Diálogo franco sobre planos de saúde

Marcelo Moreira

22 de abril de 2012 | 07h08

Josué Rios – colunista do Jornal da Tarde

Os especialistas chamam os contratos de plano de saúde de “contratos cativos”. O nome não é à toa. Afinal, por desleixo dos governantes, fomos empurrados para os braços das empresas de assistência médica, e delas não conseguimos sair – e nem podemos trocá-las, como se troca de padaria ou de mercadinho.

Diz o plano de saúde para o sr. Furtado, o Consumidor: “Quando era jovem, você pagava mensalidades baratas, e decidiu permanecer no convênio. Como empresa, também não queria que você me abandonasse. Afinal, no início do contrato, você dava muito lucro, pois quase não usava os serviços – mas pagava, tintim por tintim, as mensalidades.”

Continua o plano de saúde: “Fomos felizes até aqui. Mas agora precisamos discutir a relação.” Como assim, pergunta o sr. Furtado? “O tempo passou, e você agora está mais carente, precisa mais de atenção e de cuidados. Enquanto eu estou cansado. Toda dia você me pede exames, ressonâncias caras e cirurgias. Não dá mais!”

O sr. Furtado, indignado e responde ao plano: “Quem não aguenta mais as humilhações de vocês sou eu. Após anos de dedicação e pagamento pontual, sempre que preciso usar o serviço de saúde a que tenho direito, sou submetido a um show de enrolação e martírio, e tenho de recorrer aos jornais ou à Justiça para ser atendido, até nos casos de urgência.”

O sr. Furtado continua: “O plano só cuida bem dos lucros, e está pouco interessado em nossa saúde. Mas isso acontece – lembra o sr. Furtado, porque órgãos como Procon, ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), e Ministério Público (área do consumidor), não se unem para uma atuação conjunta e permanente contra os desmandos dos planos.”

E tem mais, queixa-se o consumidor: “Os médicos que vocês nos oferecem, principalmente, na capital, nos humilham. Pois nunca têm horário para consulta ou nos atendem quando querem, e em cinco minutos. Parece que estamos pedindo um favor a eles! Alguns médicos só ‘abrem a agenda’ (novo jargão do consultório) para marcação de consultas num único dia da semana. E quem não ligar nesse dia não vai conseguir agendar a consulta. Sem contar que é missão quase impossível falar com um médico ou médica do convênio fora do horário agendado, mesmo quando precisamos de uma orientação urgente”, desabafa o sr. Furtado.

Finalmente, pergunta o mesmo sr. Furtado ao plano de saúde: “O que vocês fazem contra o descaso dos médicos?”

Oportunismo

Em tom de confidência, o representante do plano (que também é de carne e osso) abre com o jogo com o sr. Furtado quanto aos médicos: “As empresas de saúde os exploram, com a calculadora na mão, mas não têm tanto poder sobre eles. Alguns, em início de carreira, precisam da grana magra dos planos e procuram atender bem até que consiga formar sua clientela. Em seguida, dão adeus à empresa de saúde. Outros, não abrem mão do pagamento, que tanto criticam, para completar o orçamento, mas descontam a defasagem da má remuneração nos consumidores, com atendimento aquém do esperado.”

Muitos médicos têm duas agendas. Uma para o conveniado, que está sempre lotada, sendo que o infeliz tem de esperar sentado de um a três meses. E outra agenda para o cliente particular, que paga diretamente a consulta. Para este, a agenda do profissional é mais flexível e o atendimento é “diferenciado”, como ensina o mercado.

Mas é preciso reconhecer que também existem os médicos de plano de saúde que suam a camisa para conciliar, em nome ética e do respeito ao próximo, os interesses do enfermo conveniado e do que paga diretamente a consulta. Quando encontrá-los, reverencie e agradeça-os.

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