainda estão sofrendo com o caos provocado pelas paralisações. Não é possível socializar prejuízos em nome de pautas privadas e ainda se dizer liberal, pelo menos no sentido clássico da palavra.

Lênin, Fidel, Che, Pol Pot, Mao e até Robespierre podem inspirar os sonhos de intelectuais e até de políticos oportunistas, mas são os prudentes, sábios, legalistas e morais da Revolução Americana que devem servir de exemplo para qualquer democrata. O preço da gasolina está caro, mas o custo de uma revolução baseada no caos é ainda maior, como estamos cansados, mas muito cansados de saber.