Foi só um susto… Passou…

Marcelo Moreira

09 de novembro de 2008 | 22h12

JOSUÉ RIOS – COLUNISTA DO JORNAL DA TARDE

A saga de infortúnios do sr. Furtado, o Consumidor, começou cedo nesta sexta-feira com uma dupla fisgada no que há de mais importante – a saúde. Ele sofreu no périplo por um atendimento digno para uma dessas indisposições madrugadeiras que não se sabe onde começa – e muito menos onde pode terminar – enquanto um mago e iluminado de branco não “sentencia” o diagnóstico!

Mais: o sr. Furtado parece gostar mesmo de complicar, ainda que o diálogo com o incerto pareça vir do tórax. Daí eis a primeira coisa que veio à cabeça do infeliz: cadê as AMAs (Assistência Médica Ambulatorial) do prefeito Kassab? “Quero testar uma agora”, decidiu Furtado, que se dirige à mais próxima, a da rua Vitorino Carmilo, na Barra Funda (zona oeste da Capital).

De todo modo, verdade seja dita: o ambiente parece mais organizado e as pessoas da fila sinalizam mais esperança de serem atendidas do que no passado. E ainda que se possa dizer – conclui o sr. Furtado – que,para um povo abandonado à sorte, qualquer afago é amor, o assunto saúde, enquanto atendimento direto ao enfermo, parece ter entrado na pauta dos políticos nesta eleição municipal.

Mas o sr. Furtado avisa: nenhum prefeito vai arrancar-lhe atestado de aprovação na saúde pública enquanto o consumidor em questão não for convencido de que o carnê do plano de saúde já pode ser rasgado – e o seu bolso aliviado da sangria.

Mas, voltando à AMA da Vitorino Carmilo: depois de dez pessoas à frente (a menor fila do local) e dissipados alguns bate-papos – que funcionário público não é de ferro –, por volta das 7h a pressão do sr. Furtado é medida, com a boa notícia de que o seu coração bate sem percalços.

Mas, como nada mais lhe foi dito ou perguntado, muito menos encaminhado, Furtado resolveu levar a outro foro o seu incômodo “cardiomadrugadeiro”. E, pouco depois, estava preenchendo ficha no pronto-socorro do plano de saúde, o hospital Santa Cecília.

Tudo ia bem. Foi logo chamado pela médica Lucia Helena Conradi. Mas aí… aí veio aquele velho e malfadado hábito da uma parte (grande) dos médicos. A saber: “O que o senhor tem”? – pergunta que o paciente não deve se atrever a levar a sério, sob pena de ser bruscamente cortado – como entrevistado de certos “talk-show” televisivos que não são convidados ali para explicar nada.

A boa notícia: a doutora Lucia informou que a pressão estava normal e ponto. Quanto ela media, Furtado saiu sem saber. Mas lhe foi determinado que fosse submetido a medicamentos, inclusive intravenoso.

Só que, rebelde, Furtado concluiu que foi ali para saber se ia enfartar e não para tomar remédios. E só fez o eletrocardiograma. Também normal. Mas a médica quis mais: o paciente deveria fazer ainda dois exames creatinofosfoquinase (CPKs).

Aí o sr. Furtado pensou: “Tudo bem. Prudência em excesso, menos mal. Mas agora ela vai explicar”. Afinal, com duas coletas de sangue pela frente, de madrugada para quem nasceu Zumbi sem pão na chapa e nem pingado na padaria, seringa afiada num braço casto só com “aula de saúde”. Era o que queria Furtadinho, mas ledo engano. “Vai fazer e não pergunta”, é a tradução do que restou ao pobre Furtado.

E aí, haja coração. Sim, porque uma das partes do Código do Consumidor e do Código de Ética Médica que Furtado mais gosta de ler e reler é a que diz respeito ao direito à informação ao consumidor (o paciente), aspecto não devidamente observado pela ilustre doutora Lucia – o que só não aumentou a taquicardia do sr. Furtado porque o paciente foi recebido por um seleto grupo de auxiliares de enfermagem que, gentil e didaticamente, explicou o porquê de fazer os CPKs, realizados com sucesso para o alivio final do paciente.

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