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O jogo só acaba quando termina

Ana Paula Henkel

08 Outubro 2018 | 21h46

 Passei mais de duas décadas jogando voleibol profissionalmente, defendi o Brasil em quatro Olimpíadas, portanto tenho certeza de que vocês, meus queridos leitores, vão me desculpar quando trago episódios e metáforas esportivas para o campo da política. Especialmente quando elas gritam na minha memória. 

Depois de duas Olimpíadas na quadra (1992 e 1996), Atenas foi minha primeira Olimpíada na praia. Eu não estava na seleção de quadra naquele 26 de agosto de 2004, mas por vezes, acredite, não estar é ainda pior. Minhas unhas que o digam. Não há até hoje quem entenda, aceite ou esqueça aquela disputa entre Brasil x Rússia quando deixamos escapar a semifinal olímpica por apenas uma bola. Uma única bola que está entalada na garganta de todas nós que amamos e demos tudo de nós pela seleção brasileira. 

A Olimpíada de Atenas era histórica por motivos óbvios, mas para o vôlei feminino brasileiro havia uma motivação especial: tínhamos, pela primeira vez, tudo para conquistar o ouro. Um time absolutamente vencedor, um técnico campeão olímpico e invejado pelo mundo, todos unidos num único objetivo e nada parecia poder nos impedir de ouvir o hino nacional no pódio. Só faltou combinar com as russas. 

Já no primeiro jogo, um 3×0 nas japonesas. No segundo, 3×0 nas quenianas. Depois de um duro 3×2 contra as italianas, 3×0 nas donas da casa, as gregas. Mais um 3×0 contra as sul-coreanas fecharia a primeira fase com cinco vitórias em cinco jogos, perdendo apenas dois sets em quinze disputados. Nas quartas de final, uma vitória emocionante contra as poderosas americanas e estávamos a dois jogos da final e do ouro. Em quatro dias, era passar pelas russas e chegar a tão sonhada e merecida final.

Naquele fatídico 26 de agosto de 2004, nosso time dos sonhos abriu 2×1 contra o time de Ekaterina Gamova, 24 anos na época, um fenômeno de 2,02m que se sagrou a grande jogadora daquela Olimpíada. Não por acaso, Gamova chegou a receber o maior salário da história para uma atleta do vôlei feminino, mesmo nunca tendo conquistado um ouro olímpico na carreira. Estávamos vencendo o quarto set por 24 a 19 e estávamos literalmente a uma bola da final. Um ponto. Uma virada. Um erro de saque do adversário. Uma mão na rede das russas. Uma bola pra fora. Tão perto! Não me peça para explicar o que aconteceu, mas as russas, lideradas por Gamova, não apenas viraram o set que definiria nossa vitória, mas levaram o jogo (para desespero de quem assistia) para um inesquecível tie-break onde fomos derrotados por 16 a 14 e demos adeus a uma final olímpica inédita para o vôlei feminino e uma medalha de prata garatida.

O trauma daquele jogo de 2004 volta com força quando vejo o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil e um certo clima de “já ganhou” de alguns eleitores e apoiadores de Jair Bolsonaro. Parece que ouço eles dizendo que estamos “por uma bola” para vencer os vermelhos e o PT. Tão perto! Como poderíamos perder? Você não viu os números, Ana? Eu respondo com a simplicidade do que de mais precioso o esporte me ensinou para a vida: perdendo. O jogo só acaba quando termina. 

Se eu puder dar uma dica para os assessores e eleitores de Bolsonaro na sua luta épica pelo Brasil contra a inimaginável sede do PT ao poder e a criação de uma “detentocracia” em que um presidiário comandaria o país de uma cela, coloquem uma foto em tamanho real de Ekaterina Gamova na sala de trabalho ou de casa (tenho certeza de que os meninos não se incomodarão de ver diariamente os estonteantes olhos verdes dela). Toda vez que vocês acharam que estão “por uma bola” nesta campanha, gritem “Gamova” três vezes e voltem ao trabalho. 

Não é hora de salto alto, de comemorações antecipadas, de entrar em campo com “pinta de campeão”. As estratégias políticas e eleitorais não são a minha praia (sem trocadilhos), mas quem passou a vida no esporte não leva pra qualquer campo outra lição além dessa: jogo se vence jogando, na quadra, com a bola no chão do adversário. Sei que a vantagem nas urnas foi expressiva, assim como lembro daquele expressivo 24 a 19 no quarto set, mas sempre poderá haver uma Gamova de camisa vermelha entre o Brasil e a vitória final. Treino é treino, jogo é jogo. 

Estive na torcida pelo Brasil naquele jogo e em todos os outros, na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, assim como estou hoje pelos brasileiros de verde e amarelo que lutam por um país mais justo, livre e próspero para todos. Eu não aceito ver meu país ser governado de dentro de uma cela por um presidiário. Meu grito de campeão e desejo de ver o PT ser trancado pra sempre num passado nefasto está preso na garganta, esperando 28 de outubro. Até lá, meninos e meninas do Brasil, muito trabalho, foco, humildade e nada de festa antecipada. Assim como em um ciclo olímpico, teremos pelo menos quatro anos para trabalhar, e comemorar, depois.