Planos de saúde: mais clientes que leitos

Marcelo Moreira

03 de outubro de 2011 | 07h11

Fernando Bassette

 O número de usuários de planos de saúde cresceu quatro vezes mais que o número de leitos privados em um ano, segundo o relatório da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). São quase 4 milhões de brasileiros a mais com convênio médico, somando 46,6 milhões de pessoas (aumento de 9,3%), contra apenas 2 mil novos leitos, totalizando 126.928 vagas (alta de 2,2%).

Ao mesmo tempo, as dez maiores operadoras, que em 2010 concentravam 25% do mercado, cresceram 33% e até março passaram a reunir um terço dos beneficiários: 15,9 milhões de vidas. Os dados se referem ao período de março de 2010 a março de 2011.

Diante do crescimento acelerado, a dúvida é se a rede está preparada para absorver essa demanda. Dados do Procon mostram que as queixas só têm crescido: no segundo semestre de 2009 foram 5.440 reclamações. No mesmo período de 2010 foram 7.301 queixas contra planos.

Na opinião do advogado Julius Conforti, especialista em planos de saúde, a concentração nas mãos de poucas operadoras prejudica o consumidor. Um dos exemplos, segundo ele, é que a ANS decidiu adiar por três meses o início da norma que determina o prazo máximo que uma operadora pode demorar para promover o atendimento ou agendar exames e cirurgias para os usuários.

“Isso demonstra que as operadoras ainda não estão preparadas para cumprir a norma. Se não estão preparadas é porque não conseguem atender à demanda de pacientes na mesma velocidade que cresceram”, diz.

Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Proteste, diz que o cenário é preocupante. “Apesar de o mercado estar concentrado em dez grandes empresas, ainda há negativa de coberturas, falta de leitos, descredenciamento de médicos e serviços.”

Segundo Bruno Sobral, diretor de desenvolvimento setorial da agência reguladora, o adiamento da resolução aconteceu para que as operadoras se adequem às regras: “À medida que o plano engloba mais beneficiários, precisa trazer também mais prestadores. Vamos multar as operadoras que não cumprirem esses prazos”.

De acordo com Sobral, a concentração pode ser vantajosa para aumentar a concorrência entre elas e reduzir o risco de falência, já que os custos são diluídos entre várias pessoas.

Arlindo Almeida, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), diz que por enquanto não sente problemas de desabastecimento por causa da concentração. “A não ser que existam problemas pontuais”, diz. Para ele, os planos têm investido em hospitais e leitos – o que é um processo lento.

Almeida admite, no entanto, que o “oligopólio” de operadoras pode ser ruim. “Isso não é interessante para nenhuma atividade. Os preços tendem a subir e pode haver desabastecimentos regionais, o que não é bom”, diz.

A Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde) informa que suas afiliadas buscam frequentemente adequar suas redes de prestadores às necessidades de atendimento dos beneficiários e que não tem conhecimento de insuficiência da capacidade de atendimento.

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