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MP 841, uma bola fora

Ana Paula Henkel

21 Junho 2018 | 20h30

Todos os meus instintos diziam: não se meta nesse assunto, é bola dividida, mas não tem jeito. Por mais problemas que possa me causar, não posso me ausentar de um debate tão importante envolvendo política e esporte. Estou falando, claro, da famigerada MP 841 que tira recursos do esporte e da cultura e redireciona para a segurança pública.

Claro que quando o assunto é segurança pública, um dos temas mais delicados atualmente, é mais seguro simplesmente dizer que qualquer investimento na área é um alento. Por outro lado, como ex-atleta, eu poderia optar por jogar para a arquibancada e fazer uma defesa genérica do esporte e do patrocínio estatal, até porque defendi a seleção brasileira de vôlei que é patrocinada pelo Banco do Brasil. Seria, então, muito mais seguro apenas sinalizar que devemos lutar pelo esporte, receber tapinhas nas costas e vida que segue, mas essa não seria eu. Há muito mais em jogo do que um naco de dinheiro, que nunca temos certeza se chega ao seu devido destino, e é preciso aproveitar este momento para discutir o próprio modelo brasileiro de fomento do esporte que há décadas não sai do departamento médico.

Moro já há alguns anos num país que sequer possui um Ministério do Esporte ou a mentalidade de que o governo federal, lá de Washington D.C., deveria se meter no que a escola do meu bairro a 4.000 km de distância faz. O que um burocrata lá da capital, na costa leste, entende do que acontece aqui na costa banhada pelo Pacífico? Nada. A incapacidade do governo federal é tão evidente para o americano médio que nem é um ponto polêmico. O apoio estatal ao esporte existe, mas além de ser feito na esfera educacional (esporte nas escolas é mais uma matéria com avaliações e notas), é decidido, aprovado, aplicado e monitorado localmente. E essa mentalidade nãé um privilégio exclusivo dos EUA.

Ninguém ficou muito satisfeito com o empate da nossa seleção com a Suíça na nossa estréia na Copa do Mundo, mas nãé por isso que não podemos aprender também uma coisa ou outra com o país que tem US$ 60 mil de renda per capita e provavelmente a melhor qualidade de vida do planeta. A Suíçé o paraíso político de quem entende que governo é um mal necessário e não um ente superior que deve controlar nossas vidas como uma divindade ou um pai que sempre recorremos quando temos algum problema.

O país do canivete multifuncional é dividido em cantões que basicamente funcionam de forma independente, reunidos numa federação nos moldes daqui dos EUA. Deu certo lá, dá certo aqui. Em países que compraram a narrativa socialista e antidemocrática de que não há problema que não possa e não deva ser resolvido pelos burocratas do governo central, os resultados são opostos. Coincidência?

O caminho até um modelo mais independente e mais eficiente para o esporte é longo, nossa realidade é diferente do formato dos ianques (mas por que não almejarmos algo parecido?) e é por isso que não sou contra a participação do Estado no fomento ao esporte, mas nunca, de forma alguma, com a gestão do distante, corrupto, incompetente e interesseiro governo federal. Como aqui nos EUA, qualquer gasto importante do Estado com esporte deveria ser local, decidido nos estados e municípios, quando não na própria comunidade. Quanto mais perto do cidadão, melhor.

A MP 841 é errada em todos os sentidos, mas a discussão sobre o papel do governo federal no fomento ao esporte é oportuna e não deve ser colocada de lado. Aos meus companheiros do esporte comprometidos com mais essa batalha, levanto algumas perguntas e peço reflexão: nãé hora de também começarmos a discutir o fim deste famigerado Ministério do Esporte? O esporte nacional, principalmente o de base, por sua importância na rica formação de atletas e cidadãos independentes, não deveria estar sob a tutela da educação? Até quando assistiremos o Ministério do Esporte ser apenas uma vitrine partidária, uma moeda de troca no jogo político de mais de 30 partidos que jogam apenas o jogo de Brasília?

Será justo, eficiente e correto que o destino do esporte esteja para sempre nas mãos de burocratas do Planalto? Como é que um país com dimensões continentais e tão complexo pode ter tudo de relevante decidido há milhares de quilômetros dos que serão diretamente afetados? Quanto desses 500 milhões da MP 841 chegariam de fato ao real destino do esporte de base?

Visitando as páginas do passado do ministério dito guardião do esporte, é triste não apenas a constatação do envolvimento de quase todos os ministros com alguma forma de corrupção, mas também o fato que quase nenhum deles tinha ou tem uma verdadeira ligação e comprometimento com o esporte. Se quisermos ser uma potência esportiva, e temos material humano para isso, ou abrir o caminho para que crianças e adolescentes se tornem adultos responsáveis através do esporte, precisamos começar a repensar a estratégia desse jogo.

Mais uma vez peço reflexão para que possamos agir: vamos nos unir e lutar pelo esporte impedindo a tungada no curto prazo, mas e depois? Em vez de apenas ficarmos brigando pelas migalhas que caem das mesas de Brasília, é hora também de repensarmos o modelo atual e buscarmos as melhores práticas nos países que lideram o esporte mundial, democratizando e descentralizando as decisões e as verbas, reconectado a comunidade com o esporte de uma maneira muito mais sólida, pessoal, transparente e eficiente.

Acho que se eu pudesse resumir tudo numa frase que ouvi nas manifestações de 2015/16, seria menos Brasília e mais Brasil. Vale para tudo, inclusive para o esporte. E bola para frente.