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1936, o ano que não quer terminar

Ana Paula Henkel

12 Junho 2018 | 19h59

A simples leitura diária das notícias tem nos mostrado a vasta variedade das manchetes no mundo político. Encontramos de tudo, da última do malvadão-sem coração Trump ao inquilino mais honesto da carceragem da Polícia Federal, passando pelo preso do momento da Lava Jato ao dirigente esportivo pego com a mão na premiação. Embora algumas notícias, esportivas e políticas, sejam mais relevantes que outras, há algumas que por mais que não estejam na discussão do momento são extremamente preocupantes e merecem uma atenção redobrada. 

Tem lá sua ironia uma ex-esportista que agora estuda Ciência Política e escreve sobre política ser contra a politização do esporte, mas acreditem: separar esporte e política é tão importante quanto separar Estado e igreja ou governo e economia. A seleção argentina de futebol, que cancelou um amistoso contra Israel em Jerusalém depois de protestos de palestinos, ofereceu ao mundo na semana passada mais uma triste e preocupante lembrança de como essa é uma mistura que nunca termina bem. 

Faço uma distinçãóbvia entre o direito de qualquer esportista de se manifestar politicamente, o que todos têm direito de fazer (e sou a primeira a apoiar), e a invasão de agendas político-partidárias em competições esportivas, dividindo um espaço reservado para a união de atletas, torcedores, culturas, povos e nações. Tenho certeza de que o saudoso Barão de Coubertin, pai dos Jogos Olímpicos da era moderna, revira no túmulo toda vez que o espírito olímpico é sequestrado por políticos oportunistas, dirigentes esportivos e atletas desmiolados, induzidos ou mal informados, que usam competições esportivas, território pacificador, como arma puramente política.

Em 2016, dois dias antes da abertura dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, numa cerimônia que contou com a presença de oficiais brasileiros e israelenses, o Comitê Olímpico Internacional lembrou com honras os onze israelenses assassinados por terroristas palestinos na Olimpíada de 1972, em Munique. Foi também na Olimpíada do Rio que o judoca egípcio Islam El Shehaby, após ser derrotado pelo israelense Or Sasson, negou o cumprimento ao adversário numa abjeta demonstração de intolerância. Sasson acabou conquistando o bronze na categoria e Shehaby foi desligado dos jogos, mas o fantasma do preconceito não foi exorcizado junto com ele. É preciso fazer mais.

A Olimpíada mais manchada pela política e pelo racismo foi, sem dúvida, a de 1936. Tudo foi preparado pela Alemanha nazista como uma oportunidade para mostrar ao mundo a superioridade ariana, mas quem entrou para a história foi evidentemente o negro americano Jesse Owens e suas incríveis quatro medalhas de ouro no atletismo. O espírito maligno de 1936, infelizmente, não foi enviado em definitivo para o esquecimento junto com os promotores daquele evento.

A recente recusa da seleção argentina de futebol de disputar um amistoso com o time israelense, independente de qual lado se está em relação aos conflitos no Oriente Médio, é uma afronta ao esporte internacional e seu espírito, e merece todo repúdio. Disputar uma partida de futebol nãé necessariamente concordar com a política externa de Israel, mas a recusa de entrar em campo é uma ofensa ao povo da única democracia da região e um aceno para a mais pura intolerância. Imperdoável.

A atitude dos jogadores e dirigentes argentinos é ainda mais simbólica quando se lembra das relações históricas da Argentina peronista com o nazismo e como o país foi um dos destinos preferenciais de fugitivos da Alemanha no pós-guerra. O mais famoso dos réus de Nuremberg e um dos principais arquitetos do Holocausto, Adolf Eichmann, foi capturado em Buenos Aires onde vivia tranquilamente com a família. Não foi um fato isolado.

Em 1992, um atentado suicida contra a embaixada de Israel em Buenos Aires deixou 30 mortos e 242 feridos. A tragédia foi reivindicada pela Organização da Jihad Islâmica, grupo terrorista ligado ao Irã e ao Hezbollah. Dois anos depois, o maior atentado já ocorrido em solo argentino: um carro-bomba colocado na frente da associação israelita AMIA, novamente em Buenos Aires, matou 85 pessoas e feriu outras 300. 

Os dois atentados antissemitas estão entre os episódios mais controversos da Argentina. Depois de duas décadas de denúncias de encobertamento das investigações, o promotor Alberto Nisman, notório por comandar as investigações do atentado contra a AMIA e denunciar as ligações do governo iraniano com os autores, além do acobertamento dos terroristas pelo governo Kirchner, foi encontrado morto em sua casa em 2015 com um tiro na cabeça.

Nisman foi morto poucas horas antes de comparecer ao Congresso argentino para dar detalhes sobre a acusação de que Cristina Kirchner protegia os terroristas. O assassinato de Nisman é visto como um dos maiores escândalos argentinos e promete assombrar a justiça do país pelos próximos anos. Novamente, os antissemitas e seus alegados protetores conseguiram escapar da justiça, ao menos até o momento. É possível que Eichmann também tivesse escapado se não fossem os caçadores de nazistas do pós-guerra.

Na Copa da França em 1998, o mundo ficou sem respirar diante do confronto entre dois inimigos políticos que, por ironia do destino, foram sorteados para dividir a mesma chave F da competição, EUA e Irã. O medo da hostilidade entre torcidas ou uma saia justa diplomática em campo era tão grande, que o presidente da Federação Americana chamou, na época, a partida de “a mãe de todos os jogos” e declarou que esperava que as seleções mostrassem ao mundo o verdadeiro espírito esportivo. O presidente da Federação Iraniana, por sua vez, oportunamente pediu que todos os jogadores iranianos entrassem em campo segurando rosas brancas.

A seleção iraniana venceu o duelo por 2 x 1 e o medo de que as animosidades políticas entrassem em campo deu lugar a uma partida comovente e com direito a uma foto histórica entre os jogadores de ambos os times abraçados. O esporte no seu melhor papel, como protagonista, e sendo usado como tem que ser, uma bandeira branca de trégua e esperança.

A paz e a tolerância, mostradas na Copa de 98 entre EUA e Irã, perderam com o cancelamento do amistoso em Jerusalém. Desconheço a posição de Maurício Macri, atual presidente argentino e ex-presidente do Boca Juniors, sobre o episódio, mas estou torcendo para que ele entre em campo e desfaça mais essa mancha na triste história que envolve a Argentina com o antissemitismo. Seria um golaço. O espírito esportivo e a paz agradecem.