Filiados da Avimed: qual será o futuro?

Marcelo Moreira

14 de março de 2009 | 20h21

JOSUÉ RIOS – COLUNISTA DO JORNAL DA TARDE

As empresas de assistência médica gostam de dizer que administram vidas, referindo-se à assistência dos seus filiados. Mas nem sempre atuam de forma que prometem nas propagandas, como tenho anotado neste espaço.

E um exemplo do inferno a que estão sujeitos os contratantes da saúde privada é o que vem ocorrendo com os conveniados da Aviccena Assistência Médica. Sim, eu disse Aviccena – empresa com 400 mil filiados, segundo as propagandas.

O leitor, por acaso, a conhece? Anote: Aviccena é o nome oficial da Avimed Saúde que, desde abril de 2008, sofreu intervenção da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Fato é que nos últimos meses muitos idosos filiados à empresa demoram horas na fila para pegar a guia para realizar consultas, exames e cirurgias, e voltam para casa mais enfermos ainda, em razão da angústia de não serem atendidos, pois muitos médicos, laboratórios e hospitais credenciados parecem ter abandonado o barco, sob a alegação de falta de pagamento.

Mais: muitas vezes o conveniado volta à fila da Avimed (“fila do horror”, dizem alguns), pega nova guia de consulta ou exame, gasta tempo e dinheiro para fazer uma nova tentativa de atendimento e, mais uma a decepção: “não atendemos mais a Avimed”, informam os profissionais credenciados. E a rotina de ir e vir (inútil) parece não ter fim …

Detalhe: isso vem ocorrendo principalmente com pessoas de idade avançada, que estão com o pagamento da mensalidade em dia, e arcaram com o custo do plano por toda uma vida, para hoje receberem portadas na cara.

Mas o pior é que a crise atual na Avimed anuncia enfermidade mais grave, a saber: qual o futuro dos 215 mil filiados da empresa?

Bom lembrar que grande parte deles vêm da outrora saudosa Interclínicas (coisa de 20 anos atrás), depois passarem pela Saúde ABC e aportaram na Avimed.

O número de filiados acima é fornecido pela ANS na publicação que anuncia sua intervenção na empresa.

Primeiro foi a decretação de Direção Fiscal e Técnica em abril de 2008, que atualmente virou “Alienação Compulsória da Carteira Aviccena”, o que obriga a empresa a tentar vender a carteira de filiados a outra operadora no prazo de 30 dias, prorrogáveis por mais 15 dias – suspense que vai até a primeira semana de abril, quando o próximo capítulo já está definido: se a própria Avimed não conseguir vender a carteira no prazo citado, esta será colocada em oferta pública pela ANS e aí levará a “mercadoria” quem oferecer melhores condições de abrigar os conveniados.

A pergunta é: todos os passageiros dessa agonia encontrarão vagões na próxima embarcação? Ou somente alguns (os mais rentáveis) viajarão? Sim, porque é permitida a transferência fracionada dos conveniados.

Qual o pior dos cenários? Respondo: se passado todo o suspense, não surgir ninguém disposto a receber os eventuais órfãos da Avimed, a estes só restarão guardar como triste lembrança os contratos empoeirados e desbotados pelo tempo. E aviso que isso já ocorreu com alguns planos de saúde, que enfartaram e foram a óbito pelo Brasil a fora.

Há esperança que isso não ocorrerá neste caso por se tratar de uma grande carteira de filiados e onde quase metade dos associados pertence a planos coletivos.

Mas existe uma peça decisiva no jogo: o órgão regulador, a ANS. É preciso saber o que a agência governamental fez até agora no caso Avimed, e se irá operar com força máxima para evitar náufragos nessa fase de maremotos.

A ANS acredita que conseguirá fazer a travessia da carteira. É o que se espera, até porque existem muitas perguntas que a agência terá de responder caso ocorra o pior e, inclusive, não estará livre de indenizar as vítimas do caos.

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