Mais de 80% dos donos não fazem recall de seus carros

Marcelo Moreira

10 de agosto de 2011 | 07h05

Saulo Luz

Cerca de 81% dos motoristas brasileiros não atenderam às 33 convocações de recall de veículos feitas apenas em 2011. É o que mostra o sistema de acompanhamento de recalls da Fundação Procon-SP. O resultado dessa baixa adesão aos chamados é que milhões de carros circulam pelo País sem condições de segurança, elevando o risco de acidentes.

Segundo o Procon-SP, só 114.356 veículos (de um total de 603.158 convocados) atenderam aos recalls este ano – cerca de 19% do total. Desde 2002, quando o órgão de defesa do consumidor passou a acompanhar as convocações, a indústria automobilística fez 355 campanhas, que somam quase 6 milhões de veículos (5.831.835). Porém, somente 3.126.070 participaram das convocações (53,6%).

Em 2011, os veículos leves (carros de passeio e utilitários) são os que tiveram mais chamados. Foram 571.405 unidades e apenas 107.672 atenderam ao chamado. Entre motocicletas e caminhões, o índice de participação é nulo – já que nenhum dos 13.976 caminhões e nenhuma das 3.327 motos convocados passaram pelo recall. Dos 14.450 ônibus chamados, 6.684 foram reparados.

“O consumidor tem se habituado com o aumento de recalls nos últimos anos. Contudo, ainda falta muito para que se conscientize da importância de participar. Falamos da segurança e da saúde dele”, diz o diretor de fiscalização do Procon-SP, Renan Ferraciolli. “A partir do momento que não atende, o motorista passa a guiar uma bomba-relógio que pode comprometer a ele mesmo, seus familiares ou inocentes nas ruas”, acrescenta ele.

Aviso na documentação

Outro risco é o de prejuízo. Isso porque a partir do próximo licenciamento de veículo, o Registro Nacional de Veículos Automotores (Renavam) e o Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV) vão conter um histórico do veículo em recalls (a partir de março passado) e informar se o automóvel foi incluído em alguma convocação e se seu proprietário atendeu ao chamado.

“Ao tentar adquirir um carro que não foi às convocações, fatalmente o futuro comprador vai barganhar um desconto por conta do tempo que vai perder nesses recalls”, explica Ferraciolli.

Para Maria Inês Dolci, coordenadora institucional da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, o licenciamento é um ponto positivo para incentivar a participação do consumidor, mas não é suficiente. “O recall tem que ser melhor informado. A divulgação parece não estar chegando aos consumidores. Além disso, o apelo do recall é muito importante. Não adianta comunicar sem dizer quais os riscos e perigos”, diz.

Tanto Procon-SP quanto a Pro Teste concordam que a empresa jamais pode se abster de culpa (num eventual acidente, por exemplo) com a desculpa de que o cliente não atendeu ao recall.

Porém, há casos em que o consumidor enfrenta problemas ao responder à convocação. A consultora de imagem Janaina Rocha dos Santos Teixeira, de 33 anos, tentou atender aos dois recalls de seu Toyota Corolla – o último para reparo de problema na mangueira de partida a frio que poderia vazar gasolina e até causar explosão do carro.

“Meu carro tem pouco mais de um ano e já estou no segundo recall. Na primeira vez que tentei agendar, só tinham data para um mês depois, pois a demanda era grande. Acontece que o problema é grave e não queria esperar um mês e correr o risco de meu carro explodir”, diz ela que estava grávida e teve problemas para comparecer na data agendada. “Dias antes, tentei remarcar e a nova data era só para depois de outros 30 dias. Tive que insistir muito até que consegui marcar para uma data mais próxima”, conta.

Segundo Ferraciolli as montadoras não podem demorar tanto para atender. “O atendimento precisa ser imediato, até pelo risco.”

 

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