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A Terra é um Donut

Ana Paula Henkel

16 Agosto 2018 | 19h05

Para você, a Terra é redonda ou plana? Para minha surpresa, descobri esta semana uma terceira opção: para alguns, nosso planeta teria a forma de uma rosquinha ou um Donut. Se os polos forem cobertos com chocolate e o centro da Terra recheado com doce-de- leite, estou disposta a considerar a possibilidade. O planeta-rosquinha é apenas um sonho, mas o que ele simboliza é real. Já explico.

A chamada “Geração Z”, composta pelos nascidos em meados dos anos 90 até meados de 2000 é considerada a primeira dos “nativos digitais”, termo criado por Marc Prensky para definir quem cresceu com a tecnologia digital (internet, videogames, celulares, tablets e redes sociais). Essa geração tem uma relação totalmente distinta de todas as gerações anteriores, dos “imigrantes digitais”, com a informação e a liberdade de expressão. Os jovens que começam a disputar espaço com a “Geração Y” (ou Millennials), composta pelos filhos da década de 80, me enche de esperança em tempos de censura e patrulha ideológica nas principais plataformas de comunicação, digitais ou não.

Aos fatos: muitas páginas e perfis estão sendo sistematicamente derrubadas ou passam pelo “banimento silencioso”, uma maneira ainda mais insidiosa e abjeta de censura, por burocratas obscuros das gigantes do Vale do Silício. Os gigantes da tecnologia se aproveitaram da boa fé da população mundial, especialmente do Ocidente, para oferecer serviços supostamente gratuitos que conectariam todos de forma livre para a promoção de uma “aldeia global”. E nós acreditamos.

O Google chegou a adotar por vários anos como slogan “não seja mau”, sinalizando virtude em troca do direito de saber praticamente tudo sobre como você vive, o que você faz, onde está e o que pensa. Como não existe almoço grátis, o preço está começando a aparecer e não é nada barato. Depois de mais de dez anos moldando o mundo, das relações pessoais às profissionais e o espaço do debate público, as “big techs” (hoje em dia mais para Big Brothers) começam a colocar as mangas de fora e revelar que, na verdade, não são “neutras” e se você não pensa ou fala conforme seus executivos ditam, você pode ter uma morte social e ser “desmonetizado” ou até virar um “sem plataforma”, um pária do século XXI.

A figura do excluído social não é nova e tem manifestações muito evidentes em diversas culturas, como no hinduísmo em que o “dalit” é visto como alguém que pertence ao extrato mais baixo da sociedade. Assim como os líderes da indústria da tecnologia seriam os novos “brâmanes”, os que ousam ter opiniões e idéias diferentes da fechada casta dos bilionários de Palo Alto e arredores seriam colocados na casta mais baixa e excluídos do convívio social. E não adianta reclamar, a condenação e sentença são dadas aos “dalits” num julgamento entre apenas os iluminados detentores do conhecimento do reino da indústria digital.

Para a turma que mora nos arredores da Baía de São Francisco e minions contratados à sua imagem e semelhança ao redor do planeta, qualquer visão de mundo levemente diferente do que pensam é rotulada como “extremista”, “discurso de ódio”, e seu portador diagnosticado com algum tipo de “fobia” que, assim como os loucos de tempos antigos, merece lobotomia ou internação compulsória em manicômios virtuais, longe de tudo e de todos. A arbitrariedade com que esta casta digital patrulha, persegue e isola os não-conformistas mostra que o caráter dos censores não varia ao longo dos tempos, mesmo que mudem os pretextos e a forma da execução das penalidades.

Recentemente, o Instagram, que aparentava ser uma inofensiva versão eletrônica da revista CARAS, baniu jovens canadenses e americanos que criaram um perfil muito popular chamado “rightwingism” (ou “direitismo”), um espaço aberto para discussão livre de temas a partir de todas as perspectivas. Quando outros jovens criaram o concorrente “leftwingism” (ou “esquerdismo”, e que continua a existir, evidentemente), os meninos da direita promoveram os concorrentes e aplaudiram a criação de mais um espaço de discussão. Chegamos então ao Donut.

Os jovens idealistas do “rightwingism” diziam ironicamente que seu perfil era tão aberto que “não importa se você acha que a Terra é redonda, plana ou uma rosquinha”, que todos eram bem vindos ali. Depois da página teen da direita, várias outras, percorrendo todo o espectro político-ideológico, foram criadas no estilo “wingism“. As páginas, à medida que eram criadas, não eram apenas celebradas por todos pela ampla e madura discussão, mas eram anunciadas por toda a comunidade teen.

Os jovens engajados no debate intelectualmente honesto só não contavam com os inquisidores sem rosto que comandam a plataforma, para espanto de todos, como do meu filho de 17 anos, que liam e acompanhavam com interesse os temas e as discussões. Gabriel ficou chocado com o banimento: “mãe, não havia nada extremo, como não há em nenhuma página desta vasta comunidade de “wingisms“, nada que justificasse o banimento a não ser uma censura pura e simples ao pensamento fora da esquerda”.

Numa atitude admirável, os meninos da esquerda se juntaram aos órfãos dos perfis de direita banidos e pediram a volta dos “dalits”, dando indícios de que a Geração Z não é tão conformista, radical e desmiolada como muitos dos Millennials que hoje povoam a média gerência das “big techs” (ou Big Brothers, como queiram) e executam as penas de morte social sem direito de defesa ordenadas pelos chefes.

O melhor de tudo: depois de inúmeros pedidos, mensagens e postagens de todas essas páginas teens de “wingism”, da direita e da esquerda, em defesa da liberdade de expressão, ontem o Instagram finalmente devolveu os perfis censurados aos donos. A luta contra a patrulha ideológica do aparelho burocrático destas corporações continua, mas ao menos esta batalha foi vencida e por representantes de todos os lados, jovens unidos pela civilidade e pela fé na democracia. Há esperanças.

Se a Geração Y, formada por filhos tardios e netos dos radicais da geração de 1968, for mesmo a última a pregar a perseguição autoritária ao pensamento que ousa defender as idéias que construíram o Ocidente e as sociedades mais livres, justas e prósperas da história, temos motivos para sorrir. Os problemas gerados pela liberdade são evidentemente resolvidos com mais liberdade e a perseguição aos liberais e conservadores, não tenho dúvidas, será um tiro no pé dos “brâmanes” da indústria da informação. Os “nativos digitais” não vão aceitar o cabresto ideológico e já estão reagindo.

Ainda há muito o que fazer para garantir a liberdade de expressão nas plataformas digitais, mas a união dos jovens de todos os espectros ideológicos pela volta dos banidos pelo Instagram deixou minha semana mais doce. Agora vocês vão me dar licença que vou procurar no Google uma camiseta com a Terra em forma de rosquinha e mostrar aos maduros jovens da Geração Z que temos muito o que aprender com eles. Na terra seca e hostil das redes sociais, ainda há pequenas, mas fortes e significativas, flores desabrochando e desafiando a aridez dos tempos atuais.