Identidade, CPF… e sossego perdidos

Marcelo Moreira

04 de maio de 2009 | 20h50

SAULO LUZ – JORNAL DA TARDE

Quem já teve documentos roubados ou perdidos sabe que o transtorno de tirar uma nova via de todos os papéis não é nada comparado a ser surpreendido por cobranças indevidas e descobrir que outra pessoa está utilizando seus dados para efetuar compras e sujar seu nome na praça.

Dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) indicam que em 2005 foram cerca de 300 mil ocorrências e fraudes bancárias deste tipo, causando um prejuízo de R$ 300 milhões naquele ano.

O comerciante Wilson Roberto Pizatto, 56 anos, por exemplo, foi roubado no ano 2000 e só em 2004 descobriu que os criminosos estavam utilizando seus documentos para fazer compras no crediário, abrir contas em bancos e até empresas.

“Na época eu fiz o Boletim de Ocorrência direitinho. Mesmo assim, quando fui abrir uma conta anos depois, meu nome apareceu em lista de inadimplentes”, relata.

Com os documentos roubados, os estelionatários “fizeram a festa”, abrindo conta em bancos, comprando eletrodomésticos e emitindo vários cheques sem fundo.

“Abriram diversas firmas suspeitas, com endereços espalhados pelo Brasil inteiro, em meu nome. Um dos casos, era um posto de combustível que estava envolvido até em adulteração de gasolina”, conta Wilson que além de ficar com nome sujo, foi alvo de vários processos judiciais por causa das empresas em seu nome.

“Tive de chamar um advogado para me ajudar a resolver a situação. Além disso, como não conseguia mais realizar financiamentos de imóveis e veículos por causa das restrições, troquei o número do meu CPF para não ter mais problemas. Passei tanto nervoso que isso se refletiu na minha saúde e sofri vários problemas, como enfarte.”

O escrevente técnico João Marcos Rocha da Silva, 45, também passou por situações parecidas. “Certo dia me ligaram dizendo que eu estava com seis prestações de um colchão atrasadas. Achei estranho, pois não tinha comprado nada disso. Quando fui verificar, apareceram outros financiamentos e cheques devolvidos em meu nome”, lembra.

Por ter feito o B.O. rapidamente, João Marcos conseguiu provar que era a vítima. “É a minha garantia. Hoje guardo esse B.O. há sete chaves”, diz ele.

Para Marcel Solimeo, economista-chefe da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), uma dica para evitar o problema é evitar carregar todos documentos juntos.

“Ao ser roubado ou perceber o desaparecimento dos documentos, avise o seu banco – no caso de cartões e cheques. Depois, ligue imediatamente para o serviço gratuito de alerta do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC)”, recomenda.

O ‘SOS cheques e documentos’ – que funciona 24h, todos os dias da semana – registra todos documentos roubados e extraviados. “Quando o malandro for utilizá-los, um aviso aparecerá na tela do comerciante ao consultar”, explica.

A Serasa também tem um serviço de bloqueio para documentos e cheques, o Plantão Serasa Experian. O serviço vem crescendo a cada dia. Em 2008, foram cadastrados 80.889 documentos ante 45.348 de 2007.

Além disso, no primeiro trimestre deste ano totalizou 18.879 documentos – no mesmo período do ano passado foram 14.412. “Esses serviços são uma garantia adicional para evitar a circulação do documento. Mas duram apenas 24 ou 72 horas. Por isso, é fundamental fazer o B.O. rapidamente”, diz Solimeo.


Miriam teve a carteira de habilitação e os cartões de bancos roubados
(FOTO: JOSÉ LUÍS DA CONCEIÇÃO/AE)

Conselho que foi seguido pela estudante de arquitetura Miriam Cheruti, 22, que teve a bolsa levada em um assalto no final do ano passado. “Como não ando mais com documento de identidade, só perdi a carteira de motorista, cartões de banco e fotos”, lembra ela que imediatamente ligou para o banco e pediu o bloqueio dos cartões.

“No dia seguinte, fui à delegacia próxima do local do crime e fiz o B.O.”, conta. Os cuidados, até agora, deram resultado. “Por enquanto, não compraram nada em meu nome. Mesmo assim, o B.O está bem guardado.”

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