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Meu país, minhas regras

Ana Paula Henkel

27 Novembro 2018 | 20h42

Em 24 de novembro, cerca de 100 invasores tentaram cruzar a fronteira entre México e EUA. Os agentes americanos que patrulhavam o local usaram gás lacrimogêneo e spray de pimenta para conter a turba e a invasão foi impedida. Mas mesmo antes desse evento, o presidente americano usou palavras duras para falar de tentativas de invasão como essas:

“Somos uma nação generosa e hospitaleira, mas aqueles que entram no país ilegalmente, e aqueles que dão empregos a ilegais, desrespeitam o império das leis e apenas mostram desprezo por quem segue a lei. (…) Precisamos de forte e intensa segurança nas fronteiras, nós simplesmente não podemos deixar que alguém entre nos EUA sem ser identificado, sem documentos, sem ser checado e furando a fila dos que estão pacientemente, diligentemente e legalmente aguardando para se tornar um imigrante legal neste país. Precisamos de mais recursos para combater a imigração ilegal e para deportar aqueles que estão ilegalmente no país”.

Agora é quando muitos darão uma pequena pausa lendo este texto e pensarão: “mais uma do xenófobo Trump…”. Errou. O incidente citado dos 100 invasores e o gás lacrimogêneo e spray de pimenta aconteceu em 2013, durante o governo Obama, o mesmo que, em 2005, proferiu as palavras acima sobre lei e ordem e que mais parecem ter saído da boca do agente laranja sem coração e malvadão do século, Donald Trump. A imprensa, ou assessoria do Partido Democrata, como queiram, não se interessou pelo caso e a notícia saiu apenas nos jornais locais e com pouco destaque. O discurso de Obama está sendo agora citado pelo atual presidente americano, mas nestes tempos de pós-verdade, fatos não são suficientes para pautar os militantes das redações.

Exatamente cinco anos depois daquela tentativa frustrada de invasão, a América está sob nova direção e, vejam vocês, o que era um fato corriqueiro no trabalho de segurança de fronteira agora é escândalo. Mesmo que mais de 85% dos integrantes da atual “caravana” que tentou entrar ilegalmente nos EUA sejam homens, as imagens cuidadosamente selecionadas por grande parte imprensa são de mulheres correndo do gás lacrimogêneo com crianças chorando, no melhor estilo “Pollywood”. Para quem não conhece, “Pollywood” é o termo usado para definir as imagens geradas da máquina de propaganda do Hamas em cada ataque realizado contra Israel em que mulheres e crianças são também usadas para a mesma tática de guerrilha: criar empatia do ativista branco e rico das grandes cidades para a causa destes terroristas. Funciona.

O governo Obama usou a força para conter a tentativa de entrada de uma massa de ilegais, mas aparentemente o gás lacrimogêneo e o spray de pimenta de um governo de esquerda é mais humano e solidário do que de um governo de direita. Os ciosos e previsíveis jornalistas de parte da imprensa tradicional não viram nada demais no ocorrido de 2013, mas agora falam, no mínimo, em crise humanitária. É o que chamam de jornalismo hoje em dia. Pelo pedágio ideológico noticiam sem trégua a “monstruosidade do governo Trump” em tentar barrar a entrada da caravana de ilegais, mas fazem vista grossa para a real crise humanitária na Venezuela. Prioridades. Daqui a pouco noticiam essa tentativa de entrada de uma massa de ilegais, que traz mais de 600 criminosos entre as 9 mil pessoas, como “imigração ilegal do bem”.

A inacreditável Alexandria Ocasio-Cortez, jovem deputada americana recém-eleita por NY, descendente de porto-riquenhos e declaradamente socialista, comparou a “caravana” dos ilegais aos judeus que fugiam do nazismo na Segunda Guerra, uma ofensa abjeta aos sobreviventes do verdadeiro holocausto mas que serviu para mais uma apropriação política sem cabimento e sem vergonha. Se Alexandria Ocasio-Cortez for mesmo o futuro do Partido Democrata, é possível que a esquerda americana tenha sérios problemas para eleger seus socialistas nas próximas eleições majoritárias.

Não há como negar que a meta de grande parte da esquerda mundial, e o Partido Democrata americano não é exceção, é acabar com as fronteiras nacionais. A ala nacionalista da esquerda está cada vez menor e com menos voz, enquanto os que defendem um mundo sem fronteiras, governado por um grupo de burocratas não-eleitos e sem rosto em Bruxelas, Davos ou Genebra, com os estados-nacionais transformados em meras unidades administrativas não-soberanas, não só é a mais ruidosa como aquela com mais acesso a recursos. Nada poderia agradar mais uma corporação transnacional do que o livre tráfego de mão-de-obra barata.

Vamos aos fatos: Trump não ordenou, como a imprensa quer fazer parecer, o uso de força indiscriminada contra mulheres e crianças, assim como não ordenou a separação de crianças e pais na última crise fabricada pelo jornalismo militante que teve a cara-de-pau de usar imagens de crianças em jaulas tiradas em 2014, quando o presidente era Obama, para criar a falsa narrativa que o malvadão laranja era um sádico separador de famílias. O símbolo do mau-caratismo desta época foi a capa da revista TIME com Trump e uma criança chorando, como se abandonada por ele. O editor da TIME, desmentido pelo próprio pai da criança, depois admitiu que a foto era mentirosa, mas e daí? O que vale é a narrativa.

O presidente americano se casou três vezes, duas delas com estrangeiras. Sua atual esposa, Melania, nasceu na Eslovênia, assim como Ivana, a primeira, é natural da Checoslováquia. Sua filha Ivanka se converteu ao judaísmo no casamento com Jared Kushner, e seus três filhos, netos de Donald Trump, são judeus. Suas empresas são repletas de estrangeiros e suas amizades incluem imigrantes, mas como ele ousou deixar o Partido Democrata, do qual foi um doador dos mais generosos por anos, agora é “fascista e xenófobo”, um dos xingamentos tradicionais atribuídos pela esquerda e seus despachantes na imprensa a qualquer um que desconfie do paraíso socialista.

A América está, como sempre esteve, aberta a receber imigrantes. Como em qualquer país, há um procedimento legal a ser respeitado, assim como não é todo mundo que entra na sua casa sem bater e se identificar. Não há país se não há controle de fronteiras e não merece respeito quem usa crianças como escudo humano para forçar a entrada ilegal num país, salvo em caso comprovado de perseguição em que as leis de asilo se aplicam. Mesmo para asilo há regras. As nações não existem por acaso. Governos democráticos precisam ser eleitos e representarem efetivamente a população, que dará voluntariamente a seus líderes o consentimento para que sejam governados por eles. Não se conhece uma maneira melhor, ao longo da história, de se criar esse tipo de ligação de confiança e cumplicidade entre representantes e representados do que pelos laços culturais, de costumes, da língua, da moeda e das tradições.

Os imigrantes do mundo todo têm a América como destino preferencial não apenas pelas oportunidades de crescimento pessoal e profissional, o que não é pouco, mas também por saberem que serão bem recebidos e vistos como americanos como qualquer outro em muito pouco tempo de residência e trabalho. Acredite, vivo aqui há quase 10 anos e sou testemunha de que tudo que você  investe no crescimento e melhoria da sociedade, você recebe de volta. Não apenas finceiramente mas, acima de tudo, moralmente. Respeito se ganha com respeito. Não custa lembrar, principalmente neste momento, o que disse John F. Kennedy em seu histórico discurso de posse como 35o presidente americano: “não pergunte o que o seu país pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer pelo seu país. ”.