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O Brasil deu defeito, mas finalmente chegou o manual

Ana Paula Henkel

04 Setembro 2018 | 14h40

Para tentar entender a sucessão presidencial mais enrolada da história recente é preciso, para início de conversa, admitir o seguinte: o governo do PT foi cassado, mas sobreviveu como assombração.

Depois do impeachment que lavou a alma dos brasileiros assaltados, se iniciou um dos períodos mais conturbados da história recente – dominado por conspirações e pistas falsas. Não sei se você notou, mas as digitais do PT estão impressas em todas essas escaramuças, com a finalidade óbvia: sabotar a reconstrução do país e tentar retomar o poder.

A tal assombração conseguiu a proeza, após dois anos de entra e sai de petistas na cadeia, de trazer o chefe do bando – condenado e trancafiado – para o centro do debate eleitoral. Contando ninguém acredita.

Quando a gente acha que Guilherme Fiuza não pode se superar, ele dobra a meta. O primeiro e único dilmólogo do mundo, aquele que dissecou como ninguém o governo da mãe do PAC e madrasta do Brasil, volta às livrarias com a bússola para os que estão perdidos nestes dois anos pós-impeachment. Ou seja, para todos nós. O Manual do Covarde – Do palácio à cadeia sem tirar a máscara, que acaba de ser lançado pela editora Record, é pra morrer de rir pra não morrer de raiva.

É preciso coragem para escrever o “Manual do Covarde”. Nada a temer. Fiuza, inspirado como nunca e genial como sempre, explica a mágica petista de caminhar “do palácio à cadeia sem tirar a máscara” que só os políticos engajados do Brasil seriam capazes de produzir. Para dar algum sentido ao país da presidente cassada que concorre ao senado, ao ex-presidente preso que faz campanha para voltar ao Planalto, só a mente de quem já nos deu “Meu Nome Não é Johnny”, “3000 Dias no Bunker” e “Não é a Mamãe”, entre outras pérolas da literatura nacional. Fiuza responde molecagem política com molecagem literária. Deliciosa e profunda, diga-se de passagem.

O novo livro do melhor cronista político do país não fala apenas do atual morador de uma cela curitibana ou de sua sucessora, mas de personagens igualmente infames como Rodrigo Janot (ou “Enganot” para o autor), os irmãos Batista (os “Free-Boys”), alguns ministros do STF e muito mais. Para quem acompanha o noticiário diariamente, ver o conjunto da obra destas figuras é ao mesmo tempo surpreendente, revoltante e hipnotizador. Aposto que você, ao terminar a primeira página, vai ter a certeza de que a próxima parada é apenas na última.

Você tem todo direito de desconfiar do meu entusiasmo, sou mesmo amiga, fã e cheerleader do autor. Não sou e nunca serei “isenta” quando o assunto é Fiuza, mas acredite que, a despeito de todo amor, amizade, admiração e carinho que sinto por ele, “Manual do Covarde” é tudo que promete e muito mais. É o Brasil traduzido, desenhado e explicado pelo seu observador mais crítico, destemido, lúcido e bem humorado. Uma versão em inglês resolveria metade dos meus problemas na América quando o assunto é explicar o (inexplicável) Brasil.

Fiuza não paga pedágio ideológico, não faz concessões ao politicamente correto, é a dura realidade brasileira vestida com a saia justa dos fatos e as pérolas de um texto ao mesmo tempo divertido, agudo, preciso e original como tudo que ele faz. Não há um único analista que tenha escrutinado, para ficarmos num exemplo real e gritante, a “Operação Janoesley” com uma insistência quase fanática dos que não brincam com coisa séria, mesmo que entre uma boutade deliciosa ou outra. O golpe real que quase salvou os réus do golpe de faz-de-conta nunca foi ou será tão bem resumido quanto no “Manual do Covarde”.

Na orelha do livro, outro craque, o incomparável Augusto Nunes, define o enredo como “a crônica política do esfacelamento de Lula, o mito – passo a passo, com toda a teia da covardia politicamente correta que vive pendurada nele”. O próprio Fiuza complementa: “a grande covardia do mundo atual é a simulação de altruísmo para obtenção de ganhos pessoais e paroquiais – ou seja, um paradoxo. Você pode hoje tranquilamente conquistar espaço, voto e grana só com slogans politicamente corretos, sendo a pessoa mais egoísta do mundo. Ninguém nota!” Para o autor, “A demagogia coitada é o investimento mais seguro para o picareta moderno.” Viva!

O mais famoso presidiário do país, finalmente declarado inelegível  pela justiça eleitoral (outra jabuticaba que nem tento explicar em terras ianques), já disse que lê quase um livro por dia na cela. Se puder dar uma dica, que alguém presenteie Lula com “Manual do Covarde”, o melhor registro já feito das peripécias recentes do seu grupo político e dele mesmo. O único problema é que já vem com spoiler, inclusive para o condenado em questão: para felicidade geral da nação, ele termina preso no final.