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E as cubanas?

Ana Paula Henkel

20 Novembro 2018 | 20h04

Quem participa do debate público nas redes sociais sabe que parte do tempo é gasto lidando com gente que, muitas vezes escondida pelo anonimato de perfis falsos, xinga, grita e dá chilique achando que com isso vai intimidar. No meu caso, é muito raro passar um dia sem ler “e as cubanas?”, como se lembrar daquela semifinal que abriu caminho para a histórica medalha de bronze olímpica em Atlanta fosse motivo de constrangimento e não de orgulho para qualquer atleta daquela geração.

Claro que competi para vencer e adoraria ter conquistado o ouro naquele ano, como entre outras tantas realizações que superaram os sonhos mais inimagináveis quando saí de Lavras para ganhar o mundo pelo esporte. Tenho uma vida hoje repleta dessas realizações, planos futuros e expectativas de trabalho entre Brasil e EUA. Nesta semana que se comemora o do Dia de Ação de Graças aqui na América, sei que tenho muito a agradecer. E uma das sortes que eu tive, com certeza, foi não ter nascido e ser uma refém da ditadura cubana.

Todos esses pensamentos, emoções e lembranças vieram à tona nestes últimos dias quando nosso presidente eleito condicionou a continuação do programa Mais Médicos, vejam vocês, a que os agentes de saúde cubanos passem por um teste de validação, o mesmo que brasileiros formados no exterior têm que passar, que possam trazer suas famílias e que possam ficar com seus salários. Cuba não aceitou. Lendo alguns artigos e matérias da imprensa brasileira sobre o assunto, ficamos com a impressão de que o Brasil está caminhando para virar uma ditadura porque o próximo governo não quer ser sócio e patrocinador de uma ditadura brutal. Faz sentido? Só para os desonestos que continuam empurrando narrativas vazias para um debate sério.

Posso dar meu testemunho pessoal de quem conviveu com as atletas cubanas. Sei o que ouvi delas sobre Fidel Castro se apropriar de suas premiações, da falta dos itens mais básicos para consumo, de como várias vezes compramos pasta de dente, sabonete e remédios para elas, produtos que depois eram levados para Cuba escondidos para não serem confiscados. Por mais competitivo que fosse o clima, não tive como não me emocionar quando ouvi de uma bi-campeã olímpica que ela trocaria tudo, todos os seus títulos e medalhas, pela oportunidade de poder viver fora de Cuba com sua família, longe daquela ditadura horrorosa, daquela miséria absoluta num país que já foi um dos mais ricos e desenvolvidos do continente.

Sei que é óbvio, mas não custa lembrar: os elogios das atletas cubanas aos ditadores e ao regime para a imprensa durante as competições não eram espontâneos, evidentemente. Todas viviam sob a mais alta pressão e sabiam das consequências para elas e seus familiares se ousassem fazer qualquer crítica pública. Eram declarações tão verdadeiras quanto o sorriso da torcida norte-coreana nas coreografias robóticas exibidas nos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano em Pyeongchang. Tenho calafrios só de pensar na vida daquelas pessoas tão sorridentes.

Você não precisa confiar no meu depoimento sobre Cuba se não quiser. Se você ainda não conhece, vale a pena dar uma olhada no blog da jovem cubana naturalizada brasileira Zoe Martínez, seus vídeos são muito esclarecedores sobre o que é viver na ilha dos Castro, dito por quem nasceu e viveu lá e hoje, morando no Brasil, pode dizer a você com todas as letras, sem medo de represálias, o que parte da imprensa não conta, quer você seja agente de saúde, atleta ou apenas um cidadão comum que teve o infortúnio de nascer por lá sob o regime atual.

Não há dúvidas de que há regiões no Brasil desassistidas em tudo e a presença destes agentes de saúde pode, caso não prescrevam tratamentos equivocados, ser melhor que nada, mas um erro não justifica o outro. A incompetência do país de prover condições de atendimento médico para a população mais necessitada não pode servir de pretexto para o envio de bilhões de reais para uma ditadura sanguinária e genocida, usando seres humanos como mulas. É preciso que tenhamos uma grande discussão nacional sobre como levar atendimento médico a todos e ela começa com o envolvimento dos profissionais de saúde do Brasil, os mais qualificados para liderar o debate e propor soluções viáveis e eficientes.

A histeria atual que cerca tudo em relação ao nome de Bolsonaro e que critica tudo e todos apenas pela mesquinhez de vencer o debate precisa ser combatida. O próximo governo precisará de apoio e também de críticas construtivas, o buraco negro em que o PT nos colocou com anos de desgoverno é devastador e não temos tempo a perder. Torço para que o próximo governo enfrente as grandes e complexas questões que envolvem a saúde pública com o devido respeito e seriedade, sem o sequestro por agendas políticas inconfessáveis.

Regla Bell, Mireya Luis e Magaly Carbajal, entre outras, foram ícones do vôlei da minha geração, ganharam tudo, mas nunca tiveram nada. Duvido que qualquer um criado numa democracia tenha inveja das dificuldades que enfrentaram na vida. Elas são exemplos de superação, talento e força, representaram Cuba brilhantemente e todas as nossas eventuais desavenças daquela época foram mais que superadas. Tive o prazer de encontrar Mireya nas Olimpíadas de Atenas em 2004 e no Rio em 2016. Almoçamos e relembramos a eterna rivalidade que fez parte de nossas vidas e de tantos fãs do vôlei brasileiro e mundial. Entre uma risada e outra (e algumas lágrimas de ambas) ouvi, mais uma vez, o testemunho de que muito pouco havia mudado para os atletas na ilha da família Castro, e que muitos que foram jogar na Europa pediram asilo político e simplesmente não voltaram.

Quem vê os recentes vídeos nas redes sociais de médicos cubanos relatando como o programa Mais Médicos é injusto para eles, não pode se abster da honestidade nesse debate apenas por não gostar de Jair Bolsonaro. A eleição do novo presidente desnudou não apenas a demagogia e a hipocrisia de muitos que se diziam a favor da liberdade (mas que agora mostram seus verdadeiros esqueletos no armário), mas também como muito bem escreveu o jornalista Alexandre Garcia em um de seus recentes textos: “a oposição mais sutil não virá do PT, mas das castas e dos privilegiados que não vão querer deixar de mamar no estado brasileiro”.

Quem via as atletas cubanas pela TV não tinha como conhecer as histórias por trás de cada uma, do que tiveram que passar para estar lá e como elas e suas famílias sofreram e sofrem. Quando me perguntam, em desnecessário, agressivo e mesquinho tom de deboche “e as cubanas?”, eu sinceramente, de coração, só espero que elas estejam bem.