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Para sempre, Bebeto

Ana Paula Henkel

14 Março 2018 | 21h14

Tente imaginar noventa e cinco mil pagantes no Maracanã, numa noite chuvosa de terça-feira, para ver uma partida amistosa de vôlei. Um momento mágico, registrado no livro Guinness de recordes como o maior público para uma partida de um esporte amador, que reuniu um grupo de jovens idealistas que sonhava mudar a história do vôlei brasileiro, a temida seleção soviética (campeã olímpica e mundial) e o templo máximo de futebol. No placar, 3 a 1 para o Brasil. No banco, Bebeto de Freitas.

Depois deste jogo histórico, o mundo descobria que o vôlei brasileiro finalmente chegava para ficar. E vencer. A seleção brasileira masculina vinha de um inesquecível Mundial no ano anterior, quando Bernard, Bernardinho, William, Renan, Montanaro, entre outros, conquistava uma inédita segunda colocação, prévia da prata dos Jogos Olímpicos de 1984. Em todos estes momentos que marcam o início da transformação do vôlei brasileiro num orgulho nacional, vencedor de tantos títulos até hoje, estava Bebeto de Freitas e sua “Geração de Prata”, o pilar para outros ouros, pratas e bronzes olímpicos para nosso vôlei.

Quando se aposentou como jogador, Bebeto foi para os EUA estudar in loco como se prepara uma seleção campeã. Nos EUA, ajudou a difundir o vôlei de praia e a liga profissional de vôlei de quadra. Ele não aceitava o papel de coadjuvante do vôlei do Brasil e sua certeza de que nosso país produzia excelentes jogadores, tão bons quanto os americanos, e como ele mesmo foi, motivou a busca pelo melhor padrão técnico, tático e pelo entendimento de como gerir um esporte além das quadras. O resultado está na nossa sala de troféus e nas inesquecíveis narrações de Luciano do Valle.

Bebeto plantou a semente da mudança com excelência e fez com que a própria Confederação Brasileira de Vôlei seguisse o curso que ele queria dar ao nosso vôlei. O percursor do atual perfil do esporte que mais trouxe medalhas olímpicas para o Brasil se foi e a parte do país que aplaude trabalho duro, inteligência, coragem e mérito está de luto. A tristeza de ver Bebeto partir tão cedo só é menor que a alegria de ter convivido e aprendido com ele.

Sem qualquer exagero, Bebeto é o “pai” do atual vôlei brasileiro. Jogador brilhante e vencedor, um dos maiores levantadores da história, transformou tudo que o Brasil entendia por apenas treinar em vencer. Todos que tiveram a máxima honra de subir num pódio pelo Brasil são filhos e herdeiros de Paulo Roberto de Freitas. Pense em todos os grandes nomes do vôlei brasileiro e eu garanto a você que não há um único na lista que não deva parte do sucesso a ele.

Bebeto foi campeão por onde passou. Nos EUA, no Brasil e na Itália era conhecido pelo “toque de Midas” no vôlei.  Mas o brilho, o carisma e a capacidade extraordinária de planejar, gerenciar e executar uma meta com precisão tiraram Bebeto do nosso universo das quadras e fez com que alçasse vôos para outras esferas, outros campos. Bebeto era grande demais para o nosso sentimento de não querer dividi-lo.

Enquanto Bebeto foi presidente do Botafogo, nos encontramos várias vezes na orla do Leblon, onde treinávamos para a Olimpíada de 2004, em Atenas. Ele passava caminhando, parava, fazia algum comentário sobre algum jogo que tinha visto na TV e nos dizia: “Se todo mundo estiver treinando cinco horas por dia, vocês têm que treinar seis”. Bebeto é o Brasil que dá certo, que não tem medo de desafiar o consenso preguiçoso com honestidade certeira e zelosa.

Meu coração cruzeirense, confesso, ficava dividido ao ver Bebeto como dirigente do Atlético Mineiro. Como torcer contra meu ídolo, exemplo e amigo? É daqueles desafios que a gente entrega para Deus. Ou para aquele Bebeto, técnico da seleção italiana que eliminou o Brasil na semifinal do Mundial em 98 e não comemorou. Era uma conquista sua, do técnico campeão e reverenciado também na Itália, mas que contra a seleção de verde e amarelo não conseguiu festejar. Bebeto era igualmente um gigante moral e um patriota.

Meu primeiro contato com Bebeto foi em 1984. Ele não sabia, lógico, mas pela TV, uma menina de doze anos no interior de Minas, que já sonhava em estar num pódio olímpico, assistia hipnotizada àquela inédita medalha olímpica do vôlei masculino em Los Angeles. Exatos doze anos mais tarde, na Olimpíada de Atlanta, encontrei com nosso mestre logo depois da amarga derrota para Cuba na semifinal. Foi justamente dele, o ídolo da minha TV em 1984, que ouvi que nossa geração era muito especial para desperdiçar a oportunidade de entrar para a história do vôlei brasileiro. Como um atencioso mentor, segurou no meu braço e disse bravo, porém com zelo: “levanta a cabeça, menina, temos uma história inédita pra escrever amanhã!”.

Todos que conviveram com ele têm alguma história pessoal e que levará para sempre. Na classificação para os Jogos Olímpicos de 2000, tive que abandonar a corrida porque descobri que estava grávida do meu único filho, hoje com 17 anos. Quando encontrei Bebeto, meses depois dos Jogos, ele me disse: “infelizmente não ganhamos nenhum ouro em Sidney, mas você que ficou no Brasil conquistou a maior e mais linda medalha de todas, seu filho! Nada mais no mundo importa agora”. O técnico vencedor era também sensível, humano e capaz de frases como essa.

Bebeto também sempre lutou pelos atletas, para que tivéssemos uma voz mais ativa e relevante nas decisões esportivas junto às federações e confederações. Era aguerrido e batia, sem medo, de frente com a corrupção no esporte. Nossa influência no vôlei mundial hoje e nosso sucesso há décadas foram frutos da revolução de um de homem de visão, perseverança, lucidez, mas também de muita coragem.

Para muitos, a tristeza é pela morte do excelente ex-presidente do Botafogo, time de coração de Bebeto. Para outros, o adeus é dado ao competente dirigente esportivo do Atlético Mineiro. Para nós, filhos de gerações e gerações do vôlei nacional, a despedida é do mentor, parceiro e “pai” de tudo isso que vivemos hoje.

Obrigada, Bebeto. Você estará sempre comigo para onde eu for, assim como todo o vôlei brasileiro. Rezo que você tenha paz nesta nova jornada, agora sim, nas estrelas, enquanto lutamos aqui todos os dias para honrar seu exemplo, seu trabalho, seu talento e sua força. Seu legado é a nossa maior conquista e você é puro ouro pra nós.