Promessa na venda é ato sagrado

Marcelo Moreira

15 de agosto de 2008 | 22h40

JOSUÉ RIOS – COLUNISTA DO JORNAL DA TARDE

De tanto ouvir mentira de vendedores e funcionários de telemarketing, o sr. Furtado, o Consumidor, diz que pretende seguir à risca a lição do Índio Juruna. Este, como os leitores devem se lembrar, elegeu-se deputado federal nos anos 80. Adotou uma postura para os seus contatos em Brasília: gravava tudo que os caciques da política falavam, para se prevenir das mentiras.

Juruna não se desgrudava de um gravador. E é isso que o sr. Furtado vai fazer de agora em diante: gravar tudo. Se na loja da TIM o vendedor do celular afirmar que falar de TIM para TIM é grátis, o sr. Furtado não terá dúvida: gravador nele! E se na tenda da Vivo afirmarem que quem contrata o plano X terá mil minutos para falar de graça de Vivo para Vivo, mais uma vez o gravador do sr. Furtado entrará em ação.

Sim, porque depois vem o sofrimento do pós-venda. As tais ligações grátis, entre celulares da mesma empresa, não são exatamente um mar de tarifa zero. Isso mesmo. Depois da compra, o consumidor vem a saber que a gratuidade é temporária e sujeita a limitações de minutos, ou só vale para falar com um único número de celular, detalhes que o vendedor omitiu no burburinho da loja cheia de candidatos a meias verdades.

Mas o gravador do sr. Furtado vai funcionar também para o gerente do banco que oferece ao incauto a aplicação mais rentável da praça, promessa que fica só no papo.

Na compra do carro usado, o sr. Furtado voltará disparar o gravador quando o funcionário da revendedora informar que o veículo à venda ” passou por rigorosa revisão,” quando é comum apenas bater-se a poeira da “carroça usada”, e empurrar a “bomba” à próxima vítima, para o martírio de sempre.

Promessas furadas de vendedores em lojas, nas vendas televisivas ou nos telefonemas que invadem nossas casas para oferecer vantagens dos céus são infindáveis.

E a pergunta é: como, após dizer sim ao negócio, o consumidor pode comprovar o milagre ofertado?

No caso da lábia do vendedor é difícil comprovar a promessa se o consumidor não estiver acompanhado de uma ou mais pessoas que possam testemunhar o que foi alardeado pelo “papudo”. Como ninguém anda com testemunha o tempo todo, resta a estratégia que o sr. Furtado herdou de Juruna, em especial nos dias de hoje, em que a voz dos que contam lorotas para turbinar as vendas pode ser captada por minúsculos aparelhos.

Mas o sr. Furtado vai mais longe e me conta que pretende gravar ainda conversas fiadas de funcionário de banco, de empresas de TV a cabo e de cursos de informática, que ligam para sua casa para oferecer milagres.

Por exemplo, o briguento do sr. Furtado diz que vai gravar a ligação do funcionário da Telefônica, que telefona para sua residência oferecendo o Speedy (banda larga de internet), com entrega do modem e instalação no prazo infalível de sete dias. E o “língua fácil” ainda afirma que o sinal da concessionária não falha nunca.

Do ponto de vista legal, é muito importante a prova do que foi prometido pelo funcionário ou representante da empresa porque, pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), a informação ou promessa (feita por qualquer forma de comunicação – por exemplo, a palavra do vendedor) equivale à cláusula de um contrato – é lei entre as partes.

Ou seja, diferentemente das promessas dos políticos, na relação de consumo, o fornecedor que não cumpre, fielmente, o que anuncia ao cidadão é condenado pela Justiça a honrar o compromisso.

Daí é importante o consumidor guardar anúncios divulgados em folhetos, jornais ou revistas – ou gravar comerciais na TV que sejam do seu interesse para depois exigir o direito. Não esquecendo que, no casos das promessas verbais, vele testemunha ou o gravador do sr. Furtado, ainda que o método possa parecer hilário.

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