Medicina por e-mail e discrminação nos planos de saúde

Marcelo Moreira

23 de julho de 2012 | 08h37

Josué Rios – colunista do Jornal da Tarde

A grande mentira dos planos de saúde só aparece quando você mais precisa deles. E ninguém conta para você a maldita inverdade antes de você próprio descobri-la nos piores e mais angustiantes momentos de apuro.

Vamos à prova do que afirmo. Hoje conversei com um amigo intelectual, professor de universidade federal, que está com a saúde muito debilitada há alguns meses. Além da própria doença, eis a pior queixa do meu amigo: “Só consigo falar com minha médica, que é do plano de saúde da universidade, por meio de e-mails – ela parece um ser quase invisível para mim”, sentencia o meu caro amigo.

Só que a queixa do referido conveniado, tristemente, é a rotina dos médicos de planos ou seguros saúde, a saber: não estabelecem contatos diretos e próximos com os pacientes, que precisam de seus cuidados, mesmo que se tratem de enfermos que inspiram atenção especial. Pacientes em tratamento, como regra geral, não conseguem falar com médios conveniados em feriados, fins de semana, ou em prazos curtos, e se comunicam apenas por e-mails.

E o meu prezado amigo faz outra reclamação sobre a médica do plano de saúde: “Provavelmente, se eu tivesse pagando a ela  como paciente particular, o atendimento seria outro, de caráter mais próximo e pessoal, onde eu não me sentiria abandonado.” 

A reclamação procede. Como regra, há muitas diferenças no tratamento  dispensado por profissionais conveniados aos clientes de plano de saúde e a quem paga diretamente pelo atendimento. P

or exemplo,  médicos que atendem conveniados costumam ter duas agendas: uma para quem paga o preço caro da consulta particular, e outra para os conveniados de planos de saúde. E se você, leitor amigo, tem dúvida  do que afirmo, teste na primeira oportunidade: ligue para o médico conveniado e veja  quando ele tem espaço na agenda para consulta, e em seguida, ligue como paciente particular, e você verá que os prazos são diferentes para as duas situações.

 Outro exemplo: veja em quanto tempo você foi (ou é) atendido pelo médico do convênio – e pergunte a diferença do tampo da consulta e detalhamento desta, a outras pessoas que foram atendidas pelo mesmo profissional, mas  na condição de paciente que paga pelo atendimento particular.

Claro que o tratamento diferenciado não correrá (espera-se)numa cirurgia ou no mérito dos atendimentos diretos em geral. E além disso,  é preciso reconhecer que alguns profissionais esforçam-se ao máximo para não discriminar o paciente do plano de saúde. Mas não se pode esconder que o tratamento diferenciado, como no caso do meu amigo e dos exemplos citados, é largamente adotado por profissionais de   planos e seguro saúde.

 E se por um lado sabemos que é justa a denúncia dos médicos  a respeito do valor indigno que recebem dos planos de saúde, por outro lado, temos que admitir que há  dois culpados pelo serviço diferenciado: os planos de saúde exploradores, e os médicos que distinguem, em muitos aspectos, o paciente conveniado do paciente particular. Ou seja, não é justo que se transfira  para o consumidor (paciente de um profissional de saúde) os efeitos da espoliação do convênio médico – pelo menos que não se transfira tais efeitos para o enfermo fragilizado pela doença grave.

Sim, porque enquanto o tratamento diferenciado ocorre no tempo para marcação de consultas e  no atendimento relâmpago do primeiro contato com o médico (por exemplo,  para solicitação de exames), o desrespeito é menos grave.  Mas atender o paciente com enfermidade séria quase sempre por e-mail – ou deixa-lo, durante dias, sem pista sobre o paradeiro de quem um dia fez o juramento de Hipócrates, aí já é demais!

Por fim, deve-se sempre ressaltar,  que tudo que se disser sobre problemas envolvendo  planos de saúde e médicos conveniados, é só uma parte de um gigantesco desafio de todos nós, a saber: a necessidade uma premente revolução no sistema de saúde do Brasil.

Sim, porque a profunda crise deste, tanto no âmbito do SUS, como dos planos de saúde, só não veem os nossos governantes  relapsos ( e seus asseclas inúteis), que nos enganam com soluções paliativas e de visibilidade fácil. E também não veem o referido desafio premente, claro, o cume de  nossa elite, para quem as portas dos hospitais e equipes médicas de ponta abrem-se com pompa.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.