Remédios agora só 'atrás do balcão'

Marcelo Moreira

11 de setembro de 2009 | 22h05

JOSUÉ RIOS – COLUNISTA DO JORNAL DA TARDE

Certa vez, o humilde sr. Furtado, o Consumidor, chegou à farmácia pedindo um anti-inflamatório para uma dorzinha no braço, embora ele mesmo já tivesse escolhido na gôndola da drogaria o medicamento que iria usar.

Pretendia tomar um desses anti-inflamatórios conhecidos que apareciam a toda hora na televisão “ministrados” por atores ou atrizes que fazem propaganda de tudo sem se incomodar com a saúde dos mais pobres.

No caso do sr. Furtado, felizmente uma tragédia foi evitada. Qual? Agravar ou mascarar um enfarte. Sim, porque antes de comprar o medicamento, o profissional farmacêutico, cuja presença passou a ser obrigatória nas farmácias, ouviu com atenção o sr. Furtado e pôde constatar que a sua dor no braço não tinha nada a ver com um problema muscular que pudesse ser amenizado com analgésico e recomendou que o consumidor consultasse um médico.

Resultado: dias depois, a mulher do sr. Furtado ligou para o farmacêutico para agradecer a orientação e informar que depois de passar pelo serviço médico, seu marido foi internado, pois a dor no braço no braço era o começo de um enfarte.

Histórias como essa se repetem no cotidiano de milhões de cidadãos humildes que lotam as farmácias para adquirir por conta própria os chamados medicamentos de venda livre.

A pergunta é: como evitar o risco à saúde ocorrido com o sr. Furtado? Ou melhor, como combater a automedicação desenfreada, fruto da venda livre e descontrolada dos remédios? Uma das providências contra o mal foi a adotada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que acabou de editar a Resolução 44 de 18 de agosto de 2009, que determina a retirada dos medicamentos de uso livre da área de circulação comum da farmácia.

Ou seja: para racionalizar o uso dos medicamentos, estes vão ficar atrás do balcão como medida que conduz o consumidor a ser mais cauteloso, forçando-o, na prática, a consultar o farmacêutico, que não só evita o risco à saúde, como também protege o bolso do consumidor.

Vamos a mais alguns riscos da venda indiscriminada dos remédios de comercialização livre. Primeiro: quem mistura chá de camomila com ácido acetilsalicílico pode estar diante da interação da camomila com o ácido referido, aumentando os efeitos deste, o que favorece a ocorrência de hemorragias.

Quem mistura bebida alcoólica com ácido acetilsalicílico pode aumentar o risco de sangramento no estômago, assim como a soma de antialérgicos com bebida alcoólica pode trazer efeito sedativo. Da mesma forma, os antiácidos quando combinados com antibióticos podem reduzir a ação antimicrobiana.

Enfim, como patinhos, nos atiramos, num mar de riscos gerados pelos medicamentos ditos sem riscos (de venda livre). E a medida da Anvisa, somada à atuação do farmacêutico nos estabelecimentos do ramo, é bem-vinda e poderá evitar dramas ao bolso e à saúde dos consumidores ao promoverem a orientação e o uso racional dos remédios de venda livre.

E para as farmácias que reclamam das restrições impostas pela norma, lembro que estas vão poder prestar novos serviços remunerados, a saber: voltarão a poder fazer medição de pressão arterial, que tem caráter preventivo quando realizado pelo farmacêutico; poderão fazer testes de glicemia capilar (verificação de sinais de diabete ou alterações indesejáveis), e poderão colocar brincos de forma segura nas pessoas que pretendam furar a orelhinha.

A última: como o farmacêutico é peça-chave no sucesso das medidas, caso o consumidor seja mal atendido por um desses profissionais, poderá denunciá-lo ao Conselho Regional de Farmácia pelo telefone 0800-7702273.

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