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O Mordomo da Casa da Moeda

Ana Paula Henkel

28 Agosto 2017 | 13h53

Daqui da Califórnia, acreditem, posso ouvir velhos conhecidos do Leblon gritando “fora Temer!”. Ser vice da Dilma duas vezes a gente aguenta, mas privatizar e trair os companheiros deste jeito? A história se repetiu como farsa e a culpa, mais uma vez, é do mordomo.

Na minha querida Dias Ferreira, já não se toma mais um Château Haut Castenet em paz. Como harmonizar uma paleta de cordeiro com um Bordeaux sem pensar no povo que agora não poderá mais chamar a Eletrobras de sua? Aqui por perto, no Napa Valley, estas terríveis notícias ainda não chegaram e as uvas seguem fermentando, alienadas que são, do sofrimento dos nossos pobres. Procure saber.

O Brasil tem setores estratégicos que não deveriam ser alvo da sanha dos privatistas, essa gente sem coração que não deixa empresas do povo serem dirigidas de forma republicana pelos técnicos e especialistas indicados por Eduardo Cunha, Renan Calheiros e José Dirceu. Estamos regredindo, só não vê quem não está vendo TV.

Abriram as portas do inferno. Destravaram o calabouço e soltaram o monstro da privatização que agora parte para devorar nosso progresso progressista, o paraíso na Terra que nos foi prometido em 2003 e que só não chegou por culpa da Lava Jato, dizem. É muita falta de companheirismo com os companheiros.

Os vendidos vão vender o país, alertam as vozes mais lúcidas e preocupadas com o povo no Baixo Gávea e na Vila Madalena. Alguns chegaram a abraçar numa noite dessas, emocionados, os garçons que traziam seus petiscos, prometendo criar uma hashtag para eles não se sentirem sós e abandonados pelas empresas estatais. Sem elas, como financiar candidaturas populares que defenderão o povo nas próximas eleições?

Durante o governo da primeira mulher presidenta, um marco para todas nós que sonhamos com o empoderamento das companheiras, Petrobrás, Eletrobrás e Banco do Brasil acumularam perda de R$ 273,5 bilhões no valor de mercado. No coração valente da economista, gerentona e mãe do PAC, sempre cabe mais um contrato. A ex-ministra das Minas e Energia soube como ninguém dar uma força para o partido.

O Brasil tem dívidas, mas quem não tem? São 60 milhões de brasileiros endividados, praticamente metade da população adulta, e meus amigos do Leblon não entendem por que a União não pode ter suas penduras também. Um deles ainda me avisa que economistas como Paul Krugman, o Delfim Netto de Barack Obama, não cansam de explicar como ter dívidas é bom. Seu líder seguiu o conselho, transformando uma dívida pública de US$ 9 trilhões em US$ 20 trilhões em oito anos. Cada país tem o presidente popular e progressista que merece.

Para ficar num exemplo próximo, já que Pasadena é apenas meia hora de carro daqui de Los Angeles, lembremos dos idos de 2006, ano da reeleição do companheiro Lula. Ele venceu Geraldo Alckmin, ultraconservador de extrema-direita neoliberal coxinha que na campanha vestiu um macacão com logotipos de estatais para deixar claro que era diferente de Lula. O governador teve menos votos no segundo turno do que no primeiro, um feito admirável do partido que continua com os melhores marqueteiros do mundo até hoje.

Os companheiros da Petrobras, com Dilma Rousseff na presidência do conselho, compraram naquele ano metade de uma refinaria perto de Houston, Texas, e seu petróleo que estava em Pasadena, por US$ 360 milhões (valor da época). Um ano antes, a belga Astra Oil tinha pago US$ 42,5 milhões pela refinaria inteira. Esses belgas têm muito o que aprender com nossos técnicos e especialistas que podem trabalhar sem a pressão capitalista de dar lucro, podendo fazer compras como essa em nome do povo. Um outro mundo é possível e dá muito dinheiro.

Tudo parecia perfeito para nossos progressistas até o golpe. O sinistro mordomo que tanto assombra intelectuais, artistas, jornalistas e militantes preocupados como o povo quer privatizar até a Casa da Moeda, aquela das medalhas da Rio2016 que enferrujam (137 das 2.200 confeccionadas já foram devolvidas para reparos). Os técnicos da Casa informam que houve mau uso. Esses atletas poderiam ser mais progressistas. É Casa da Moeda e não da medalha, gente!

Privatização, no Brasil, é “privataria”, dizem os companheiros da imprensa engajada. Palavrão. Se americanos conseguiram banir a “N word”, podemos fazer o mesmo com esta que tanto ofende os mais sensíveis. Podemos falar “palavra P” e ninguém ficará nervoso. Ou vestirá macacão com logotipo de estatais. Ainda sobra “Petrolão”, palavrão típico de discursos de ódio que um dia será banido do Facebook e do Google. Mais amor, por favor.

Temos orgulhosamente 151 estatais, 43 criadas apenas na era petista, muitas frequentando as páginas policiais. Para muitos progressistas, Sérgio Moro é um agente do capitalismo internacional e da CIA que busca sangrar estes colossos de produtividade para que os ianques possam comprar “a preço de banana”. Não podemos imaginar um uso mais adequado para a telefonia privatizada do que espalhar estas notícias para alertar o povo.

O Brasil sente falta do tempo em que Eduardo Cunha era presidente da Telerj. Como moradora do Rio por muitos anos, lembro bem como a ex-estatal evitou o quanto pode que os malvados capitalistas tomassem conta deste mercado tão estratégico para a população. José Dirceu, um dos mais ativos na intermediação das relações dos governos petistas com empresas de telecom, nunca escondeu que sonhava com a volta triunfante da Telebras estatal. Ele tinha seus motivos.

A Eletrobras, bola da vez dos privatistas, tem em caixa R$ 8,9 bilhões e uma dívida de R$ 47,3 bilhões. A intervenção do governo Dilma no setor elétrico gerou um prejuízo, segundo reportagens recentes, de mais de R$ 60 bilhões. Se voltarem ao poder no Brasil um dia, com certeza poderão se inspirar no companheiro Nicolás Maduro para impedir que notícias como essa sejam usadas para confundir o povo.

Em terras ianques, durante os anos 80, Ronald Reagan privatizou, cortou impostos e fez todas as malvadezas que se espera de um neoliberal. O caubói de filme B recebeu o país do companheiro progressista Jimmy Carter com inflação de dois dígitos, desemprego em alta, crescimento em baixa, e devolveu com o melhor resultado econômico em décadas. Reagan chegou a dizer, no discurso de posse, que “o governo não é a solução, ele é o problema”. Pura maldade.

Petistas gostam tanto de estatais quanto alguns governos militares da nossa história recente. Hugo Chávez, outro militar progressista, também. Nossos companheiros sabem melhor do que ninguém como estatais são estratégicas. Temer é um estraga-prazer.