Médicos relatam pressão de planos para baratear custos

Nove em cada dez médicos paulistas dizem sofrer interferência dos planos de saúde em sua autonomia profissional, aponta pesquisa feita a pedido da Associação Paulista de Medicina (APM) e divulgada na semana passada

Marcelo Moreira

28 de setembro de 2010 | 08h17

Karina Toledo e Laís Cattassini

Nove em cada dez médicos paulistas dizem sofrer interferência dos planos de saúde em sua autonomia profissional, aponta pesquisa feita a pedido da Associação Paulista de Medicina (APM) e divulgada na semana passada. Entre as principais reclamações, estão a recusa de pagamento de serviços já prestados e a pressão das operadoras para diminuir o número de exames e o tempo de internação.

Tendo como referência uma escala de 0 a 10, os 403 médicos entrevistados atribuíram nota média de 4,7 para os convênios, avaliação que sobe para 5,1 se for considerado só o universo de profissionais que trabalham ou trabalharam com plano de saúde. Um dos fatores que explica a baixa avaliação é o valor do honorário médico pago pelas empresas. A margem de erro da pesquisa é de cinco pontos porcentuais.

Mal remunerados e ameaçados de descredenciamento pelas operadoras caso não reduzam os exames, o tempo de internação e a prescrição de procedimentos e medicamentos de alto custo, os profissionais ficam impossibilitados de prestar um serviço de qualidade ao usuário dos convênios, afirma o presidente da APM, Jorge Carlos Machado Curi.
“O setor de saúde suplementar está entrando em colapso. O paciente compra um plano esperando atendimento e ou não recebe esse atendimento ou o recebe de forma parcial”, afirma.

Um ortopedista ouvido pela reportagem, que não quis identificar-se, relata que é corriqueira a pressão das operadoras no dia a dia dos médicos. “Já aconteceu, por exemplo, de um auditor do plano de saúde me recomendar que eu escolhesse um determinado tipo de prótese mais barata, em detrimento daquela que eu considerava ideal”, conta.

Nesse caso, o médico explicou a situação à família, que acabou arcando com o custo do implante – mas nem sempre a família é avisada das conversas com o convênio.

O secretário do Conselho Federal de Medicina, Desiré Callegari, afirma que muitos médicos acabam sendo denunciados aos conselhos regionais por má prática da medicina porque não conseguem exercer sua autonomia.
“Muitas vezes, eles deixam de pedir um exame de alto custo essencial para o diagnóstico, por exemplo, porque estão reféns do sistema. Se eles se insurgem contra os planos, são desligados e não têm a quem reclamar”, diz.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é o único órgão que fiscaliza o trabalho das operadoras de saúde, mas tem poder apenas para interferir na relação entre as empresas e seus consumidores, explica a advogada Rosana Chiavassa. “A lei não autoriza a ANS regular a relação dos planos com os médicos, clínicas, laboratórios e hospitais”, diz.

Embora a agência reguladora não tenha autonomia para interferir no valor do honorário pago ao médico, pode punir as operadoras que se negam a cobrir exames e procedimentos. “O médico até poderia se negar a trabalhar nesse sistema, mas é o único sistema de saúde suplementar que existe”, afirma Desiré Callegari.

Para o secretário do conselho de medicina, já “passou da hora” de o governo federal dar poderes à ANS para que possa regular também a relação dos convênios com seus prestadores de serviço.

A reportagem procurou as operadoras mais citadas na pesquisa – Amil, Medial e Sul América – mas as empresas preferiram se manifestar por meio de nota assinada pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). No texto, a entidade afirma que “suas afiliadas não fazem qualquer restrição ao acesso a serviços – como internações e exames – desde que estejam previstos nas coberturas contratuais dos planos e nas diretrizes determinadas pela ANS”.

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